No limiar do quarto trimestre de 2026, o setor de construção civil brasileiro revelou sua dupla natureza: recordes de vendas que celebram a vitalidade do mercado habitacional convivem com as cicatrizes deixadas pela paralisação da Caixa Econômica Federal, o grande árbitro do sonho da casa própria no país. MRV, Cury e Tenda avançaram na bolsa, mas os números por trás da euforia contam uma história mais complexa — a de um setor que cresce apesar das fraturas, não sem elas.
MRV dispara 11% e construtoras sobem com vendas recordes no terceiro trimestre
A greve tocou o coração do financiamento habitacional
Por que as ações subiram se os números mostram tantos problemas — cancelamentos em alta, caixa pressionado?
Porque o mercado estava esperando algo pior. Quando a Caixa entrou em greve, havia medo de que as vendas desabassem. Em vez disso, as construtoras conseguiram vender mais, mesmo que com mais cancelamentos. É uma questão de expectativas.
Mas espera — a MRV teve R$ 80 milhões atrasados só por causa da greve. Quanto disso já foi recuperado? Os números que vimos são prévias, não resultados finais.
Ótima pergunta. Os relatórios não deixam claro. O que sabemos é que a greve terminou, então teoricamente esses recebimentos devem normalizar.
E os cancelamentos? Tenda teve 115% de aumento. Isso é sustentável?
Não. Os analistas acreditam que era um efeito direto da greve — compradores desistindo porque os repasses demoravam. Com a greve encerrada, devem cair.
Mas a Tenda também reduziu preços e a parcela de financiamento direto. Isso não é só greve — é pressão estrutural. A rentabilidade pode estar sendo sacrificada.
Verdade. O BTG alertou exatamente para isso. A Tenda está se ajustando às exigências da Caixa, mas isso pode custar margem.
Então por que os analistas ainda recomendam compra?
Porque acreditam que é temporário. Mas há um risco real de que a rentabilidade não se recupere tão rápido quanto o volume de vendas.
E a MRV? Ela teve o melhor número, mas o Itaú BBA foi bem cauteloso.
Porque o Minha Casa, Minha Vida continua consumindo caixa. A estratégia de vender estoque funcionou, mas não resolve o problema de fundo.
Le Pouls
- A MRV superou R$ 3 bilhões em vendas líquidas pela primeira vez na história, um marco que empurrou suas ações para cima e sinalizou apetite real do mercado por imóveis populares.
- A greve da Caixa Econômica Federal funcionou como um freio invisível: atrasou R$ 80 milhões em recebimentos da MRV e fez os cancelamentos da Tenda dispararem 115%, expondo a fragilidade estrutural do setor diante de qualquer instabilidade no financiamento público.
- Cury se destacou como a mais resiliente, gerando R$ 254 milhões em caixa — acima das expectativas — e mantendo velocidade de vendas próxima de 40%, mesmo com cancelamentos crescendo 60%.
- Com a greve encerrada, analistas apostam em normalização dos cancelamentos, mas alertam que ajustes nos preços de venda e nas condições de financiamento direto podem comprimir a rentabilidade das construtoras nos próximos trimestres.
- Itaú BBA e BTG Pactual mantêm recomendações favoráveis para as três empresas, sugerindo que o mercado acredita que o pior ficou para trás — embora os dados indiquem que o ajuste ainda está em curso.
No limiar do quarto trimestre de 2026, o setor de construção civil brasileiro revelou sua dupla natureza: recordes de vendas que celebram a vitalidade do mercado habitacional convivem com as cicatrizes deixadas pela paralisação da Caixa Econômica Federal, o grande árbitro do sonho da casa própria no país. MRV, Cury e Tenda avançaram na bolsa, mas os números por trás da euforia contam uma história mais complexa — a de um setor que cresce apesar das fraturas, não sem elas.
Na sexta-feira, 9 de outubro, as ações de MRV, Cury e Tenda subiram após a divulgação das prévias operacionais do terceiro trimestre. Os números trouxeram recordes, mas também expuseram as marcas de uma greve que paralisou a Caixa Econômica Federal — principal financiadora da habitação popular no Brasil.
A MRV foi o destaque do dia. Pela primeira vez, suas vendas líquidas ultrapassaram R$ 3 bilhões em um único trimestre, crescimento de 29,6% ante o ano anterior. A estratégia foi deliberada: em vez de lançar novos empreendimentos, a companhia acelerou a venda de estoques existentes. Analistas do Itaú BBA, porém, apontaram nuances: a mudança na forma de contabilizar vendas torna comparações menos diretas, e o fluxo de caixa da operação de baixa renda ainda precisa melhorar para reduzir o endividamento. A greve da Caixa atrasou R$ 80 milhões em recebimentos, segundo o BTG Pactual, deixando a geração de caixa abaixo do esperado mesmo após descontar esse impacto.
A Cury apresentou o quadro mais equilibrado entre as três. Gerou R$ 254 milhões em caixa, superando projeções, com vendas líquidas de R$ 2,03 bilhões e velocidade de vendas próxima de 40%. Ainda assim, os cancelamentos chegaram a R$ 358 milhões — alta de 60% —, reflexo de compradores que não obtiveram aprovação de financiamento ou desistiram diante das demoras causadas pela greve.
