Nigéria: milhares protestam contra violência policial enquanto governo promete reformas

Pelo menos dez pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas durante as manifestações; dezenas foram presas pela polícia que usou gás lacrimogêneo e canhões de água.
Quase todo mundo conhece alguém que foi vítima do SARS
A diretora da Anistia Internacional na Nigéria resume como a brutalidade da unidade policial permeia toda a sociedade nigeriana.
Mark

Por que o SARS se tornou tão específico no alvo dos protestos, se a corrupção policial é um problema mais amplo na Nigéria?

Mimi

Porque o SARS era visível. Era uma unidade identificável, com um nome, com histórias que as pessoas podiam contar. Quando você é abordado por um agente sem identificação que extorque seu dinheiro, você não sabe nem a quem culpar formalmente. Mas o SARS tinha um rosto institucional. Era o símbolo que as pessoas conseguiam apontar.

Mark

E por que agora, em outubro de 2020? Esses abusos aconteciam há anos.

Mimi

O vídeo. Um homem sendo arrastado de um hotel e baleado — isso é diferente de uma história que você ouve de um amigo. É prova. É inegável. E as redes sociais fizeram com que aquele vídeo chegasse a milhões de pessoas simultaneamente. De repente, não era mais um problema isolado. Era um padrão que todos podiam ver.

Mark

O governo dissolveu o SARS. Por que as pessoas continuaram protestando?

Mimi

Porque dissolver uma unidade não é o mesmo que justiça. Quem vai investigar os agentes? Quem vai compensar as famílias das pessoas mortas? E há 27% de desemprego. Os jovens estão furiosos não apenas com a polícia, mas com o futuro que lhes foi negado. O SARS era apenas o catalisador.

Mark

E agora o Exército está envolvido. Isso muda tudo?

Mimi

Completamente. Quando o Exército entra, as regras mudam. A polícia pode ser criticada, pode ser dissolvida. O Exército? O Exército pode fazer o que quiser em nome da ordem. É o passo antes da repressão total.

Mark

Você acha que isso vai terminar em violência em massa?

Mimi

Não sei. Mas sei que as pessoas não vão parar de protestar. E sei que o governo está ficando assustado. Quando governos ficam assustados, eles tendem a usar força. E quando usam força contra pessoas que já estão furiosas, as coisas explodem.

  • Um vídeo de agentes do SARS atirando em um homem à saída de um hotel em Lagos incendiou as redes sociais e desencadeou protestos em todo o país e em capitais ao redor do mundo.
  • A Anistia Internacional documentou 82 casos de tortura, maus-tratos e assassinatos extrajudiciais entre 2017 e 2020, com jovens pobres como alvos preferenciais de uma unidade que operava sem identificação e sem prestação de contas.
  • Apesar da dissolução oficial do SARS anunciada pelo presidente Buhari em 11 de outubro, os manifestantes não recuaram — a desconfiança em um sistema estruturalmente corrupto era maior do que qualquer decreto.
  • A repressão estatal se intensificou: gás lacrimogêneo, canhões de água, dezenas de prisões e pelo menos dez mortos durante as manifestações, cada ato de violência ampliando as exigências dos protestos.
  • O Exército sinalizou possível intervenção e o governo proibiu manifestações em Abuja, levantando o espectro de uma escalada que poderia transformar um protesto civil em confronto armado.

Na Nigéria de outubro de 2020, uma geração inteira desceu às ruas para nomear em voz alta o que já sabia em silêncio: que o Estado pode ser o maior perigo para seus próprios cidadãos. O movimento #EndSARS, nascido de um vídeo e alimentado por décadas de impunidade policial, transformou Lagos e outras cidades em palcos de uma exigência antiga — a de que a lei proteja a todos, não apenas os poderosos. Enquanto o governo dissolvia a unidade acusada e prometia investigações, a população permanecia nas ruas, desconfiada de promessas feitas por instituições que nunca foram responsabilizadas.

Dez mil pessoas marcharam em Lagos no sábado, somando-se a uma semana de protestos que já havia sacudido a Nigéria. O alvo era o SARS — Esquadrão Especial Anti-Roubo —, unidade criada em 1992 que, ao longo dos anos, se tornou sinônimo de extorsão, tortura e morte.

Tudo começou com um vídeo gravado em 3 de outubro: agentes filmados removendo dois homens de um hotel e atirando em um deles. A cena se espalhou pelas redes sociais e abriu uma comporta de relatos pessoais. A hashtag #EndSARS viralizou e ganhou apoio de figuras como Marcus Rashford e Wizkid. Manifestações eclodiram em Berlim, Londres, Nova York e Atlanta.

A Anistia Internacional havia documentado 82 casos de violência do SARS entre 2017 e 2020. As vítimas seguiam um perfil reconhecível: jovens entre 18 e 35 anos, pobres, frequentemente com dreadlocks ou tatuagens. Muitos agentes circulavam sem identificação, tornando impossível distinguir policial de criminoso. A diretora da Anistia na Nigéria afirmou que quase todo nigeriano conhece alguém que foi vítima da unidade.

