Por quase um século, a indústria brasileira de caminhões e ônibus construiu sua identidade como exportadora dominante na América Latina — uma posição que parecia sólida o suficiente para resistir ao tempo. Agora, com exportações de pesados caindo mais de 20% em 2026 e marcas chinesas ocupando mercados antes considerados cativos, o setor enfrenta uma inflexão que vai além de ciclos econômicos: é uma disputa por relevância regional. A Anfavea anuncia uma ofensiva diplomática e comercial para 2027, mas a velocidade do avanço asiático coloca em questão se a reinvenção chegará a tempo.
Montadoras brasileiras planejam ofensiva para recuperar mercados de caminhões e ônibus
Mercados que eram cativos agora têm donos chineses
Por que a indústria brasileira de caminhões perdeu mercados que considerava garantidos?
Porque marcas chinesas como Higer e Zhongtong começaram a oferecer produtos competitivos em preço e qualidade, invadindo territórios que eram dominados por Scania, Volvo e Mercedes-Benz. A barreira fiscal que protegia o mercado de pesados funcionou por décadas, mas não é mais suficiente.
Mas espera — a Anfavea diz que as barreiras fiscais ainda existem. Então por que os chineses conseguem competir mesmo assim?
Porque as barreiras não são altas o suficiente. Elas ainda funcionam melhor que no segmento de leves, onde chineses entram com tarifa zero, mas não impedem a concorrência.
E qual é o plano da Anfavea para reverter isso?
Intensificar negociações em Brasília para costurar novos acordos comerciais e retomar parcerias regionais. Também querem reduzir a dependência da Argentina, que é um mercado importante mas instável.
Novos acordos com quem, exatamente? O texto menciona México e mercados regionais, mas não detalha quais países são prioridade.
É verdade. O anúncio foi mais sobre intenção do que sobre alvos específicos. Mas a ideia é abrir portas que estão fechadas ou reavivar negociações que esfriaram.
Os números de queda são realmente tão graves assim?
Sim. Caminhões caíram 21,3% em nove meses, ônibus caíram 32,6%. E piorou em setembro — ônibus despencaram 47,7% comparado a setembro de 2025.
Mas é importante notar que a Anfavea também revisou suas projeções para baixo duas vezes em 2026. Isso sugere que a situação está piorando mais rápido do que esperavam.
Exatamente. Em junho, projetavam 11% de queda nas exportações. Agora projetam 18,7%. Isso mostra que o setor subestimou a velocidade da invasão chinesa.
A Volkswagen Caminhões mencionou isso publicamente?
Sim, em maio, durante o evento Anfavea Visions. Roberto Cortes reconheceu que o veículo pesado nacional perdeu espaço para chineses em mercados antes considerados cativos. Para uma indústria centenária, foi uma admissão importante.
Il Polso
- Caminhões e ônibus brasileiros perdem mercados históricos para marcas chinesas como Higer e Zhongtong em ritmo acelerado — 21,3% e 32,6% de queda nas exportações, respectivamente, nos primeiros nove meses de 2026.
- Em setembro, os embarques de ônibus despencaram 47,7% em relação ao mesmo mês de 2025, sinalizando que a erosão não é gradual — é uma ruptura.
- Mesmo barreiras fiscais na Argentina, último reduto de proteção para pesados, mostram-se insuficientes para conter o avanço asiático no segmento.
- A Anfavea anuncia agenda intensiva para 2027: novos acordos comerciais, prospecção de mercados além da Argentina e retomada de negociações regionais em Brasília.
- As projeções pioram mês a mês — a retração nas exportações de pesados foi revisada de 11% para 18,7%, chegando a apenas 27,2 mil unidades no ano.
Por quase um século, a indústria brasileira de caminhões e ônibus construiu sua identidade como exportadora dominante na América Latina — uma posição que parecia sólida o suficiente para resistir ao tempo. Agora, com exportações de pesados caindo mais de 20% em 2026 e marcas chinesas ocupando mercados antes considerados cativos, o setor enfrenta uma inflexão que vai além de ciclos econômicos: é uma disputa por relevância regional. A Anfavea anuncia uma ofensiva diplomática e comercial para 2027, mas a velocidade do avanço asiático coloca em questão se a reinvenção chegará a tempo.
A indústria brasileira de caminhões e ônibus atravessa um momento de inflexão histórica. Após décadas como exportadora dominante na América Latina, o setor vê seus mercados tradicionais sendo corroídos por competidores chineses — uma ameaça que, até pouco tempo, parecia improvável para uma indústria com quase cem anos de presença regional.
Os números são contundentes. Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações de caminhões caíram 21,3% em relação ao mesmo período de 2025, totalizando 17 mil unidades. Os ônibus tiveram desempenho ainda pior: retração de 32,6%, com apenas 3,5 mil chassis exportados. Em setembro, os embarques de ônibus despencaram 47,7% na comparação anual. Roberto Cortes, presidente-executivo da Volkswagen Caminhões e Ônibus — empresa que completou 45 anos de exportações em 2026 —, reconheceu publicamente que o veículo pesado nacional perdeu espaço para modelos chineses em territórios que a indústria acreditava dominar.
