Ministério da Saúde causa apagão de casos leves de Covid ao mudar regra de notificação

O sistema que já era falho ficou ainda mais complicado
Pesquisador da Fiocruz sobre o impacto da mudança nas regras de notificação de testes de antígeno.
Mark

Por que uma exigência técnica como número de lote causou tanto impacto?

Mimi

Porque muitos serviços de saúde não tinham essa informação registrada ou acharam mais fácil parar de reportar do que adequar seus sistemas. Foi uma barreira administrativa que funcionou como um freio.

Mark

Mas as mortes continuam caindo. Isso não significa que tudo está sob controle?

Mimi

As mortes caem porque a vacinação avançou. Mas mortes são um indicador atrasado — refletem o que aconteceu semanas atrás. Sem dados de casos leves agora, não sabemos se uma onda está se formando.

Mark

E se a ômicron realmente causar um aumento de casos após as festas?

Mimi

O país pode acordar com hospitais lotados sem ter tido tempo de se preparar. Na Europa, isso já estava acontecendo. Sem dados, não há aviso prévio.

Mark

O Ministério respondeu por que fez essa mudança?

Mimi

Não. Ficou em silêncio. Ninguém sabe se foi intencional, negligência ou apenas uma decisão técnica que ninguém previu as consequências.

Mark

Então o Brasil está testando menos ou apenas reportando menos?

Mimi

Provavelmente ambos. Mas o que sabemos é que os dados desapareceram. E em epidemiologia, dados que desaparecem são tão ruins quanto dados que nunca existiram.

  • Exigência de número de lote e fabricante dos testes de antígeno introduzida em agosto de 2021
  • Queda abrupta na notificação de casos leves a partir de meados de setembro
  • Média móvel de mortes caiu abaixo de 300 pela primeira vez desde abril de 2020
  • Pelo menos 24 capitais cancelaram Réveillon por temor da variante ômicron

Exigência de número de lote e fabricante dos testes de antígeno fez muitos serviços de saúde pararem de reportar resultados positivos e negativos. Apagão de dados impossibilita monitorar transmissão e preparar resposta a possível aumento de casos após festas de fim de ano, como ocorreu na Europa.

Mudança nas regras de notificação do Ministério da Saúde em agosto causou queda abrupta no registro de casos leves de Covid, criando lacuna crítica no monitoramento da transmissão do coronavírus no Brasil.

Em agosto, o Ministério da Saúde introduziu uma exigência aparentemente técnica: todos os testes de antígeno para Covid-19 registrados no sistema e-SUS Notifica precisariam incluir o número do lote e o nome do fabricante. O efeito foi imediato e dramático. A partir de meados de setembro, o número de resultados positivos e negativos desses testes despencou. Muitos serviços de saúde simplesmente pararam de reportar os exames, criando o que pesquisadores agora chamam de um apagão de dados sobre casos leves da doença no país.

Essa lacuna é mais do que um problema administrativo. Os testes de antígeno são a ferramenta principal para detectar infecções sintomáticas leves — exatamente o tipo de caso que ajuda epidemiologistas a entender como o coronavírus se propaga pela população. Pessoas com sintomas leves ou aquelas que tiveram contato com infectados costumam fazer esse teste rápido, que dá resultado em quinze minutos usando um cotonete nasal. Os casos mais graves chegam aos hospitais, onde é feito o teste RT-PCR, mais preciso mas mais lento. Até agosto, os dois tipos de teste caminhavam juntos nos gráficos da rede pública — quando um subia, o outro subia também. Depois de setembro, essa sincronização desapareceu.

Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, foi direto ao ponto: a mudança repentina fez com que muitos serviços de saúde parassem de reportar os exames, especialmente os positivos. "O sistema que já era falho, instável e pouco confiável ficou ainda mais complicado", disse. Os dados coletados da plataforma e-SUS e publicados no site MonitoraCovid-19, ligado à Fiocruz, confirmam essa queda já a partir de agosto. O Ministério da Saúde não respondeu aos questionamentos sobre as mudanças.

O timing é particularmente preocupante. Em dezembro de 2021, o Brasil enfrentava a chegada da variante ômicron — potencialmente mais transmissível, embora seus riscos reais ainda fossem pouco compreendidos pela comunidade científica. Ao menos vinte e quatro capitais haviam decidido cancelar as celebrações de Réveillon por temor da variante. Sem dados sobre casos leves, o país perdeu a capacidade de monitorar se uma onda de infecções estava se aproximando. Croda alertou que, se o Brasil seguisse o padrão europeu e houvesse aumento de transmissão após as festas de fim de ano, o país poderia ser surpreendido com um aumento súbito de hospitalizações — possivelmente tarde demais para abrir novos leitos ou tomar medidas de planejamento.

Há, porém, um lado positivo nos números gerais. A média móvel de mortes por Covid havia caído abaixo de trezentas — um patamar que só havia sido atingido em abril de 2020, no início da pandemia. Essa redução reflete o avanço da vacinação, que diminuiu hospitalizações e óbitos. Mas Croda ressaltou que, embora as mortes e internações sejam os indicadores mais importantes do momento, a subnotificação de casos impede saber o que realmente está acontecendo com a transmissão. "Nós desconhecemos o número de casos do ponto de vista epidemiológico para o Brasil nesse momento", disse.

O apagão também prejudica a capacidade de identificar casos de escape vacinal — infecções em pessoas vacinadas — e de calcular a efetividade real das vacinas. Esses dados seriam cruciais diante da ômicron. O governo federal havia anunciado em maio um programa ambicioso de testagem nacional, com planos de realizar até vinte e seis milhões de testes por mês usando antígenos. A estratégia nunca saiu do papel. Agora, com a exigência do lote e fabricante somada à instabilidade crônica do sistema e-SUS Notifica, o Brasil enfrenta um vazio de informação justamente quando mais precisaria de clareza sobre o que está acontecendo nas ruas.

Essa mudança repentina do Ministério da Saúde fez com que muitos serviços de saúde parassem de reportar os exames de antígeno, especialmente positivos
— Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fiocruz
Se houver aumento da transmissão após as festas de final de ano, é provável que o país seja surpreendido com um aumento súbito de hospitalizações, o que pode ser muito tarde para propor medidas de planejamento
— Julio Croda
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