Minutos e gestos que salvam vidas no AVC: a importância de agir rápido

O AVC continua a ser uma das maiores causas de mortalidade e morbilidade em Portugal, podendo deixar sequelas permanentes; a interrupção de reabilitação durante a pandemia resultou em perda de potencial de recuperação para muitos doentes.
Um dia sem tomar a medicação pode ser o suficiente para provocar um AVC
A importância crítica da adesão à terapêutica em doentes com fibrilhação auricular, uma das principais causas de AVC.
Mark

Porque é que o 112 é tão importante? Não seria mais rápido ir direto ao hospital?

Mimi

Porque o 112 conecta-te a um hospital que está preparado especificamente para AVCs. Se fores ao hospital da tua zona, podes perder tempo precioso. O protocolo garante que chegas ao sítio certo, imediatamente.

Luke

Mas quantas pessoas é que realmente sabem isto? O artigo diz que existe informação e campanhas, mas os sintomas não estão interiorizados. Como é que sabemos que a mensagem está a chegar?

Mark

E quanto à fibrilhação auricular? Parece ser um fator muito importante.

Mimi

É responsável por 30% dos AVCs isquémicos em todo o mundo. Afeta mais de 250 mil portugueses. O problema é que pode não ter sintomas nenhuns, e quando tem, as pessoas podem não reconhecer a gravidade.

Luke

O artigo diz que um em cada dez portugueses com mais de 70 anos desenvolve fibrilhação auricular, mas não explica quantos dos 250 mil portugueses diagnosticados estão realmente a tomar a medicação corretamente. Esse número de aderência seria crucial.

Mark

A pandemia parece ter causado danos significativos. Como é que isso se reflete nos números?

Mimi

A afluência às unidades de AVC caiu entre 25% e 50%. Mas o pior foi a reabilitação: 91% dos doentes tiveram de interromper os tratamentos. Isso significa sequelas permanentes que poderiam ter sido evitadas.

Luke

O inquérito teve 868 respostas. É uma amostra razoável, mas o artigo não diz se é representativa de todo o país ou se concentra em certas regiões. E os 19% que usaram teleconsulta – sabemos se tiveram resultados comparáveis?

Mark

Então o medo de ir ao hospital durante a Covid era infundado?

Mimi

Completamente. Os hospitais mantiveram circuitos separados, todas as proteções estavam em vigor. Um doente com Covid e AVC continuava a ser tratado normalmente.

Luke

Verdade, mas o artigo não quantifica quantos doentes realmente deixaram de ir por medo versus quantos tiveram consultas canceladas pela instituição. São duas coisas diferentes.

Mark

Qual é a lição principal aqui?

Mimi

Que cada minuto conta. Que a medicação tem de ser tomada religiosamente. E que a reabilitação não pode ser adiada sem custos reais.

Luke

E que ainda há um gap entre o conhecimento médico e o comportamento das pessoas. O artigo mostra que sabemos o que fazer, mas não estamos a fazer.

  • Três portugueses sofrem AVC por hora; Via Verde do AVC acionada 1.996 vezes nos primeiros cinco meses de 2020
  • Fibrilhação auricular afeta mais de 250 mil portugueses e é responsável por 30% dos AVCs isquémicos mundiais
  • Pandemia reduziu afluência às unidades de AVC em 25-50%; 91% dos doentes interromperam reabilitação
  • Teleconsulta utilizada por apenas 19% dos sobreviventes de AVC durante a pandemia

Três portugueses sofrem AVC por hora; a Via Verde do AVC foi acionada 1.996 vezes nos primeiros cinco meses de 2020. A fibrilhação auricular é responsável por 30% dos AVCs isquémicos mundiais e afeta mais de 250 mil portugueses; a adesão à medicação é crucial.

Artigo sobre a importância da rápida identificação e tratamento do AVC em Portugal, destacando que ligar para o 112 é essencial e que a pandemia de Covid-19 reduziu significativamente o acesso aos cuidados de reabilitação.

Três portugueses sofrem um acidente vascular cerebral a cada hora. É um número que não pede interpretação: significa que enquanto você lê estas linhas, alguém está tendo o fluxo de sangue interrompido no cérebro, ou uma artéria está se rompendo dentro da sua cabeça. O que acontece nos minutos seguintes determina se essa pessoa volta a falar normalmente, se consegue mover o braço, se reconhece o rosto de quem ama.

Nos primeiros cinco meses de 2020, os centros de orientação de doentes urgentes do Instituto Nacional de Emergência Médica acionaram a Via Verde do Acidente Vascular Cerebral quase duas mil vezes. Cada acionamento representa uma corrida contra o tempo. Os sinais de alerta são simples o suficiente para qualquer pessoa reconhecer: dificuldade em falar, perda de força num braço, desvio da boca. Quando aparecem, não há espaço para hesitação. Ligar para o 112 é a única ação que importa. Não se deve dirigir ao hospital mais próximo, não se deve esperar para ver se passa. O número europeu de emergência conecta o doente a uma rede preparada especificamente para recebê-lo.

