Na pracinha, mulheres revelam segredos nunca contados a ninguém

O maior presente que posso dar é simplesmente escutar
A colunista reflete sobre o que as mulheres da pracinha realmente buscam quando se abrem.
Mark

Por que você acha que Rita nunca tinha falado sobre isso com ninguém antes?

Mimi

Porque a vergonha não é só dela — é da comunidade inteira que a rodeia. Igreja, patroa, filhas, marido. Todos esses olhares a silenciaram.

Mark

Mas ela é uma mulher adulta, casada há 12 anos. Por que o medo de descoberta após a morte?

Mimi

Porque a morte não apaga o julgamento. Ela imagina o marido segurando aquele objeto e revendo toda a vida deles sob uma luz diferente. É como se o vibrador revelasse uma verdade que ela guardou.

Mark

E Monica? Por que ela pediu para ser sua amiga?

Mimi

Porque ninguém a escuta sem agenda. Sua mãe a critica constantemente. Na pracinha, ela encontrou alguém que simplesmente a deixa ser.

Mark

Você acha que essas mulheres voltarão à pracinha?

Mimi

Sim. Porque descobriram que existe um lugar onde podem falar. E isso muda tudo.

Mark

O que a pracinha tem que a casa, a igreja, o trabalho não têm?

Mimi

Anonimato com presença. Você está ali com estranhos, mas não é julgada por eles. É paradoxal, mas funciona.

  • Rita, 57 anos, carrega há décadas um desejo que nunca pôde nomear em voz alta — e a vergonha de ser descoberta, mesmo após a morte, é mais forte do que o próprio desejo.
  • Mulheres que têm filhas, amigas e comunidades religiosas chegam à pracinha sem ter com quem falar sobre o que mais as habita por dentro.
  • A ausência de prazer no casamento atual de Rita coexiste com a saudade vívida de um amor passado que a conhecia de verdade — e ela não vê saída, apenas resignação.
  • Monica, 33 anos, pede amizade a uma desconhecida porque encontrou nela o que não encontra na própria mãe: escuta sem correção e sem crítica.
  • A pracinha revela uma lacuna sistêmica: entre família, religião e amizades, sobra pouco espaço para que mulheres existam sem ser julgadas pelo que sentem ou desejam.

Em uma pracinha de exercícios em São Paulo, mulheres de diferentes idades e histórias encontram, entre aparelhos de ginástica e bancos de madeira, um espaço raro de escuta sem julgamento. Ali, segredos guardados por décadas — sobre desejo, vergonha e solidão íntima — emergem pela primeira vez em voz alta, revelando o quanto os círculos tradicionais de afeto e fé ainda deixam certas experiências femininas sem lugar para existir. A pracinha, sem querer, tornou-se um confessionário laico onde o simples ato de ouvir se transforma em gesto político e humano.

Há uma pracinha comum, com aparelhos de ginástica e bancos de madeira, que funciona como confessionário laico. É lá que a colunista Mirian encontra, todos os dias, mulheres dispostas a contar histórias que nunca contaram a ninguém.

No dia 27 de julho, ela conheceu Rita — 57 anos, evangélica, empregada doméstica há duas décadas, mãe de duas filhas e avó de cinco netos. Rita dorme no trabalho de segunda a sexta e encontra o marido apenas nos fins de semana. Depois de mais de duas horas de conversa, Rita revelou algo que nunca havia dito em voz alta: o desejo de ter um vibrador. A prima já havia tentado vender um para ela, mas a vergonha era paralisante. 'Imagina se eu morro e minha patroa encontra o vibrador na minha gaveta?', disse. Mesmo diante da observação de que já estaria morta quando isso acontecesse, Rita insistiu: a vergonha sobreviveria a ela. Era a primeira vez em toda a sua vida que falava sobre isso.

Rita também contou sobre seus dois casamentos. O primeiro marido, baiano como ela, sabia exatamente como fazê-la sentir prazer — mas a sogra destruiu a relação com mentiras. O segundo é um homem bom, mas sem 'fogo na cama'. Rita nunca chegou ao prazer com ele. Não se separa por causa das netas, da idade, da complexidade da vida. Carrega a saudade do que um dia sentiu.

