Mostra reúne artistas de duas gerações em celebração da arte feminina brasileira

Elas não se limitavam a copiar — o que causou quase mal-estar na Europa
A curadora explica como as artistas brasileiras dos anos 1950 superaram seus modelos internacionais.
Mark

Por que essa mostra importa agora? Parece celebração do passado.

Mimi

Não é só celebração. É mostrar que essas mulheres não foram exceção, foram sistema. Tomie, Lygia, Clark — elas não apenas fizeram arte, elas mudaram o que arte podia ser.

Luke

Mas a mostra separa as gerações em dois prédios diferentes. Quer dizer que não há continuidade real?

Mimi

Há continuidade, mas não linear. Maria Martins atravessa os dois tempos. E as artistas contemporâneas não copiam as pioneiras — elas herdam a coragem de expandir limites.

Mark

Qual é a diferença entre o que faziam nos anos 1950 e o que fazem agora?

Mimi

As pioneiras expandiram a linguagem formal — abstração, geometria, escultura articulada. As contemporâneas expandem o que a arte pode dizer sobre violência, corpo, morte.

Luke

A curadora fala que as pioneiras causaram "mal-estar na Europa". Temos fonte para isso ou é impressão?

Mimi

É a interpretação da curadora sobre o impacto que tiveram. Não há citação direta de europeus reclamando.

Mark

E essas obras raras que a mostra exibe — por que estavam escondidas?

Mimi

Não estavam escondidas. Estavam em acervos, em coleções privadas. A mostra as reúne pela primeira vez em diálogo.

Luke

Quantas artistas no total? A matéria menciona nomes mas não dá número exato.

Mimi

A matéria não especifica. Sabemos de pelo menos oito nomeadas, mas pode haver mais nas duas sedes.

Mark

O que você quer que as pessoas entendam saindo dessa mostra?

Mimi

Que a arte brasileira não começou ontem. Que mulheres estiveram no centro dessa história desde o início. E que ainda estão.

  • A exposição revela uma lacuna histórica urgente: mulheres como Lygia Clark e Tomie Ohtake não apenas acompanharam a modernidade brasileira — elas a definiram, e isso ainda precisa ser dito em voz alta.
  • A originalidade dessas artistas chegou a causar desconforto na Europa, onde suas pesquisas geométricas e abstratas surpreenderam um continente que se julgava o centro da vanguarda.
  • O segundo espaço da mostra rompe o silêncio delicado do primeiro: obras monumentais confrontam aprisionamento, feminicídio e a mercantilização do corpo feminino com uma força quase insuportável.
  • Maria Martins atravessa o intervalo de meio século como uma âncora simbólica, sua escultura de bronze dialogando com a abundância barroca de Anke Eilergerhard num contraponto que condensa toda a tensão da mostra.
  • A curadoria de Maria Alice Milliet aposta que o diálogo entre gerações não é apenas estético — é político: o que as pioneiras expandiram em forma, as contemporâneas expandem em denúncia.

Em dois espaços da galeria Dan, em São Paulo, a mostra 'Por Elas, Com Elas' convoca mais de sete décadas de criação feminina brasileira para um mesmo encontro — do rigor geométrico das pioneiras dos anos 1950 às investigações contemporâneas sobre corpo, violência e memória. É um gesto curatorial que reconhece não apenas o que essas mulheres fizeram pela arte, mas o que a arte, por meio delas, aprendeu a nomear sobre o mundo.

Duas sedes da galeria Dan, em São Paulo, abrigam a mostra 'Por Elas, Com Elas: Do Moderno ao Contemporâneo', que percorre mais de sete décadas de criação feminina na arte brasileira. A curadora Maria Alice Milliet abre o recorte nos anos 1950, quando a Bienal de São Paulo de 1951 funcionou como ponto de inflexão: artistas como Tomie Ohtake, Lygia Clark, Yolanda Mohalyi e Mary Vieira passaram a dialogar com a abstração geométrica internacional, rompendo com a preocupação anterior de construir uma identidade nacional pela arte.

O que distingue essas pioneiras não foi a imitação dos modelos europeus — foi a superação deles. Na sede dos Jardins, um dos célebres 'Bichos' de Lygia Clark ocupa lugar de honra, ao lado de cadernos de estudos de Eleonore Koch que revelam sua investigação minuciosa da cor e sua ligação com Alfredo Volpi. Obras pequenas e delicadas dominam esse primeiro espaço, como se a escala contida fosse ela mesma uma forma de precisão.

A dez minutos de carro, no Itaim Bibi, o tom muda completamente. As artistas contemporâneas representadas pela galeria trazem trabalhos monumentais que enfrentam violência, aprisionamento e a vulnerabilidade do corpo feminino. Adriana Rocha lava suas telas no jardim e desenha sobre os resíduos que restam, criando fragmentos de memória de um mundo que se desfaz. Roberta Goldfarb fotografa a si mesma com a cabeça numa gaiola e registra peixes agonizando em sacos num mercado de Hong Kong — Milliet aponta o paralelo entre a mulher e o animal transformado em mercadoria. Lucia Castanho retoma o enclausuramento para pensar a juventude ceifada de mulheres assassinadas, aliando o tema a uma atração quase mórbida pelo embelezamento da morte.