Ana Paiva Nunes, coordenadora da unidade de AVC do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, explica o que acontece quando esse chamado chega. O centro de orientação encaminha o doente para um hospital equipado para emergências vasculares cerebrais. Não há desvios, não há confusão sobre qual instituição procurar. O maior atraso no tratamento ocorre quando as pessoas ignoram esse protocolo e dirigem-se ao hospital da sua zona de residência, acionando os serviços de emergência pré-hospitalar apenas depois. Cada minuto perdido muda o resultado. "Quanto mais tarde tratarmos um doente com AVC pior será o prognóstico e o inverso também é verdadeiro: quanto mais cedo se tratar um doente com AVC melhor será a probabilidade de ter uma excelente recuperação", diz Nunes. Quando o protocolo funciona, o doente chega a uma sala onde lhe é feita uma tomografia computadorizada imediatamente. Se houver indicação, o tratamento começa sem demora. A equipa especializada tem de responder em menos de trinta minutos.

Existem dois tipos de AVC: o isquémico, causado por um coágulo que bloqueia o fluxo sanguíneo, e o hemorrágico, provocado pela ruptura de uma artéria. Uma das principais causas do tipo isquémico é a fibrilhação auricular, uma arritmia que afeta mais de 250 mil portugueses e é responsável por cerca de 30% dos AVCs isquémicos em todo o mundo. Um em cada dez portugueses com mais de 70 anos desenvolve essa condição, embora possa afetar pessoas de qualquer idade. Os sintomas incluem palpitações, tonturas, sensação de desmaio, dificuldade em respirar, cansaço e confusão. Mas a fibrilhação auricular também pode desenvolver-se sem qualquer sintoma aparente.

Quem sofre dessa arritmia tem um risco cinco vezes maior de vir a ter um AVC. Existem medicamentos disponíveis, mas a adesão à terapêutica é absolutamente crítica. "Um dia sem tomar a medicação pode ser o suficiente para provocar um AVC ao doente", alerta Nunes. O esquecimento não é um inconveniente menor; é a diferença entre ter ou não ter um acidente vascular cerebral. Outros fatores de risco incluem sedentarismo, hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade e tabagismo. O AVC pode atingir pessoas de todas as idades, desde bebés ainda no útero até idosos, e continua sendo uma das maiores causas de mortalidade e morbilidade em Portugal.

A pandemia de Covid-19 criou uma camada adicional de complicação. Um inquérito nacional realizado por entidades científicas portuguesas revelou que a afluência aos serviços de urgência e unidades de AVC foi significativamente afetada. Apenas 22% dos profissionais de saúde inquiridos afirmaram que o número de doentes se manteve relativamente semelhante. Três quartos dos médicos relataram uma redução de cerca de 25% na afluência, enquanto metade reportou quedas superiores a 50%. Todos notaram uma redução muito significativa no número de doentes que recorriam à Via Verde do AVC. O receio de procurar ajuda durante a pandemia era compreensível, mas infundado. Os hospitais mantiveram circuitos absolutamente diferenciados entre doentes com Covid-19 e sem Covid-19, com todas as proteções necessárias em vigor. Um doente que tivesse Covid-19 e sofresse um AVC não deixaria de ser tratado.

Mas o impacto mais profundo ocorreu fora do hospital. Um inquérito realizado pela Portugal AVC – União de sobreviventes, familiares e amigos, entre 20 e 27 de abril, com resposta de 868 sobreviventes, revelou que 91% dos doentes com indicação para reabilitação foram obrigados a interromper os tratamentos ou não conseguiram iniciá-los. Apenas 15% mantiveram as consultas de seguimento da forma habitual durante a pandemia. Dois terços dos inquiridos tiveram as consultas adiadas sem sequer a possibilidade de teleconsulta, que foi utilizada por apenas 19%. Quase metade teve exames cancelados ou adiados. Cerca de um terço dos sobreviventes assumiu sentir-se pior ou muito pior relativamente ao seu estado geral de saúde. Essa percentagem subiu para 44% entre os que habitualmente beneficiavam de reabilitação, e atingiu 50% naqueles que tinham sofrido AVC há menos de um ano.

A reabilitação não é um luxo adicional; é parte essencial do tratamento contínuo. Inclui terapia da fala, fisioterapia, terapia ocupacional e outras vertentes da fisiatria. O AVC pressupõe um continuum de cuidados que não pode ser interrompido sem consequências. "Ao não acontecer durante dois meses, os doentes perderam imenso potencial de recuperação", lamenta Nunes, sublinhando que isso representa menor qualidade de vida e prognóstico com sequelas que poderiam ter sido evitadas. Mesmo em dias de pandemia, não há que ter medo em procurar ajuda. Os especialistas têm vindo a chamar a atenção para a necessidade de manter a terapêutica de controlo de fatores de risco vascular – anti-hipertensores, estatinas, antiagregantes plaquetários, anticoagulantes e terapêutica para diabetes. Nenhuma dessas medicações deve ser suspensa sem orientação médica. O tempo continua sendo o fator determinante, e a ação rápida continua sendo a diferença entre recuperação e sequelas permanentes.

Quanto mais tarde tratarmos um doente com AVC pior será o prognóstico e o inverso também é verdadeiro: quanto mais cedo se tratar um doente com AVC melhor será a probabilidade de ter uma excelente recuperação
— Ana Paiva Nunes, coordenadora da unidade de AVC do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central
Um dia sem tomar a medicação pode ser o suficiente para provocar um AVC ao doente
— Ana Paiva Nunes
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