Militão sustenta que não matou fisicamente ninguém e que saiu da barraca antes dos crimes, apesar de ter incentivado os cúmplices dizendo que seriam descobertos se não matassem. O emigrante português foi condenado em 2002 por atrair seis empresários para Fortaleza, onde foram enterrados vivos; argumenta que já cumpriu o limite máximo de 30 anos estabelecido pela lei brasileira.
Militão admite ordem 'indireta' para morte de empresários: 'Não estava lá'
Não tinha coragem de matar. Errei em todos os momentos.
Como é que Militão justifica o facto de ter convidado os empresários se não tinha intenção de os prejudicar?
Ele diz que convidou apenas um — alguém que tinha sido amigo em Portugal. Esse homem é que trouxe os outros dois. Militão nega qualquer plano de crime premeditado contra eles.
Mas ele admite que deu uma ordem indireta para os matarem. Isso não contradiz a ideia de que não estava envolvido?
Sim, é a tensão central da sua narrativa. Ele diz que não estava fisicamente lá, que saiu da barraca antes dos assassinatos, mas que incentivou os cúmplices dizendo que seriam descobertos se não matassem.
E a lei brasileira permite que ele seja libertado após 30 anos, independentemente da sentença?
A remição de pena é um mecanismo legal que reduz o tempo de condenação através do trabalho, estudo ou leitura. Militão argumenta que já cumpriu 30 anos contando esses créditos.
Mas ele foi condenado a 150 anos. Quantos anos realmente cumpriu sem contar remição?
24 anos de prisão efetiva. Os pedidos à justiça brasileira argumentam que com a remição, ele já ultrapassou o limite de 30 anos.
Como é que a família portuguesa reagiu?
Para eles, foi um choque total. Desconheciam qualquer envolvimento dele em atividades criminosas. Ele diz que é uma vergonha para eles, e que o apoio é basicamente nenhum.
E a família brasileira?
Tem-o apoiado, particularmente nos esforços para obter remição de pena. Ele tem um filho que nasceu enquanto estava preso.
Qual é o próximo passo legal para Militão?
Isso não está claro na entrevista. Ele diz que procura todas as possibilidades, mas não sabemos se há um processo específico pendente ou qual é a posição atual da justiça brasileira sobre o seu caso.
Le Pouls
- Seis empresários portugueses enterrados vivos em Fortaleza, Brasil, a 12 de agosto de 2001
- Militão condenado a 150 anos em fevereiro de 2002; cumpriu 24 anos de prisão efetiva
- Lei brasileira estabelece limite máximo de 30 anos de pena; Militão argumenta que já cumpriu esse limite com remição
- Militão admite ter dado ordem indireta para os assassinatos, mas nega ter estado presente
Militão sustenta que não matou fisicamente ninguém e que saiu da barraca antes dos crimes, apesar de ter incentivado os cúmplices dizendo que seriam descobertos se não matassem. O emigrante português foi condenado em 2002 por atrair seis empresários para Fortaleza, onde foram enterrados vivos; argumenta que já cumpriu o limite máximo de 30 anos estabelecido pela lei brasileira.
Luís Miguel Militão, condenado a 150 anos pela morte de seis empresários portugueses em 2001, afirma ter dado apenas uma ordem indireta e não ter estado presente nos assassinatos, pedindo libertação após cumprir 30 anos de pena.
Luís Miguel Militão está numa cela no Brasil há 24 anos, condenado a 150 anos de prisão pela morte de seis empresários portugueses. Mas numa entrevista recente à CNN Portugal, durante uma saída precária do cárcere, ele argumenta que deveria estar livre. Segundo a lei brasileira, ninguém pode cumprir mais de 30 anos de pena — e Militão insiste que já atingiu esse limite, contando os anos que trabalhou e estudou em reclusão como remição de pena, um mecanismo legal que reduz o tempo de condenação.
