Em setembro de 2026, Ryan Murphy entrega mais uma produção à Netflix — desta vez, a história de Lizzie Borden, a mulher absolvida de matar o pai e a madrasta com um machado em 1892. O caso, que já carregava em si as sementes de um drama feminista genuíno, é engolido pela mesma máquina estética que Murphy aplica a tudo: exagero visual, personagens sem profundidade e sangue onde poderia haver silêncio. A série lembra que abundância de produção raramente é sinônimo de cuidado com a história — e que algumas absolvições merecem mais do que um espetáculo.
'Monstros: A História de Lizzie Borden' é teste de paciência e estômago
Qualidade é um acidente em uma linha de produção em massa
Por que essa série em particular merecia crítica? Há muitas produções de true crime na Netflix.
Porque o caso Borden é genuinamente intrigante — uma mulher acusada de um crime brutal, julgada em um circo de mídia, absolvida. É material para exploração séria.
Mas a crítica não é que a série existe. É que Murphy tinha dois ineditismos — primeira protagonista feminina, primeira absolvida — e não aproveitou nenhum deles.
O que significa "não aproveitar"?
Significa que em vez de investigar as dúvidas reais do caso, em vez de construir personagens com profundidade, Murphy escolheu sangue, vômito e diálogos sem nuance.
Espera — a crítica diz que a temporada dos Menendez foi mais interessante. Isso é comparação com outra obra de Murphy ou é um padrão diferente?
É comparação direta. A mesma série, mesma estética, mas a temporada anterior conseguiu lidar melhor com as ambiguidades do caso.
E o elenco? Vicky Krieps é mencionada como ponto alto.
Sim, mas a crítica deixa claro que nem ela conseguiu compensar personagens bidimensionais. Não é culpa dela.
Então é um problema de roteiro e direção, não de atuação.
Exatamente. E de visão. Murphy está em modo produção em massa — seis séries em um ano. Qualidade vira acidente.
Mas isso é especulação sobre intenção. O que a crítica pode confirmar é o resultado na tela.
E qual é o resultado?
Uma série que fetichiza relacionamentos entre mulheres em vez de explorá-los, que usa sangue como substituto para tensão, que transforma um caso histórico fascinante em pastiche.
The Pulse
- Ryan Murphy lançou seis produções em 2026, e a quarta temporada de 'Monstros' chega já carregando o peso de uma linha de montagem que privilegia volume em detrimento de substância.
- Lizzie Borden — a primeira protagonista feminina e absolvida da antologia — oferecia material raro: ambiguidade histórica, pressão social do século 19 e um julgamento que antecipou o circo midiático moderno.
- Em vez de nuances, a série entrega sangue esguichando, vômito e diálogos sem sutileza, transformando qualquer relação entre mulheres em fetichismo sem propósito narrativo.
- Vicky Krieps, ponto alto do elenco, não recebeu desenvolvimento suficiente para salvar personagens bidimensionais — e o feminismo prometido pela premissa se dissolve em caricatura pueril.
- A oportunidade de fazer algo pungente com as dúvidas que ainda cercam o caso Borden foi desperdiçada, deixando a série aquém até mesmo da temporada dos irmãos Menendez, considerada mais interessante dentro da própria antologia.
Em setembro de 2026, Ryan Murphy entrega mais uma produção à Netflix — desta vez, a história de Lizzie Borden, a mulher absolvida de matar o pai e a madrasta com um machado em 1892. O caso, que já carregava em si as sementes de um drama feminista genuíno, é engolido pela mesma máquina estética que Murphy aplica a tudo: exagero visual, personagens sem profundidade e sangue onde poderia haver silêncio. A série lembra que abundância de produção raramente é sinônimo de cuidado com a história — e que algumas absolvições merecem mais do que um espetáculo.
Ryan Murphy já entregou seis produções à Netflix em 2026. Os gêneros variam, mas não varia o tratamento: uma estética de exagero que transforma qualquer história em produto de linha, onde qualidade aparece por acidente.
'Monstros: A História de Lizzie Borden', estreada na quinta-feira, é a quarta temporada da antologia que já recontou Jeffrey Dahmer, os irmãos Menendez e Ed Gein. Desta vez, Murphy e o cocriador Ian Brenner trouxeram a primeira mulher como protagonista — e, pela primeira vez, alguém absolvida. Lizzie Borden foi acusada de matar o pai e a madrasta com dezenas de machadadas em 1892, em Fall River, Massachusetts. Seu julgamento, em 1893, é considerado um dos primeiros 'circos de mídia' da história. As provas não sustentaram condenação, e o júri a absolveu.