No mesmo dia, Mirian conheceu Monica, 33 anos, que ao se despedir perguntou se podiam ser amigas — porque havia sido escutada sem ser criticada, algo que sua própria mãe raramente faz.

A pracinha, conclui a colunista, é um laboratório antropológico disfarçado. O maior presente que ela pode oferecer é simplesmente estar ali, ouvindo. Em troca, as mulheres lhe dão o que há de mais raro: a confiança de dizer em voz alta o que nunca puderam dizer a ninguém.

Há um lugar onde as mulheres vêm se exercitar e, sem planejarem, acabam contando histórias que guardaram a vida toda. É uma pracinha comum, com aparelhos de ginástica e bancos de madeira, mas funciona como confessionário laico. Todos os dias, enquanto faço meus exercícios ali, conheco alguém novo. No dia 27 de julho, ao final da tarde, foi a vez de Rita.

Rita tem 57 anos, é evangélica e trabalha há duas décadas como empregada doméstica em um apartamento de um casal idoso. Tem duas filhas, uma de 33 e outra de 37 anos, e cinco netos. Conversamos por mais de duas horas, e ela me contou coisas que nunca havia revelado a ninguém — nem à prima, nem às amigas da igreja, nem às filhas. Rita dorme no trabalho de segunda a sexta, prepara o jantar e se recolhe ao seu quartinho para assistir à novela. Encontra o marido apenas nos fins de semana, embora ligue para ele todos os dias na hora do almoço.

Ela é baiana, como diz, muito apaixonada pela vida. Seu primeiro marido também era baiano e sabia como fazê-la "subir pelas paredes como uma lagartixa", em suas palavras. Mas a mãe dele inventava mentiras sobre Rita, e ele acreditou. Separaram-se. O segundo marido, com quem está casada há 12 anos, é um homem bom e trabalhador, mas não tem "fogo na cama". Rita nunca chegou ao prazer com ele. Não se separa porque já tem quase 60 anos, porque as netas adoram o avô, porque a vida é complicada. Mas sente saudade daquele baiano que sabia exatamente como tocá-la.

Em algum momento da conversa, Rita me mostrou no celular um vídeo da apresentadora Angélica falando sobre ter uma gaveta cheia de vibradores. A prima de Rita já havia tentado vender um para ela, mas Rita sentia muita vergonha. "Imagina se eu morro e minha patroa encontra o vibrador na minha gaveta?", disse. Perguntei se ela achava que a patroa não tinha um escondido em algum lugar. Rita respondeu que limpava tudo — gavetas, armários — e tinha certeza de que não. Quando sugeri que, afinal, Rita já estaria morta quando isso acontecesse, ela insistiu: "Eu morro de vergonha só de pensar nisso. E se ela entrega uma sacola com o vibrador para o meu marido? O que ele vai pensar de mim?" Era a primeira vez em toda a sua vida que Rita falava em voz alta sobre o desejo de ter um vibrador. A vergonha era tão profunda que ela a carregava sozinha, sem poder compartilhá-la com ninguém.

No mesmo dia, conheci Monica, 33 anos, inteligente e alegre. Conversamos sobre seus ex-namorados, cantamos juntas, fizemos os exercícios lado a lado. Monica ficou feliz porque eu a escutei sem dizer que ela precisava emagrecer, sem criticar suas palavras ou seus relacionamentos, diferente do que sua mãe faz o tempo todo. Quando foi embora, ela perguntou: "Mirian, você quer ser minha amiga? É tão gostoso conversar com você".

Muitas mulheres que conheci naquela pracinha se abriram comigo de formas que nunca se abriram com ninguém. Algumas carregam segredos há décadas. Outras simplesmente nunca tiveram espaço para falar sem ser julgadas. A pracinha é um laboratório antropológico disfarçado de lugar de exercício. É onde descubro vidas muito distantes da minha, onde escuto mulheres de todas as idades me ensinando que o maior presente que posso dar é simplesmente estar ali, ouvindo. Em troca, elas me presenteiam com a confiança de contar aquilo que nunca puderam contar para ninguém.

Sou baiana, sou muito fogosa. Meu primeiro marido era baiano. Ele fazia com que eu subisse pelas paredes como uma lagartixa.
— Rita
Mirian, você quer ser minha amiga? É tão gostoso conversar com você.
— Monica
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