Maria Martins é a única artista que atravessa os dois tempos da mostra. Sua grande escultura de bronze, originada de um gesso de 1931, apresenta duas formas sinuosas que se curvam uma sobre a outra com qualidade maternal e quase divina — contraponto sóbrio à exuberância barroca da peça de Anke Eilergerhard posicionada à sua frente. Juntas, as duas obras condensam a tensão que percorre toda a exposição: o que as pioneiras expandiram nos limites formais da arte, as contemporâneas expandem nos limites do que a arte pode dizer sobre o corpo e sobre o perigo de ser mulher.

Duas sedes da galeria Dan, em São Paulo, abrigam agora um encontro entre gerações de artistas mulheres. A mostra "Por Elas, Com Elas: Do Moderno ao Contemporâneo" reúne trabalhos que cobrem mais de sete décadas de criação feminina na arte brasileira, desde o período em que a abstração chegava ao país até as investigações contemporâneas sobre corpo, natureza e violência.

O recorte histórico que abre a exposição privilegia os anos 1950 até o início dos anos 1970, momento em que mulheres como Tomie Ohtake, Lygia Clark, Yolanda Mohalyi e Mary Vieira ocuparam lugar central na transformação da linguagem artística nacional. Segundo Maria Alice Milliet, curadora da mostra, esse período marca a chegada da abstração geométrica ao Brasil, uma ruptura com a preocupação anterior de construir identidade nacional através da arte. A Bienal de São Paulo de 1951 foi o ponto de inflexão: a partir dela, artistas começaram a dialogar com descobertas estrangeiras e a perseguir uma linguagem internacional e racional. Piet Mondrian, que teve sala especial na Bienal de 1953, foi referência importante para essas criadoras.

Mas o que distingue essas artistas não foi a imitação. Embora estudassem com admiração os modelos europeus, elas avançavam além deles. Essa originalidade causou, inclusive, certo incômodo na Europa, onde a força de suas pesquisas geométricas e abstratas surpreendeu. Na sede da galeria nos Jardins, zona oeste de São Paulo, está um dos célebres "Bichos" de Lygia Clark, esculturas articuladas que a consagraram como pioneira mundial nesse tipo de criação. O exemplar em exibição parece estar em estágio embrionário de experimentação, com flexibilidade ainda limitada para explorar todas as dobras e articulações possíveis. Também ali estão páginas de cadernos de estudos de Eleonore Koch dedicadas à investigação da cor, revelando a ligação estreita entre a artista e seu mestre, Alfredo Volpi, através do domínio da têmpera.

A segunda parte da mostra, a apenas dez minutos de carro, funciona no endereço da galeria no Itaim Bibi. Ali o tempo muda: enquanto o primeiro espaço privilegia obras pequenas e delicadas, o segundo apresenta trabalhos monumentais de artistas que a galeria representa atualmente. Essas criações dialogam com questões de natureza e feminilidade, mas também com violência e aprisionamento. Adriana Rocha lava suas telas no jardim com mangueira e depois desenha sobre o que sobra, repetindo o procedimento várias vezes. O resultado são grandes quadros que exploram o desgaste e funcionam, nas palavras da curadora, como fragmentos de memória de um mundo que desaparece.

Maria Martins é a única artista que atravessa esse intervalo temporal de meio século. Sua grande escultura de bronze, feita a partir de um gesso de 1931, apresenta duas formas escuras, sinuosas e alongadas que se curvam uma sobre a outra, evocando pela cabeça baixa o "Abaporu" de Tarsila do Amaral. A obra transmite qualidade maternal, quase divina. Posicionada de frente para a escultura de Anke Eilergerhard, que celebra a abundância do corpo feminino em manifestação quase barroca, a peça de Martins funciona como contraponto sóbrio e espartano.

Roberta Goldfarb trabalha com a ideia de enclausuramento em duas séries fotográficas: autorretratos mostram a artista com a cabeça numa gaiola, enquanto na outra série peixes agonizam em sacos num mercado de Hong Kong. Milliet aponta o paralelo entre a mulher e esses pequenos animais que viraram mercadoria. Lucia Castanho retoma esse tema do enclausuramento, pensando a juventude ceifada de mulheres assassinadas precocemente na sociedade brasileira, aliando o tema a uma atração quase mórbida pelo embelezamento da morte. Essas obras contemporâneas criam um diálogo tenso com as pioneiras do modernismo: enquanto aquelas expandiram os limites formais da arte, estas expandem os limites do que a arte pode nomear sobre o corpo e a vulnerabilidade feminina.

Esse é um período muito importante, porque é a chegada da abstração. Até então havia uma preocupação de se construir uma identidade nacional por meio da arte. Isso cai a partir da Bienal de 1951.
— Maria Alice Milliet, curadora
É quase um fragmento de memória de um mundo que está desaparecendo.
— Maria Alice Milliet, sobre os trabalhos de Adriana Rocha
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