Molécula vasodilatadora reduz dano cardíaco pós-infarto em estudo da Unicamp

A dose exata é a diferença entre proteção e toxicidade
Pesquisa mostra que a GSNO só funciona quando administrada na concentração correta de 200 micromolar.
Mark

Por que a dose importa tanto neste caso? Parece que mais da molécula deveria ser melhor.

Mimi

Porque o óxido nítrico é um gás muito reativo. Em pequenas quantidades, ele protege as células. Em excesso, ele se torna tóxico. É como tentar apagar um incêndio — você precisa da quantidade certa de água. Muita água e você afoga tudo.

Mark

Então o coração está em uma situação frágil quando o sangue volta?

Mimi

Extremamente. Imagine que o tecido passou 35 minutos sem oxigênio. Quando o sangue volta, é como se o coração acordasse de um choque. As células estão confusas, o metabolismo descontrola, e radicais livres explodem por toda parte. É nesse momento que a GSNO entra e diz: respire, relaxe, deixe o sangue fluir melhor.

Mark

E os próximos testes vão ser em humanos?

Mimi

Não ainda. Primeiro vão colocar a GSNO em hidrogéis e stents. A ideia é que durante uma cirurgia de revascularização, o gel ou o stent libere a molécula lentamente, protegendo o coração no momento mais crítico. É mais seguro testar assim antes de pensar em injetar diretamente em pacientes.

Mark

Quanto tempo até isso estar disponível nos hospitais?

Mimi

Isso é difícil de dizer. Eles têm a prova de conceito agora. Os próximos passos são mais engenharia do que descoberta. Mas mesmo assim, entre testes em animais maiores, testes clínicos e aprovação regulatória, estamos falando de vários anos.

  • Brasil registra 300 mil a 400 mil infartos agudo do miocárdio por ano
  • Até 50% do tamanho final do infarto é causado pela lesão de isquemia e reperfusão
  • Apenas a dose de 200 µM de GSNO mostrou eficácia; 500 µM foi tóxica
  • Estudo publicado em março de 2026 na revista Scientific Reports

A GSNO libera óxido nítrico, relaxando vasos e reduzindo danos ao coração durante a retomada da circulação pós-infarto em testes com roedores. Apenas a dose moderada (200 µM) mostrou eficácia; doses maiores (500 µM) anularam proteção e apresentaram risco de toxicidade às células cardíacas.

Pesquisa da Unicamp demonstra que a S-nitrosoglutationa (GSNO) pode reduzir lesões cardíacas após infarto ao restaurar fluxo sanguíneo, mas exige dosagem precisa para evitar toxicidade.

Quando o coração sofre um infarto, o dano não termina no momento em que a circulação é restabelecida. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas descobriram que uma molécula chamada S-nitrosoglutationa, ou GSNO, pode proteger o tecido cardíaco durante essa fase crítica de recuperação — mas apenas se administrada na dose correta. O estudo, publicado em março na revista Scientific Reports, testou o composto em ratos e revelou um achado que promete transformar o tratamento pós-infarto, embora traga consigo um aviso importante para o desenvolvimento de futuros medicamentos.

O Brasil enfrenta entre 300 mil e 400 mil casos de infarto agudo do miocárdio a cada ano, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Embora a taxa de sobrevivência chegue a 80% ou 86%, muitos pacientes enfrentam sequelas duradouras. O problema está no que acontece depois que o sangue volta a fluir. Quando a circulação é restabelecida em uma área do coração que ficou sem oxigênio, o órgão sofre um ataque duplo: um surto de estresse oxidativo e inflamação que piora a morte do tecido. Até metade do tamanho final do infarto pode ser atribuída a esse dano secundário, conhecido como lesão de isquemia e reperfusão. O retorno abrupto do sangue e do oxigênio desestabiliza o metabolismo das células, causando uma superprodução de radicais livres de oxigênio que sobrecarrega as defesas naturais do coração e destrói estruturas celulares saudáveis.

Marcelo Ganzarolli de Oliveira, professor do Instituto de Química da Unicamp, lidera o grupo que buscava alternativas para atenuar essas lesões pós-infarto. Seu trabalho, apoiado pela FAPESP e em colaboração com Andrei Carvalho Sposito, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, além de pesquisadores das universidades holandesas de Twente e Eindhoven, focou na GSNO porque ela libera óxido nítrico — um gás naturalmente produzido pelo corpo com ação vasodilatadora. No experimento, os cientistas produziram a GSNO em laboratório e a aplicaram continuamente em corações de ratos cuja circulação havia sido interrompida por 35 minutos, simulando um infarto. Testaram duas dosagens: uma moderada de 200 micromolar e outra mais que o dobro, de 500 micromolar.

Os resultados foram reveladores e contraditórios. Ambas as dosagens aumentaram o fluxo sanguíneo e reduziram a resistência vascular, demonstrando o efeito vasodilatador esperado. Mas apenas o grupo que recebeu 200 micromolar apresentou redução significativa da área do infarto e melhora na recuperação funcional do ventrículo. A concentração mais alta não ofereceu proteção adicional e ainda apresentou risco de toxicidade às células. Oliveira explica que a GSNO em concentração de 200 micromolar manteve a biodisponibilidade de óxido nítrico na área infartada, promoveu a vasodilatação e preservou a função das mitocôndrias — as organelas produtoras de energia das células. Ao transferir óxido nítrico para proteínas críticas da mitocôndria, a molécula limitou a produção de espécies reativas de oxigênio, mantendo o fornecimento de energia estável.

O mecanismo é elegante: ao diminuir os níveis de morte celular e fibrose tecidual na fase pós-isquêmica, a GSNO ajuda a evitar o aumento anormal do coração e a perda de função de bombeamento a longo prazo. Os autores do estudo destacam que o efeito cardioprotetor da GSNO é dependente da dose, provavelmente mediado pela biodisponibilidade sustentada de óxido nítrico e pela melhora da vasodilatação coronariana. Essa descoberta representa o que os cientistas chamam de "prova de conceito" — um primeiro passo importante para demonstrar que a entrega direcionada de óxido nítrico consegue frear as lesões no coração após o infarto.

O próximo passo é incorporar a GSNO em hidrogéis a serem aplicados sobre o epicárdio — a camada externa do coração — durante procedimentos cirúrgicos. O gel teria ação local, liberando óxido nítrico e sendo absorvido pelo organismo. Pesquisas também estão em andamento para incorporar a GSNO em hidrogéis injetáveis e em stents confeccionados por impressão 3D, utilizados em cirurgia de revascularização. Oliveira descreve uma abordagem inovadora: stents inteiramente poliméricos, absorvíveis e liberadores de óxido nítrico, diferentemente da maioria dos stents disponíveis no mercado, que usam revestimentos poliméricos convencionais. Essas novas etapas da investigação também contam com apoio da FAPESP, sinalizando que o caminho do laboratório para a clínica está apenas começando.

A concentração de 500 µM não conferiu proteção adicional e ainda apresentou risco de citotoxicidade
— Marcelo Ganzarolli de Oliveira, professor do Instituto de Química da Unicamp
Ao diminuir os níveis de apoptose e fibrose tecidual na fase pós-isquêmica, a GSNO ajuda a evitar a hipertrofia e a perda de função sistólica a longo prazo
— Marcelo Ganzarolli de Oliveira
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