No coração do deserto mais árido do planeta, uma montanha de tecido cresce como testemunho silencioso do consumo global. Sessenta mil toneladas de roupas descartadas acumulam-se perto de Alto Hospício, no Chile, visíveis até do espaço — resíduo de um sistema em que a Europa, o Reino Unido e os Estados Unidos exportam o que não conseguem vender para comunidades que não pediram para receber. A crise do Atacama não é um acidente geográfico, mas o destino lógico de uma economia que produz mais do que pode absorver, e que encontra nos países mais distantes o lugar onde o custo invisível do descarte
Montanha de 60 mil toneladas de roupas descartadas cresce no Atacama e já é visível do espaço
Somos o lixo do mundo
Como uma montanha de roupas acaba no meio do deserto? Parece uma história de ficção científica.
Não é ficção. É o resultado de uma rota comercial muito real. A Europa exporta roupas de segunda mão para a América Latina através da Zona Franca de Iquique. A ideia é revender. Mas as peças que não encontram comprador — as desgastadas, as fora de moda, as que chegam com defeito — ninguém quer pagar para removê-las.
Espera. Quantas roupas estamos falando? Sessenta mil toneladas é um número grande, mas vem de onde? É uma medição oficial ou uma estimativa?
O relatório menciona as 60 mil toneladas como o volume acumulado no depósito perto de Alto Hospício. É visível do espaço, então não é especulação.
E as marcas que encontraram lá — Zara, H&M, Nike — elas sabem que suas roupas acabam nesse lugar?
As investigações da ONG Ekō e do coletivo Desierto Vestido encontraram itens dessas marcas com etiquetas originais ainda presas. Muitos nunca foram usados. Então sim, roupas novas, direto da fábrica, que não encontraram comprador.
Mas isso não significa que as marcas enviaram deliberadamente para lá. Pode ser que tenham vendido para distribuidores que depois não conseguiram vender.
Verdade. A cadeia é complexa. Mas o resultado é o mesmo: uma montanha de plástico e fibra sintética no deserto, queimando, liberando microplásticos.
E os moradores? Como vivem com isso?
O prefeito disse que sentem que sua terra foi sacrificada. Os incêndios no aterro obrigam as famílias a ficar dentro de casa. A qualidade do ar é ruim.
Há dados sobre impacto na saúde? Doenças respiratórias aumentaram?
O texto não menciona números de saúde específicos. Mas a ONU classificou como emergência ambiental e social.
E agora? Vai ser removido?
Há um plano de remediação de dez anos ordenado pelo tribunal ambiental. Mas ainda precisa de aprovação do Supremo Tribunal.
Dez anos é muito tempo. Enquanto isso, a montanha continua crescendo?
Le Pouls
- Satélites orbitais conseguem identificar o depósito têxtil de Alto Hospício, tornando impossível ignorar a escala de um problema que a indústria da moda preferia manter fora de vista.
- Incêndios frequentes no aterro liberam microplásticos e compostos tóxicos no ar, forçando famílias inteiras a se trancar em casa enquanto a fumaça de roupas sintéticas envolve a cidade.
- A ONU classificou a situação como emergência ambiental e social, enquanto o prefeito local declarou que sua comunidade sente ter sido transformada no 'lixo do mundo'.
- Um plano de remediação de dez anos foi ordenado pelo Tribunal Ambiental de Antofagasta, mas aguarda revisão do Supremo Tribunal chileno — e a montanha continua crescendo enquanto a decisão não vem.
- Entre os descartes, investigadores encontraram peças de Zara, H&M e Nike ainda com etiquetas intactas, revelando que parte do problema não é desgaste, mas superprodução pura.
No coração do deserto mais árido do planeta, uma montanha de tecido cresce como testemunho silencioso do consumo global. Sessenta mil toneladas de roupas descartadas acumulam-se perto de Alto Hospício, no Chile, visíveis até do espaço — resíduo de um sistema em que a Europa, o Reino Unido e os Estados Unidos exportam o que não conseguem vender para comunidades que não pediram para receber. A crise do Atacama não é um acidente geográfico, mas o destino lógico de uma economia que produz mais do que pode absorver, e que encontra nos países mais distantes o lugar onde o custo invisível do descarte finalmente se torna visível.
No deserto do Atacama, uma montanha de tecido cresceu até se tornar visível do espaço. Perto de Alto Hospício, no norte do Chile, sessenta mil toneladas de roupas descartadas formam um depósito identificável em aplicativos de imagem orbital — um marco geográfico que ninguém planejou, mas que o sistema global de consumo construiu peça por peça.