A Tenda enfrentou as pressões mais intensas. Suas vendas brutas cresceram 22%, mas as líquidas avançaram apenas 10,5%, pressionadas por cancelamentos de R$ 293 milhões — alta de 115%, equivalente a quase um quinto das vendas brutas. O BTG Pactual acredita que, com a greve encerrada, os cancelamentos devem se normalizar, mas alerta que reduções nos preços de venda e nas condições de financiamento direto podem comprimir a rentabilidade no curto prazo.
Apesar das ressalvas, as recomendações dos analistas permaneceram favoráveis para as três empresas. O mercado aposta que o pior já passou — mas os números sugerem que o setor ainda está digerindo os efeitos de uma crise que tocou o coração do financiamento habitacional brasileiro.
As ações das três maiores construtoras brasileiras subiram na sexta-feira, 9 de outubro, após a divulgação dos resultados operacionais preliminares do terceiro trimestre. Os números revelaram um setor em movimento — vendas recordes, geração de caixa acelerada — mas também expuseram as fraturas causadas por uma greve que paralisou um dos principais mecanismos de financiamento habitacional do país.
A MRV Incorporação foi a estrela do dia. Suas vendas líquidas ultrapassaram R$ 3 bilhões pela primeira vez em um trimestre, atingindo R$ 3,04 bilhões. Isso representou um avanço de 29,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. A companhia atribuiu o desempenho a uma estratégia deliberada: em vez de lançar novos empreendimentos, acelerou a comercialização de estoques já existentes. Funcionou. Mas os analistas do Itaú BBA, em relatório assinado por Elvis Credendio, Mariangela Castro e Juliana Veiga, viram nuances que o mercado inicial não capturou. Sim, as vendas cresceram. Sim, a venda de ativos injetou caixa. Mas a operação do Minha Casa, Minha Vida — o programa de habitação de baixa renda — continuou consumindo recursos. Além disso, a companhia mudou a forma como registra as vendas, agora contabilizando-as antes do repasse ao banco, o que torna a comparação com trimestres anteriores menos direta. O fluxo de caixa das operações brasileiras permanece crítico para reduzir o endividamento a níveis mais confortáveis.
A greve da Caixa Econômica Federal deixou marcas profundas. A instituição atrasou R$ 80 milhões em recebimentos da MRV, segundo análise do BTG Pactual. Mesmo descontando esse impacto, a geração de caixa da operação de baixa renda ficou abaixo do esperado. O efeito cascata foi sentido em toda a indústria.
A Cury apresentou um quadro mais equilibrado. Gerou R$ 254 milhões em caixa, superando a expectativa do BTG de cerca de R$ 200 milhões. Suas vendas líquidas chegaram a R$ 2,03 bilhões, crescimento de 11,4% ante o ano anterior, com velocidade de vendas próxima de 40%. O BTG Pactual elogiou o controle rigoroso das operações e o modelo de negócios enxuto. O Itaú BBA também considerou os números melhores do que o mercado projetava, embora reconhecesse que suas próprias expectativas haviam sido reduzidas ao longo do trimestre devido às dificuldades com a Caixa — tanto a greve quanto uma análise mais rigorosa dos compradores. Mas havia uma sombra: os cancelamentos cresceram para R$ 358 milhões, alta de cerca de 60% ante um ano antes, representando 15% das vendas brutas. Compradores que não conseguiram aprovação de financiamento ou desistiram diante da demora nos repasses foram os responsáveis.
A Tenda enfrentou pressões ainda maiores. Suas vendas brutas avançaram 22%, mas as vendas líquidas cresceram apenas 10,5%. Os cancelamentos somaram R$ 293 milhões, alta de 115%, e corresponderam a 19,4% das vendas brutas. O BTG Pactual observou que, com a greve da Caixa agora encerrada, esses cancelamentos deveriam se normalizar. Mas o banco identificou dificuldades adicionais no curto prazo: redução dos preços de venda e da parcela de financiamento concedida diretamente pela construtora ao comprador. Esses ajustes ajudam a adequar as operações às exigências da Caixa, mas podem pressionar a rentabilidade dos novos contratos. O cenário, segundo o BTG, deverá continuar desafiador.
Apesar das ressalvas, as recomendações dos analistas permaneceram favoráveis. O Itaú BBA recomenda desempenho acima da média para Cury e Tenda, com preços-alvo de R$ 44 e R$ 58, respectivamente, mantendo avaliação em linha com o mercado para MRV, com alvo de R$ 6. O BTG Pactual recomenda compra das três ações, com preços-alvo de R$ 42 para Cury, R$ 45 para Tenda e R$ 8 para MRV. O mercado, por enquanto, acredita que o pior passou — mas os números sugerem que o setor ainda está se ajustando aos efeitos de uma crise que tocou o coração do financiamento habitacional brasileiro.
Citations marquantes
O fluxo de caixa das operações brasileiras continua sendo fundamental para reduzir a alavancagem a níveis mais confortáveis— Itaú BBA, sobre a MRV
Acreditamos que o cenário deverá continuar mais desafiador no curto prazo— BTG Pactual, sobre a Tenda