A reação começou a ganhar forma. Em 7 de outubro, a Anfavea anunciou uma agenda intensiva de negociações para 2027 voltada às exportações. Igor Calvet, presidente da associação, foi direto: será preciso prospectar novos mercados e costurar acordos comerciais, reduzindo a dependência histórica da Argentina. O país vizinho representa um problema duplo — é mercado relevante, mas mesmo suas barreiras fiscais para pesados não têm sido suficientes para conter marcas asiáticas.
As projeções da Anfavea pioraram significativamente. A queda nas exportações de pesados foi revisada de 11% para 18,7%, chegando a 27,2 mil unidades no ano — muito abaixo do que o setor esperava em junho. O que está em jogo não são apenas números trimestrais, mas a posição de uma indústria que se consolidou como base exportadora regional e agora precisa lutar por mercados que considerava seus. O ano de 2027 será decisivo para definir se ela consegue se reinventar — ou se continuará cedendo terreno.
A indústria brasileira de caminhões e ônibus enfrenta um momento de inflexão. Após décadas consolidando sua posição como exportadora dominante na América Latina, o setor vê seus mercados tradicionais sendo erodidos por competidores chineses — uma ameaça que, até pouco tempo, parecia improvável para uma indústria com quase cem anos de história na região.
Os números contam a história com clareza. Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações de caminhões caíram 21,3% em relação ao mesmo período de 2025, totalizando 17 mil unidades. Os ônibus tiveram desempenho ainda pior: retração de 32,6%, com apenas 3,5 mil chassis enviados ao exterior. Apenas em setembro, os embarques de ônibus despencaram 47,7% comparado ao mês anterior do ano passado. Não há sinais de recuperação. Em setembro, foram exportados 2.100 caminhões, queda de 23% sobre 2025.
Essa erosão de mercados que antes eram considerados cativos — garantidos — representa uma ruptura no modelo que sustentou a indústria brasileira de pesados por gerações. Roberto Cortes, presidente-executivo da Volkswagen Caminhões e Ônibus, reconheceu publicamente em maio que o veículo pesado nacional perdeu espaço para modelos chineses em territórios que a indústria acreditava dominar. Marcas como Higer e Zhongtong já anunciaram investimentos diretos no mercado brasileiro, enquanto outras asiáticas pressionam as fatias de mercado de Scania, Volvo e Mercedes-Benz — todas com fábricas no Brasil.
A reação da indústria começou a ganhar forma. Na última quarta-feira, 7 de outubro, a Anfavea, associação que representa as montadoras, anunciou uma agenda intensiva de negociações para 2027 focada em exportações. O plano envolve retomar conversas com interlocutores em Brasília para que o país costure novos laços comerciais e retome negociações com países vizinhos. Igor Calvet, presidente da Anfavea, foi direto: em 2027, a associação precisará prospectar novos mercados e trazer acordos de volta, com uma agenda estratégica para garantir competitividade regional. Ele citou também a necessidade de o Brasil deixar de ser tão dependente das demandas da Argentina.
O Brasil mantém acordos bilaterais através do Mercosul com México e outros mercados regionais, mas a indústria avalia que essas parcerias não têm sido suficientes para fazer os envios de veículos pesados nacionais voltarem a registrar volumes robustos. A Argentina, em particular, representa um problema duplo: é um mercado importante, mas também é onde barreiras fiscais que protegem a indústria local de pesados ainda funcionam — diferentemente do segmento de veículos leves, onde modelos chineses com tarifa zero já dominam. Porém, mesmo essas travas não se mostram efetivas o suficiente para impedir que marcas asiáticas ganhem espaço no mercado de pesados.
A Volkswagen Caminhões e Ônibus, que completou 45 anos de operações de exportação em 2026, já embarcou mais de 200 mil unidades para mercados da América do Sul, África e Oriente Médio. Essa trajetória de sucesso agora está sob pressão. A Anfavea revisou suas projeções para o ano. A montagem de pesados foi revista para uma queda de 8,2% em relação a 2025, pior que a previsão de junho, que apontava 6%. Para as exportações de modelos pesados, a previsão agora indica retração de 18,7%, chegando a 27,2 mil unidades — bem mais pessimista que os 11% de queda previstos em junho.
O que está em jogo é mais do que números trimestrais. É a posição de uma indústria que se consolidou como base exportadora regional, agora tendo que lutar por mercados que considerava seus. A ofensiva anunciada pela Anfavea representa uma tentativa de reabrir espaço para os veículos de produção nacional, mas o tamanho do desafio — e a velocidade com que os competidores asiáticos avançam — sugerem que 2027 será um ano decisivo para definir se a indústria brasileira consegue se reinventar ou se continuará perdendo terreno.
Citazioni salienti
Em 2027, um dos trabalhos que a Anfavea vai ter que fazer é ir atrás de novos mercados, trazer acordos de volta, com uma agenda estratégica para garantir nossa competitividade na região— Igor Calvet, presidente da Anfavea
O veículo pesado nacional perdeu espaço para modelos chineses em mercados antes considerados cativos— Roberto Cortes, CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus