Não podemos romantizar esse percurso difícil
Brasil mantém posição de destaque na produção científica internacional, com Ciências da Saúde respondendo por 27% da produção indexada entre 2014 e 2023. Jovens pesquisadores como Luis Roberto da Silva exemplificam como políticas de acesso ao ensino superior transformam trajetórias e fortalecem a pesquisa em saúde coletiva.
- Ciências da Saúde responderam por 27% da produção científica brasileira indexada entre 2014 e 2023
- Luis Roberto da Silva foi o primeiro de sua família a estudar em universidade pública e ingressar em doutorado
- Brasil se destaca entre nações que mais desenvolvem pesquisas voltadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU
No Dia Nacional da Ciência, pesquisadores brasileiros reafirmam o compromisso com a produção de conhecimento para fortalecer o SUS e enfrentar desigualdades, apesar de desafios de financiamento e valorização da carreira científica.
No dia 8 de julho, quando o Brasil marca o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico, a reflexão que emerge não é sobre números em abstrato, mas sobre o que a produção de conhecimento realmente faz: orienta políticas públicas, fortalece o Sistema Único de Saúde e reduz desigualdades. É um momento para olhar tanto para trás — para o caminho percorrido — quanto para frente, para os desafios que ainda exigem enfrentamento.
Rômulo Paes de Sousa, presidente da Abrasco, coloca a questão em termos claros: a Saúde Coletiva tem um compromisso inerente com o enfrentamento das desigualdades e iniquidades em saúde. Produzir conhecimento, fortalecer a formação de pesquisadores e promover a troca de experiências são os caminhos para responder aos desafios do país. Não é retórica vazia — é a descrição de um trabalho que, quando feito bem, defende a vida e o direito à saúde.
Os números revelam uma ciência brasileira que cresce e dialoga com o mundo. Entre 2014 e 2023, as Ciências da Saúde responderam por 27% de toda a produção científica brasileira indexada, consolidando-se como a principal área de pesquisa do país. O impacto das citações fica acima da média mundial. O Brasil também se destaca entre as nações que mais desenvolvem pesquisas voltadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente em saúde, educação, redução da pobreza, equidade e preservação ambiental. Cecília Minayo, editora científica da revista Ciência & Saúde Coletiva, que marca seus 30 anos, observa que mesmo diante das transformações profundas na comunicação e divulgação científica, o país mantém posição de destaque e amplia a colaboração entre pesquisadores de diferentes países, fortalecendo o acesso aberto às publicações.
Mas por trás dos indicadores estão pessoas. Luis Roberto da Silva é doutorando em Saúde Coletiva cuja trajetória começou em 2018, durante a graduação na Universidade Federal de Pernambuco, no Centro Acadêmico de Vitória. Ele foi o primeiro de sua família a estudar em uma universidade pública e o primeiro a ingressar em um doutorado. Sua experiência só foi possível graças à expansão do acesso ao ensino superior e às políticas de permanência estudantil. Durante a graduação, escreveu seu primeiro resumo para congresso, publicou seu primeiro artigo e atuou como bolsista de iniciação científica. Estudar em um campus interiorizado lhe mostrou a importância de lutar pela democratização do acesso às instituições de ensino superior, pelas políticas de permanência e por financiamento adequado. Para ele, chegar à universidade era algo muito distante.
Hoje, Luis desenvolve pesquisa de doutorado sobre gestão e acesso à cirurgia bariátrica no SUS em Pernambuco, participa de estudos sobre a formação e atuação de sanitaristas graduados no Brasil e sobre epidemiologia de doenças transmissíveis no estado. Em 2026, realizou um estágio de pesquisa na Universidade de Antióquia, na Colômbia, experiência que ampliou sua visão sobre a Saúde Coletiva na América Latina.
