Pode evoluir para um quadro grave em poucas horas
A meningite meningocócica, doença que pode transformar horas de febre comum em risco de morte, encontra agora um novo escudo clínico: a vacina MenQuadfi demonstrou, em estudo de fase 3 publicado em maio de 2022, proteção superior e mais duradoura contra os quatro tipos principais da bactéria em bebês de até dois anos. No Brasil, onde cerca de mil casos ocorrem anualmente e o tipo W mais agressivo vem crescendo há uma década, a descoberta chega como um lembrete de que a ciência da prevenção ainda tem fronteiras a expandir — especialmente quando crianças saudáveis podem adoecer gravemente em questão de horas.
- A meningite meningocócica pode evoluir de sintomas banais para formas fatais em poucas horas, e o Brasil registrou 11 mortes em crianças e jovens apenas em 2022.
- O tipo W da bactéria, mais agressivo que o tipo C predominante, vem aumentando no país há dez anos, pressionando os limites das vacinas atualmente disponíveis no calendário público.
- Com o fim do isolamento pandêmico, os casos de meningite voltam a crescer justamente entre crianças que ficaram sem vacinação nos últimos dois anos — criando uma janela de vulnerabilidade.
- A MenQuadfi respondeu ao desafio: em 701 bebês europeus não vacinados, superou a vacina quadrivalente existente e igualou a monovalente, mantendo 100% de anticorpos detectáveis três anos após a aplicação.
- A vacina já tem autorização de uso no Brasil para crianças acima de 12 meses, abrindo caminho para ampliar a proteção nacional contra os quatro tipos mais comuns da doença.
A meningite meningocócica inflama a membrana que protege o cérebro e o sistema nervoso central, e sua crueldade está na velocidade: sintomas iniciais como febre e fraqueza podem enganar até que a doença já avançou para formas graves. É contra esse inimigo imprevisível que uma nova vacina, a MenQuadfi, apresentou resultados promissores em estudo clínico de fase 3 publicado em maio de 2022 na revista Human Vaccines and Immunotherapeutics.
O estudo recrutou 701 bebês entre 12 e 23 meses em 29 centros de pesquisa na Alemanha, Dinamarca e Finlândia — nenhum deles vacinado anteriormente contra meningococo. Divididos em três grupos, as crianças receberam a MenQuadfi, a vacina quadrivalente da Pfizer ou a monovalente contra o tipo C. A nova fórmula igualou a resposta imune da monovalente e superou a da quadrivalente, especialmente contra o meningococo C, responsável por cerca de 80% dos casos no Brasil. Nenhum efeito adverso grave foi registrado.
O dado mais marcante veio três anos depois: 100% das crianças vacinadas com MenQuadfi ainda apresentavam anticorpos detectáveis, contra apenas 60% das que receberam a vacina quadrivalente existente. Para Isabelle Bertrand, da Sanofi Europa, é a primeira vez que uma vacina quadrivalente demonstra resposta imune superior à monovalente em crianças não previamente imunizadas.
No Brasil, o contexto torna a novidade ainda mais relevante. O calendário público oferece a vacina monovalente C na infância e a quadrivalente apenas para adolescentes de 11 e 12 anos desde 2020. Nos últimos dez anos, porém, o tipo W — mais agressivo — vem crescendo em incidência. O pediatra Marco Aurélio Sáfadi, da Santa Casa de São Paulo, destaca que a MenQuadfi oferece resposta mais robusta e duradoura, o que pode significar proteção mais prolongada contra diferentes formas da doença.
A pandemia reduziu os casos de meningite em cerca de dois terços pelo isolamento social, mas o retorno às atividades normais trouxe recrudescência. Com crianças que ficaram sem vacinação nos últimos dois anos, especialistas alertam para a necessidade urgente de ampliar a cobertura — e a MenQuadfi, já autorizada no Brasil para maiores de 12 meses, surge como uma ferramenta concreta nesse esforço.
A meningite meningocócica ataca a meninge, a membrana que envolve o sistema nervoso central e o cérebro, provocando uma inflamação que pode evoluir para formas graves em poucas horas. Os sintomas iniciais são inespecíficos — fraqueza, febre, vômito, dor de cabeça — e a doença pode levar à hospitalização e morte, especialmente em crianças que até então gozavam de boa saúde.
Uma nova vacina chamada MenQuadfi demonstrou em testes clínicos de fase 3 que oferece proteção superior contra os quatro tipos mais comuns dessa bactéria em bebês de até dois anos que nunca haviam sido vacinados. O estudo, publicado em maio de 2022 na revista especializada Human Vaccines and Immunotherapeutics, comparou a MenQuadfi com duas fórmulas já em circulação: a monovalente contra o tipo C e a quadrivalente que protege contra os tipos A, C, W e Y. A resposta imunológica gerada pela nova vacina igualou-se à da monovalente e superou a da quadrivalente existente, particularmente contra o meningococo C, que representa cerca de 80% dos casos de meningite meningocócica no Brasil.
