Em tempos de saturação digital e distância afetiva, Jorge Furtado retorna às telas com uma comédia que usa a pornografia como espelho irônico da intimidade contemporânea. 'Muito Prazer' acompanha dois jovens à deriva que transformam um motel falido em negócio ilegal de conteúdo adulto — não por desejo, mas por necessidade —, revelando que o empreendedorismo pode ser o caminho mais tortuoso para o amor. Com a delicadeza que é sua marca, Furtado interroga o que resta do contato humano real numa era em que o sexo já não surpreende ninguém na tela.
'Muito Prazer' aborda amor e sexo com humor suave e sutil
A graça está em como isso acontece
Por que você acha que Furtado insiste em trabalhar com essa sutileza que afasta o público?
Porque para ele a comédia não é apenas fazer rir. É pensar através do riso. Se você quer que as pessoas entendam algo sobre como o dinheiro público desaparece ou como a internet muda o sexo, não pode gritar. Tem que sussurrar.
Mas "Muito Prazer" é sobre pornografia. Isso não é grito o suficiente?
Não, porque o filme não é sobre pornografia. É sobre duas pessoas que não sabem o que fazer com suas vidas e descobrem que podem fazer algo juntas. A pornografia é só o veículo.
Grace e Rubem são pessoas assexuadas que entram na indústria do sexo. Isso não é uma contradição?
É exatamente o ponto. Eles não estão lá por desejo. Estão lá porque precisam sair da miséria. O filme está dizendo algo sobre como a internet saturou tudo de sexo, mas as pessoas reais estão cada vez mais distantes umas das outras.
Daniel de Oliveira e Luisa Arraes parecem ser escolhas certas para isso.
Sim. Oliveira consegue ser duro e vulnerável ao mesmo tempo. Arraes tem essa leveza que faz você acreditar que ela realmente não se importa com nada — até o momento em que você percebe que ela se importa muito.
Você acha que o filme vai ter o mesmo problema de "Saneamento Básico"?
Talvez. Porque Furtado não quer que você saia do cinema falando sobre pornografia. Quer que você saia pensando sobre como a gente se conecta — ou não se conecta — nos dias de hoje.
O Pulso
- Dois jovens sem saída herdam um motel endividado e, guiados por uma vendedora de câmeras perspicaz, mergulham ilegalmente na indústria pornográfica para sobreviver.
- A ironia central tensiona o filme: são justamente os menos interessados em sexo que passam a produzi-lo para o mundo, criando um descompasso cômico e revelador.
- Daniel de Oliveira e Luisa Arraes sustentam o equilíbrio delicado entre leveza e complexidade, com Arraes evocando a elegância despojada de Diane Keaton.
- O filme navega entre o humor suave dos mal-entendidos e uma reflexão mais funda sobre gerações jovens incapazes de se tocar de verdade num mundo supersaturado de imagens sexuais.
- O maior obstáculo ao sucesso comercial pode não ser o tema, mas a origem: ser uma produção brasileira num mercado que ainda subestima o próprio cinema.
Em tempos de saturação digital e distância afetiva, Jorge Furtado retorna às telas com uma comédia que usa a pornografia como espelho irônico da intimidade contemporânea. 'Muito Prazer' acompanha dois jovens à deriva que transformam um motel falido em negócio ilegal de conteúdo adulto — não por desejo, mas por necessidade —, revelando que o empreendedorismo pode ser o caminho mais tortuoso para o amor. Com a delicadeza que é sua marca, Furtado interroga o que resta do contato humano real numa era em que o sexo já não surpreende ninguém na tela.
Jorge Furtado é um cineasta que opera dentro do gênero mais popular do Brasil com uma sutileza que, paradoxalmente, costuma afastar o grande público. 'Saneamento Básico' demorou duas décadas para ser reconhecido como clássico porque poucos perceberam que se tratava de uma ironia refinada disfarçada de documentário. 'Muito Prazer' parte de terreno mais imediato — a sexualidade —, mas chega até ela por caminhos inesperados.
Rubem, vivido por Daniel de Oliveira, é um homem à deriva que herda um motel falido. Ao chegar, quase é morto por Grace, interpretada por Luisa Arraes, fotógrafa de nuvens que ocupa uma das suítes como forma de compensar dívidas do antigo dono. Os dois são opostos que o roteiro aproxima com a lógica clássica da comédia romântica — não pelo desejo, mas pela necessidade compartilhada de sair do buraco.
A solução surge na figura de Nalva, papel de Samantha Jones: uma vendedora de câmeras de vigilância que os apresenta a um negócio ilegal e lucrativo — filmar os hóspedes do motel, retocar as imagens para proteger identidades e distribuir o conteúdo na internet. O trio entra triunfalmente na pornografia, mas o dinheiro traz suas próprias complicações.