O caso remonta a 12 de agosto de 2001. Seis empresários portugueses, com idades entre 42 e 57 anos, foram atraídos para Fortaleza por Militão, um emigrante português que vivia no Brasil. Foram sequestrados, agredidos à paulada e enterrados vivos na cozinha de um restaurante na Praia do Futuro. A brutalidade do crime chocou o mundo. Os corpos foram encontrados no dia seguinte. Militão foi detido uma semana depois, em 23 de agosto, depois que as autoridades descobriram que ele tinha sacado milhares de euros das contas bancárias das vítimas.
Na entrevista, Militão reconstrói o que diz ter acontecido. Ele afirma que convidou apenas um empresário português para Fortaleza — alguém que tinha sido um amigo em Portugal. Esse homem disse que viria e que levaria dois companheiros. Militão nega ter planeado um esquema de turismo sexual ou qualquer crime contra eles. Quando o grupo chegou, aumentou ainda mais, e com estes novos membros ele não tinha a mesma relação.
O que Militão descreve a seguir é uma sequência de eventos em que ele estava alcoolizado, desesperado, e foi enganado por pessoas no contexto das favelas de Fortaleza. Ele diz que perdeu o pouco dinheiro que tinha. Alguns dos seus cúmplices o induziram a cometer crimes, mas ele recusou: "Não tenho coragem de matar ninguém", afirmou ter dito. A resposta foi: "Eu tenho". Quando o grupo foi sequestrado, Militão foi também preso — uma ação que ele diz ter sido encenada para fazer parecer que não estava envolvido, facilitando assim o fornecimento das senhas dos cartões de crédito. Depois disso, ele saiu da barraca e não participou mais. "Eu não vi, não estava lá. Fisicamente, não matei ninguém", disse.
Mas Militão também admite algo mais: quando os cúmplices hesitavam, ele os incentivou. Disse-lhes que seriam descobertos se não matassem. Mais tarde, reconheceu que isso foi uma ordem — indireta, mas uma ordem. "Não tinha coragem de matar. Errei em todos os momentos, mas mais nesse momento em que disse que 'se não fizermos o que combinámos, amanhã somos todos presos'. Isso foi uma ordem, indireta, mas foi", confessou. Ele descreve a lógica que circulava entre eles: não tinham dinheiro suficiente para manter as vítimas em cativeiro, seriam descobertos, portanto as pessoas precisavam morrer. "Era estupidez do momento. Não éramos criminosos, não sabíamos cometer crimes", argumenta.
Em fevereiro de 2002, Militão foi condenado a 150 anos. Os seus cúmplices receberam sentenças semelhantes ou superiores: Manoel Lourenço Cavalcante, Leonardo Sousa dos Santos e José Jurandir Pereira Ferreira foram condenados a 120 anos cada; Raimundo Martins da Silva Filho, apontado como o mais violento dos assassinos, recebeu 162 anos.
Militão diz que o crime foi um choque para a sua família em Portugal, que desconhecia os planos. Para eles, ele é agora uma "vergonha". O apoio dessa parte da família é, segundo ele, "basicamente nenhum". A sua família brasileira, porém, tem-o ajudado — nomeadamente nos esforços para obter remição de pena. Ele tem um filho que nasceu enquanto ele já estava preso. Militão afirma que foi corrompido pela cultura criminosa daquele local específico em Fortaleza, não pela cultura brasileira em geral. Agora, aos 30 anos, nove meses e alguns dias de pena cumprida, ele procura todas as possibilidades legais para ser libertado, argumentando que já satisfez o limite máximo estabelecido pela lei brasileira.
Citations marquantes
Eu não vi, não estava lá. Fisicamente, não matei ninguém.— Luís Miguel Militão, na entrevista à CNN Portugal
Isso foi uma ordem, indireta, mas foi.— Luís Miguel Militão, reconhecendo ter incentivado os cúmplices a cometer os crimes