A origem do material é bem documentada. Um relatório da ONU de 2024 aponta que a Europa exporta 30% de todas as roupas descartadas do mundo. Cada europeu compra em média 26 quilos de têxteis por ano e descarta cerca de 11. Parte desse volume passa pela Zona Franca de Iquique, porta de entrada de roupas de segunda mão para a América Latina. A intenção era revenda. O resultado foi acúmulo permanente: o que ninguém compra simplesmente fica, porque ninguém quer arcar com o custo de remover.
Investigações de ONGs encontraram entre os descartes itens de marcas globais como Zara, H&M, Adidas e Hugo Boss — muitos ainda com etiquetas originais, nunca usados. O problema vai além do visual. As fibras sintéticas, derivadas do petróleo, liberam microplásticos e poluentes quando queimam ou se degradam. Os incêndios no aterro são frequentes, e os moradores de Alto Hospício convivem com fumaça tóxica que os obriga a fechar as janelas e esperar.
O prefeito Patrício Ferreira sintetizou o sentimento coletivo ao declarar à AFP: 'Temos a sensação de que nossa terra foi sacrificada. Somos o lixo do mundo.' A ONU classificou a situação como emergência ambiental e social. O Primeiro Tribunal Ambiental de Antofagasta ordenou um plano de remediação de dez anos, mas a decisão aguarda revisão do Supremo Tribunal chileno. Enquanto o processo avança, a montanha continua crescendo.
No deserto do Atacama, no norte do Chile, cresce uma montanha de tecido. Sessenta mil toneladas de roupas descartadas acumulam-se perto de Alto Hospício, formando um depósito tão volumoso que satélites conseguem vê-lo do espaço. A pilha é visível o suficiente para aparecer em aplicativos de imagem orbital como o SkyFi — um marco geográfico indesejado que marca o ponto onde a indústria da moda rápida despeja seus resíduos.
Essas roupas vêm principalmente da Europa. Um relatório da ONU de 2024 documenta que o continente europeu exporta 30% de todas as roupas descartadas do mundo, seguido pelo Reino Unido com 16% e pelos Estados Unidos com 15%. Os números por habitante são igualmente reveladores: cada europeu compra em média 26 quilos de têxteis por ano e descarta cerca de 11 quilos. Parte significativa desse volume segue uma rota comercial bem definida: passa pela Zona Franca de Iquique, um centro de distribuição de roupas de segunda mão que funciona como porta de entrada para a América Latina. A intenção é revender as peças em países da região. Mas o que deveria ser um fluxo comercial virou um depósito permanente.
As roupas que ninguém compra, que saíram de moda ou chegaram muito desgastadas para encontrar comprador, simplesmente ficam. Ninguém quer pagar o custo de removê-las. Investigações da ONG Ekō e do coletivo chileno Desierto Vestido encontraram entre os descartes itens de marcas conhecidas — Zara, H&M, Adidas, Nike, Levi's, Tommy Hilfiger, Hugo Boss — muitos ainda com etiquetas originais intactas, nunca usados.
O problema não é apenas visual. As fibras sintéticas que compõem a maioria dessas roupas são derivadas do petróleo. Quando queimam ou se degradam, liberam compostos poluentes e microplásticos que se dispersam no ar e no solo. Os incêndios que ocorrem no aterro — frequentes em um depósito dessa escala — afetam diretamente a qualidade do ar que os moradores de Alto Hospício respiram. Organizações chilenas documentam que esses eventos obrigam famílias a permanecer dentro de casa, fechadas, esperando que a fumaça passe. A ONU classificou a situação como uma emergência ambiental e social.
O prefeito de Alto Hospício, Patrício Ferreira, resumiu o sentimento da população em uma frase dita à agência AFP: "Temos a sensação de que nossa terra foi sacrificada. Somos o lixo do mundo". É uma declaração que carrega o peso de uma comunidade que não escolheu ser o depósito final de um sistema de consumo global.
Houve uma resposta judicial. O Primeiro Tribunal Ambiental de Antofagasta determinou um plano de remediação ambiental com duração de dez anos. Mas a decisão ainda não é definitiva — depende de revisão pelo Supremo Tribunal chileno, o que significa que a montanha de roupas continua crescendo enquanto o sistema legal processa o que fazer com ela.
Citations marquantes
Temos a sensação de que nossa terra foi sacrificada. Somos o lixo do mundo— Patrício Ferreira, prefeito de Alto Hospício