O pior é não haver um aviso, não sabermos quando é que vai faltar
Ana Cunha dorme mal à escuta de água nos canos, enchendo garrafões quando há abastecimento, enquanto vizinhos idosos enfrentam dificuldades em onda de calor. Cortes afetam serviços essenciais: escolas enviaram crianças para casa, centro de saúde encerrou, e ambulância demorou hora e meia em emergência.
- Ana Cunha dorme mal à escuta de água nos canos, enchendo garrafões quando há abastecimento
- Cortes afetam escolas e centro de saúde: Unidade de Saúde Familiar Costa do Mar encerrou no dia 8 de julho
- Protesto de terça-feira juntou cerca de 1.500 pessoas e levou a confrontos com polícia
- Governo licencia dois novos furos com conclusão prevista em 2-3 semanas
- Reservatórios de água estão a 10% da capacidade segundo a autarquia
Moradores da Costa de Caparica enfrentam cortes de água imprevisíveis que afetam escolas e centros de saúde. Autarquia atribui problema ao aumento de consumo turístico e anuncia novos furos como solução.
Ana Cunha não dorme bem. Todas as noites, deitada no sexto andar de um prédio na Costa de Caparica, fica à escuta de um som que a maioria das pessoas nunca precisou de esperar: água a entrar nos canos. Quando finalmente chega — às vezes à meia-noite, às vezes nem chega — ela levanta-se depressa. Toma banho. Liga a máquina de roupa, a máquina de loiça. E enche o máximo de garrafões que consegue carregar. Vive com o marido e três filhos pequenos. Nunca sabe, quando sai de casa, se a torneira funcionará quando regressa.
A mãe de 36 anos, que se mudou de Lisboa para a Costa de Caparica, diz que o pior não é a falta de água em si. É a incerteza. "Uma pessoa organiza-se", explica. "O pior é não haver um aviso, não sabermos quando é que vai faltar a água." Desde maio, quando o calor começou, os cortes tornaram-se rotina. Às vezes chegam ao final da tarde, quando as pessoas regressam da praia e querem tomar banho. Outras vezes desaparecem durante horas. Ana garante que isto começou no verão anterior, em 2025, e que ninguém fez nada para o resolver.
Os problemas extravasam a sua casa. Na escola da filha do meio, a água escasseia tanto que uma colega não conseguiu lavar as mãos. Ana tem medo de gastroenterite. Nos últimos dias, a escola telefonou-lhe várias vezes para ir buscar os filhos porque não havia condições. No dia 8 de julho, a Unidade de Saúde Familiar Costa do Mar encerrou às 13 horas por falta de água. Um vizinho de 90 anos caiu durante a onda de calor — a ambulância demorou uma hora e meia a chegar. Quando Ana vai às compras, vê vizinhos idosos que não conseguem carregar garrafões de água engarrafada. Uma rapariga perguntava a uma senhora mais velha se tinha bebido água. Não tinha. Estava numa onda de calor, sem água em casa.
No dia 7 de julho, a Câmara de Almada criou um gabinete de crise. A ministra do Ambiente reuniu-se com a presidente Inês de Medeiros. A solução apresentada foi licenciar dois novos furos para aumentar o abastecimento — trabalhos que deveriam estar concluídos em duas ou três semanas. A autarca atribuiu o problema a um "aumento muitíssimo substancial e imprevisível" do consumo de água, principalmente devido ao crescimento de população turística nesta altura do ano. Ana não acredita. "Mas há quantos anos é que a Costa é um sítio turístico? É muita incompetência ou irresponsabilidade. Tem de estar preparada para isso, ou então, digam às pessoas para não irem para a Costa."
A crise escalou. No dia anterior ao protesto de terça-feira, Ana já sentia as pessoas "bastante revoltadas e desesperadas". Ela própria começava a sentir-se desesperada. O protesto juntou cerca de 1.500 pessoas, cortou estradas e levou a confrontos com a polícia. "Inês para a rua, Almada não é tua" foi uma das palavras de ordem. Só a 2 de julho, quando a onda de calor já atravessava Portugal, é que os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada emitiram um comunicado reconhecendo o período de "grande exigência no sistema de abastecimento de água".
Durante os dias mais quentes, Ana organizava a vida em torno da água. De manhã cedo, praia. Depois, sem água em casa, levava os filhos ao centro comercial Almada Fórum — onde havia água e ar condicionado. Voltava, via vizinhos com garrafões, e regressava ao Fórum para comer. Ao final do dia, praia novamente. "Eu não gosto de shoppings", admite, mas não havia muitos locais climatizados na Costa de Caparica para onde pudesse ir. A água engarrafada já lhe está a pesar na fatura.
Agora teme o resto do verão. Julho já traz muita gente. Agosto traz ainda mais. Há o festival Sol da Caparica. "Temos condições para isso? Eu acho que não." Está a considerar suspender uma tradição de família: receber os três enteados que vivem em Espanha e costumam passar as férias com ela. "Mais três adolescentes a termos que andar com baldes de água para a casa de banho e a fazer comida, e a comer fora?" Enquanto fala, o fio de água que sai da torneira é já menor que era de manhã. Ana não esquecerá isto nas próximas eleições.
Notable Quotes
É muita incompetência ou irresponsabilidade. Tem de estar preparada para isso, ou então, digam às pessoas para não irem para a Costa.— Ana Cunha, moradora da Costa de Caparica
Almada está a viver um período de grande exigência no sistema de abastecimento de água.— Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (comunicado de 2 de julho)
The Hearth Conversation Another angle on the story
O que a mantém acordada à noite não é o medo, é a esperança?
Exatamente. É ouvir água nos canos. Quando chega, tenho de aproveitar cada gota — banho, máquinas, garrafões. Não posso desperdiçar.
E as crianças? Como é que elas lidam com isto?
A escola enviou-as para casa porque não havia água para as casas de banho. Minha filha não conseguiu lavar as mãos. Tenho medo de doenças. Eles veem-me preocupada, veem vizinhos com baldes, veem-nos a viver no centro comercial porque lá há água.
A autarquia diz que é culpa do turismo. Acredita?
Não. A Costa de Caparica é turística há décadas. Isto é incompetência. Ou irresponsabilidade. Tinham de estar preparados para isto, ou então diziam às pessoas para não virem.
Quando é que isto começou?
No verão passado. Mas ninguém fez nada. Agora, em maio, começou novamente. E só em julho é que a câmara reconheceu o problema.
O que a assusta mais — a falta de água ou a falta de aviso?
A falta de aviso. Uma pessoa organiza-se com a falta. Mas não saber quando vai faltar, estar sempre à espera — isso é o pior.
Vai votar diferente nas próximas eleições?
Não tenho partido. Mas isto não vou esquecer.