O humor nasce justamente desse paradoxo: pessoas quase assexuadas produzindo conteúdo erótico para um mundo já saturado dele. Furtado usa esse contraste para refletir sobre uma geração jovem cujos hábitos digitais dificultam o contato real — e sobre como o instinto empreendedor pode ser, às vezes, o único caminho de volta à intimidade. São os negócios que permitem a Grace e Rubem se aproximarem; a graça está em como isso acontece.
Com elenco afinado e roteiro bem construído, 'Muito Prazer' reúne todas as condições para o sucesso — exceto, talvez, o fato de ser brasileiro.
Jorge Furtado tem o dom de trabalhar no gênero mais popular do Brasil — a comédia — mas o faz com uma delicadeza que frequentemente afasta justamente o público que deveria procurar seus filmes. "Saneamento Básico" é o exemplo mais claro: foi um fracasso na época, levou duas décadas para virar clássico, porque quase ninguém percebeu que não se tratava de um documentário árido sobre saneamento, mas de uma ironia refinada sobre como o dinheiro público é gasto.
"Muito Prazer" não corre esse risco. O tema é a sexualidade — assunto bastante popular — embora o filme precise de algumas voltas para chegar até lá. Rubem, interpretado por Daniel de Oliveira, é um rapaz meio à deriva que herda um motel abandonado e endividado. Ao chegar, quase é morto por Grace, vivida por Luisa Arraes, a única moradora do lugar. Grace tomou o cano do antigo dono — tio de Rubem — e ocupa uma das suítes como forma de se ressarcir dos prejuízos que sofreu trabalhando para ele. Além disso, Grace é fotógrafa com interesse especial por nuvens, o que combina bem com seu espírito volátil e seu desinteresse pelas coisas do mundo.
Como toda boa comédia romântica de inspiração hollywoodiana, o filme leva os dois a colaborarem intensamente. Mas nada tem a ver com o sexo que um motel poderia sugerir. Grace deixa claro que não está interessada em ninguém, e a timidez de Rubem o ajuda a aceitar essa declaração. O fato é que ambos estão no mesmo barco furado e precisam encontrar uma maneira de sair do buraco.
Quem oferece a solução é Nalva, papel de Samantha Jones — uma vendedora de câmeras de vigilância bela e esperta que traz a eles o equipamento e o conhecimento para desenvolver um negócio bastante ilegal: filmar os clientes do motel em atividade sexual, adicionar retoques leves às imagens para que os atores não se reconheçam, e colocar os vídeos na internet. Depois de alguns percalços, os três entram triunfalmente na indústria pornográfica. Logo começam a ganhar dinheiro, mas isso trará muitas dores de cabeça.
Dessa entrada na pornografia por pessoas quase assexuadas emerge um humor suave, enriquecido por mal-entendidos e animado por diversos encontros e desencontros que lembram "Saneamento Básico". Em ambos os filmes, trata-se de filmar algo em que o cinema tem uma presença aparentemente acessória, mas essa contingência torna o ato de filmar essencial à trama. O roteiro bem construído é levado por um elenco que parece compreender as necessidades do filme. Os atores se dedicam ao argumento com a leveza que ele exige e tratam seus papéis com desenvoltura.
Ao mesmo tempo, o filme parte de uma reflexão sobre a internet como um ambiente já saturado de sexualidade encontrando uma geração jovem cujos hábitos dificultam ou impedem o contato real entre as pessoas. Some-se a isso a condição dos dois protagonistas — ele, um homem duro que já tentou vários caminhos e agora está na pior; ela, uma garota desempregada. Desenvolver seu instinto empreendedor é o modo que encontram de sair do atoleiro. São os negócios que permitem a Grace e Rubem se aproximarem — e isso não é um spoiler, qualquer espectador, por distraído que seja, nota que o filme gira em torno de os dois se encontrarem no amor e no sexo. A graça está em como isso acontece.
Furtado introduz questões contemporâneas de maneira sutil, contando com o apoio de Oliveira — muito bom em um papel complexo — e Arraes — ótima, com leveza e elegância que lembram Diane Keaton. Com "Muito Prazer", Furtado volta ao seu modo de explorar assuntos que o interessam de maneira indireta, como se nem pensasse no caso. Tanto que não tem a menor vergonha de filmar usando o campo-contracampo como base, o que parece facilitar o encontro de tempos adequados à produção do humor. É, em suma, um filme com todas as condições para chegar ao sucesso — exceto, talvez, pelo fato de ser brasileiro.
Citações Notáveis
Grace deixa claro que não está interessada em ninguém, e a timidez de Rubem o ajuda a aceitar essa declaração— Descrição do filme