Era uma história que ainda desperta interesse, com potencial para ser construída com delicadeza. Mas a mão de Murphy é pesada demais: o resultado é sangue, vômito e diálogos sem qualquer sutileza. Em certos momentos, a série lembra um pastiche de 'Almas Gêmeas', de Peter Jackson — que conseguiu fazer algo pungente com tema semelhante. Aqui, qualquer relação entre mulheres vira fetichismo sem propósito.
Ella Beatty pouco pode fazer com uma protagonista que alterna suspiros e surtos. Vicky Krieps, sublime em 'Trama Fantasma', interpreta a empregada Bridget e é o ponto alto do elenco — mas nem ela recebeu esboço de desenvolvimento. Rebecca Hall e Charlie Hunnam são caricaturas como a madrasta cruel e o pai vilão. Murphy ainda costurou à trama referências à condessa Elizabeth Báthory, do século 14, com o único propósito de esguichar mais sangue. O feminismo que tentam infundir na personagem é pueril, e as dúvidas históricas que poderiam ser o coração da série ficam apenas na superfície. A oportunidade foi perdida.
Estamos em setembro e Ryan Murphy já entregou seis produções à Netflix neste ano. Variam os gêneros — true crime, drama adolescente, sátira social, romance baseado em fatos reais — mas não varia o que o produtor e seus roteiristas fazem com cada uma delas: enfiam-na numa estética de exagero que transforma a linha de produção em máquina de quantidade, onde qualidade vira acidente.
"Monstros: A História de Lizzie Borden", que estreou na quinta-feira, é mais um exemplo. É a quarta temporada da antologia que já recontou Jeffrey Dahmer, os irmãos Menendez e Ed Gein — o assassino que inspirou "Psicose". Desta vez, Murphy e o cocriador Ian Brenner trouxeram a primeira mulher como protagonista e, também pela primeira vez na série, alguém que foi absolvida. Lizzie Borden foi acusada de matar o pai e a madrasta com dezenas de machadadas em 1892, em Fall River, Massachusetts. Seu julgamento, em 1893, é considerado um dos primeiros a receber o que se chamaria depois de "circo de mídia" — algo que viraria rotina no século 20 com crimes famosos. Mas as provas não sustentaram uma condenação, e o júri a absolveu. A casa onde tudo aconteceu ainda existe e pode ser visitada.
É uma história que ainda desperta interesse, apesar da saturação de séries sobre crimes reais. Poderia ter sido construída com nuances e delicadeza. Mas a mão de Murphy é pesada demais para controlar, e o resultado é sangue esguichando, vômito, diálogos sem qualquer sutileza. Em alguns momentos, a série parece um pastiche de "Almas Gêmeas", o filme de Peter Jackson sobre duas adolescentes apaixonadas que matam os pais de uma delas. Jackson conseguiu fazer algo pungente e sensível. Sob Murphy, qualquer relação entre mulheres vira um exercício de fetichismo sem propósito.
Ella Beatty não consegue fazer muito com uma protagonista bidimensional que alterna suspiros e surtos. Vicky Krieps, que foi sublime em "Trama Fantasma", interpreta Bridget, a empregada e suposta cúmplice de Lizzie, e é o ponto alto do elenco — mas nem ela recebeu qualquer esboço de desenvolvimento. Rebecca Hall e Charlie Hunnam, que viveu Ed Gein em temporadas anteriores, são caricaturas como a madrasta fútil e cruel e o pai vilão dono de uma funerária que vilipencia cadáveres.
Murphy e Brennan ainda costuraram à história de Borden contos sobre a condessa húngara Elizabeth Báthory, do século 14, apontada como inspiração para a lenda de Drácula. O único propósito é esguichar mais sangue na cara de um espectador já empapuçado. O feminismo que tentam infundir na personagem-título é caricato e pueril. As dúvidas que ainda pairam sobre o caso Borden — dúvidas que poderiam ter sido o coração da série — são apenas um arremedo do que Murphy fez com a temporada dos Menendez, que foi mais interessante. A oportunidade foi perdida.
Notable Quotes
O suposto feminismo que eles tentam infundir na personagem-título é caricato e pueril— crítica da série
Se Jackson conseguiu produzir uma obra pungente e sensível, sob a batuta de Murphy qualquer relação entre mulheres vira um exercício de fetichismo despropositado— comparação com 'Almas Gêmeas' de Peter Jackson