Os pesquisadores recrutaram 701 bebês com idade entre 12 e 23 meses em 29 centros de pesquisa distribuídos pela Alemanha, Dinamarca e Finlândia. Nenhuma criança havia recebido vacina meningocócica anterior. O grupo foi dividido em três: 230 receberam a MenQuadfi, 232 receberam a quadrivalente da Pfizer e 239 receberam a monovalente contra o tipo C. Amostras de sangue foram colhidas antes da vacinação e 30 dias depois para medir a produção de anticorpos. A vacina mostrou-se segura, sem registro de efeitos adversos graves.
O que torna a MenQuadfi particularmente relevante é a durabilidade da proteção. Quando avaliadas três anos após a vacinação, 100% das crianças imunizadas com a nova fórmula ainda apresentavam anticorpos detectáveis, enquanto apenas 60% daquelas que receberam a vacina quadrivalente mantinham essa proteção. Segundo Isabelle Bertrand, vice-diretora de assuntos médicos de vacinas da Sanofi Europa, este é o primeiro estudo que demonstrou uma vacina meningocócica quadrivalente com resposta imune superior em crianças não previamente imunizadas quando comparada a uma vacina monovalente disponível.
O contexto europeu que motivou o estudo é revelador. O Reino Unido e a Holanda enfrentaram surtos causados por uma forma mais agressiva do meningococo C, justamente porque a população tinha menor proteção contra esse tipo específico — um fenômeno conhecido como escape vacinal. Em resposta, os programas nacionais de imunização europeus começaram a oferecer a vacina monovalente C nos primeiros dois anos de vida, seguida pela forma quadrivalente na adolescência.
No Brasil, o cenário é diferente. O Programa Nacional de Imunização oferece a vacina monovalente C no calendário de rotina infantil com três doses — aos três, cinco e 12 meses — sendo a última uma dose de reforço. A vacina quadrivalente é oferecida na rede pública apenas para adolescentes de 11 e 12 anos desde 2020. A MenQuadfi já possui autorização para uso em crianças maiores de 12 meses no país. Além disso, nos últimos dez anos, observou-se um aumento significativo na incidência de meningite causada pelo tipo W, que é mais agressivo que o tipo C.
Segundo Marco Aurélio Sáfadi, pediatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, a nova vacina oferece uma resposta imunológica muito robusta e mais duradoura. Essa taxa mais elevada de anticorpos pode se traduzir em proteção mais prolongada contra diferentes formas da doença. Embora a meningite meningocócica seja rara — cerca de mil casos por ano no Brasil em período pré-pandemia — ela causa temor justificado pela velocidade com que pode evoluir para formas graves. Em 2022, o Ministério da Saúde registrou 11 óbitos em crianças e jovens de zero a 19 anos; em 2021 foram nove mortes, e em 2020, 51.
Durante a pandemia, as doenças de transmissão respiratória, incluindo a meningite, tiveram redução significativa na incidência devido ao isolamento e ao afastamento das crianças das escolas. Com o retorno às atividades normais, observa-se uma recrudescência de casos. Sáfadi aponta que houve redução de cerca de dois terços dos casos que normalmente se observavam, e agora é necessário aumentar a proteção, especialmente daqueles que não foram vacinados nos últimos dois anos, para evitar novos surtos.
Citas Notables
É provável que essa taxa mais alta de anticorpos se traduza em uma proteção mais duradoura, protegendo as crianças por mais tempo e contra as diferentes formas— Marco Aurélio Sáfadi, pediatra e presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria
Na maioria das vezes, ela acomete crianças saudáveis, sem nenhuma condição prévia, e pode evoluir para um quadro grave com internação e até risco de vida em poucas horas— Marco Aurélio Sáfadi
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que essa vacina é diferente das que já existem?
A MenQuadfi consegue gerar uma resposta imunológica mais forte contra o meningococo C — que causa 80% dos casos no Brasil — e mantém essa proteção por mais tempo. Três anos depois, praticamente todas as crianças vacinadas ainda tinham anticorpos.
Mas se já existem vacinas monovalente e quadrivalente, qual é a vantagem real?
A monovalente protege apenas contra um tipo. A quadrivalente protege contra quatro, mas com proteção menor contra o tipo C. A MenQuadfi oferece o melhor dos dois mundos: proteção contra quatro tipos com resposta superior especificamente contra o C.
Como os pesquisadores testaram isso?
Recrutaram 701 bebês europeus que nunca haviam sido vacinados contra meningococo. Dividiram em três grupos e compararam as respostas imunológicas. Nenhuma criança teve efeitos adversos graves.
Isso importa para o Brasil?
Muito. Aqui o tipo C é dominante, mas o tipo W está aumentando e é mais agressivo. A meningite é rara, mas mata crianças saudáveis em poucas horas. Uma proteção mais duradoura significa menos risco.
E quanto à pandemia, mudou algo?
Durante o isolamento, os casos caíram dois terços porque as crianças não se encontravam. Agora que voltaram à escola, os casos estão reaparecendo. Vacinar quem ficou desprotegido nesses dois anos é urgente.