Apesar dos avanços, seguir na carreira científica ainda representa um desafio para muitos jovens pesquisadores. Luis cita as dificuldades de financiamento, as incertezas sobre o futuro da carreira, a busca por direitos trabalhistas e previdenciários para estudantes de pós-graduação e a pressão pelo produtivismo acadêmico. Ele é claro: não se pode romantizar esse percurso difícil. É necessário lutar por uma ciência democrática, acessível, ética e devidamente valorizada, ainda mais em tempos de rápida disseminação de notícias falsas.
Fortalecer a ciência brasileira passa por investimento em infraestrutura e insumos, pela formação de novas pesquisadoras e pesquisadores e pela ampliação das oportunidades de pesquisa em todas as regiões do país. Significa também produzir conhecimento comprometido com o enfrentamento das desigualdades sociais, das mudanças climáticas e da defesa do SUS. A convergência entre as reflexões de Minayo, a trajetória de Luis e a visão da Abrasco aponta para um entendimento compartilhado: a ciência é construída por pessoas, depende de investimento contínuo e tem papel estratégico na formulação de políticas públicas e na busca por soluções para os desafios sanitários, sociais, econômicos e ambientais do país. Valorizar quem pesquisa é fortalecer o SUS e ampliar a capacidade da sociedade de enfrentar as desigualdades com base em evidências científicas e compromisso social. Como resume Luis, o maior reconhecimento para quem escolhe a carreira científica não está apenas no título conquistado, mas no impacto que o conhecimento produzido pode gerar na vida das pessoas.
Notable Quotes
A Saúde Coletiva tem como compromisso inerente o enfrentamento das desigualdades e das iniquidades em saúde. Produzir conhecimento, fortalecer a formação de pesquisadores e promover a troca de experiências são caminhos para que possamos responder aos desafios do país— Rômulo Paes de Sousa, presidente da Abrasco
O maior reconhecimento para quem escolhe a carreira científica não está apenas no título conquistado, mas no impacto que o conhecimento produzido pode gerar na vida das pessoas— Luis Roberto da Silva, doutorando em Saúde Coletiva
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a história de Luis Roberto da Silva importa tanto neste momento?
Porque ela mostra que a ciência não é um privilégio de quem já nasceu dentro do sistema. Luis foi o primeiro de sua família na universidade pública. Sem as políticas de permanência estudantil e de acesso, ele não estaria aqui. Isso não é apenas inspirador — é evidência de que investimento público em educação funciona.
Mas ele mesmo diz que a carreira científica é difícil. Qual é o ponto, então?
O ponto é que a dificuldade não deveria existir. Luis está fazendo pesquisa que importa — sobre acesso à cirurgia bariátrica no SUS, sobre formação de sanitaristas. Isso é trabalho que o país precisa. Mas ele tem que lutar por financiamento, por direitos trabalhistas, por reconhecimento. A ciência não fracassa porque falta talento. Fracassa porque falta investimento.
Os números mostram que o Brasil está indo bem na produção científica. 27% em Ciências da Saúde. Isso não é suficiente?
Números são uma coisa. A realidade vivida pelos pesquisadores é outra. Sim, o Brasil produz ciência de qualidade. Mas quantos Luises não chegam à universidade? Quantos pesquisadores abandonam a carreira porque não conseguem se sustentar? Os números dizem que estamos crescendo. A vida dos pesquisadores diz que estamos frágeis.
Ele menciona a disseminação de notícias falsas. Como a ciência enfrenta isso?
Não enfrenta sozinha. Precisa de financiamento para comunicação científica, de espaço nas mídias, de confiança pública. E confiança se constrói quando as pessoas veem que a ciência melhora suas vidas. Luis pesquisa sobre acesso à cirurgia no SUS. Isso é ciência que toca a vida real. Mas só funciona se as pessoas souberem que existe.
O que muda se o Brasil investir mais em ciência?
Muda tudo. Mais pesquisadores como Luis em todas as regiões do país. Pesquisa sobre os problemas reais do Brasil — desigualdade, clima, saúde. Políticas públicas baseadas em evidências, não em achismo. E uma sociedade que consegue enfrentar seus desafios com conhecimento, não com medo.