O governo anunciou a dissolução do SARS em 11 de outubro, mas a população não se dispersou. A promessa soava vazia em um país onde a impunidade é estrutural e o desemprego havia atingido 27% — chegando a 34% entre os jovens, numa nação em que mais da metade da população tem menos de 30 anos.

A resposta do Estado aos protestos foi violenta: gás lacrimogêneo, canhões de água, dezenas de prisões e pelo menos dez mortos, segundo a Anistia Internacional. As demandas dos manifestantes cresceram: investigações transparentes, libertação dos presos, compensação às vítimas e reformas estruturais na polícia.

Uma sombra mais grave começou a se formar quando o Exército sinalizou disposição para intervir e o governo proibiu manifestações em massa em Abuja. Manifestantes marcharam até o Parlamento e bloquearam estradas no centro de Lagos, onde houve relatos de confrontos com homens armados não identificados. A questão que pairava sobre o país era se o Estado permitiria que o direito de protestar continuasse existindo.

Dez mil pessoas tomaram as ruas de Lagos no sábado, acrescentando seus corpos a uma semana de protestos que já havia transformado a Nigéria. O alvo era o Esquadrão Especial Anti-Roubo — o SARS — uma unidade policial criada em 1992 para combater roubos e crimes violentos, mas que se tornou sinônimo de extorsão, tortura e morte.

Tudo começou com um vídeo. No dia 3 de outubro, agentes do SARS foram filmados removendo dois homens de um hotel em Lagos e disparando contra um deles. A cena se espalhou pelas redes sociais. Nigerianos começaram a compartilhar suas próprias histórias — abordagens violentas, dinheiro extorquido, desaparecimentos. A hashtag #EndSARS viralizou. O movimento ganhou apoio improvável: o jogador Marcus Rashford, o cantor Wizkid, até Kanye West. Manifestações explodiram não apenas em cidades nigerianas, mas em Berlim, Londres, Nova York e Atlanta.

A escala da brutalidade documentada é assustadora. Entre janeiro de 2017 e maio de 2020, a Anistia Internacional registrou pelo menos 82 casos de violência cometida pelo SARS — torturas, maus-tratos, assassinatos extrajudiciais. Os alvos eram previsíveis: jovens entre 18 e 35 anos, pobres, frequentemente com dread ou tatuagens, marcados por um perfil que os agentes pareciam caçar. Muitos desses agentes circulavam sem identificação, criando uma zona cinzenta onde um nigeriano abordado nunca sabia se estava diante de policiais ou criminosos. Osai Ojigho, diretora da Anistia Internacional na Nigéria, resumiu a realidade: quase todo mundo no país conhece alguém que foi vítima do SARS. O custo psicológico e físico de permitir que a unidade operasse por tanto tempo era incalculável.

O governo respondeu no dia 11 de outubro com um anúncio: o SARS seria dissolvido. O presidente Muhammadu Buhari prometeu que os acusados seriam investigados e levados à Justiça. Mas a população não se dispersou. A corrupção policial na Nigéria vai muito além de uma única unidade, e as promessas soavam vazias em um país onde a impunidade é estrutural. Além disso, havia contexto econômico alimentando a raiva: a taxa de desemprego havia atingido 27% em agosto, a maior em uma década. Entre jovens, o número chegava a 34%. Mais da metade da população nigeriana tem menos de 30 anos.

Os protestos continuaram pacíficos, mas a resposta do Estado não foi. Segundo a Anistia Internacional, pelo menos dez pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas durante as manifestações. A Human Rights Watch documentou dezenas de prisões. A polícia disparou gás lacrimogêneo e canhões de água contra os manifestantes. Cada ato de repressão alimentava as demandas: investigações transparentes sobre as mortes, libertação dos presos, compensação para as vítimas do SARS, reformas estruturais na polícia, aumento salarial para os agentes.

Mas uma sombra mais escura começou a se formar. O governo proibiu protestos em massa na capital Abuja, alegando preocupações com a disseminação do coronavírus. Mais preocupante ainda: o Exército emitiu um comunicado dizendo que estava pronto para intervir e restaurar a ordem. A declaração era vaga o suficiente para ser aterradora. Em resposta, manifestantes marcharam até o Parlamento. Multidões bloquearam estradas no centro comercial de Lagos, onde houve relatos de confrontos com homens armados não identificados.

Ojigho expressou a preocupação que muitos compartilhavam: o Exército intervindo em um assunto civil poderia escalar a violência dramaticamente. Não havia estado de emergência declarado. O que havia era um povo exercendo seu direito à liberdade de expressão. A questão agora era se o governo permitiria que esse direito continuasse existindo.

Embora nem todos tenham sido afetados pelo SARS, quase todo mundo na Nigéria conhece alguém que foi
— Osai Ojigho, diretora da Anistia Internacional na Nigéria
Nós iremos garantir que todos os responsáveis por má conduta serão levados à Justiça
— Presidente Muhammadu Buhari
Não é que as pessoas não reclamem ou que os policiais não tenham sido identificados. É apenas que não há mais expectativa de que essas violações dos direitos humanos serão levadas à Justiça
— Osai Ojigho, Anistia Internacional
Contact Us FAQ