Há trabalhos que moldam silenciosamente o espírito de uma comunidade — e só quando cessam revelam toda a sua profundidade. Dirce Maria Pereira dos Santos, merendeira por trinta anos em escolas públicas de Pernambuco, encerrou sua trajetória em 7 de agosto na Erem Maria do Céu Bandeira, em Moreno, e foi surpreendida por algo que nenhuma cerimônia oficial poderia orquestrar: uma escola inteira de pé, aplaudindo, reconhecendo que ela havia sido muito mais do que cozinheira. Sua aposentadoria, aos 70 anos, não marca uma ausência, mas a permanência invisível de quem soube enxergar além do prato.
Merendeira é aplaudida em 'corredor' de alunos ao se aposentar após 30 anos
Eu tenho um carinho muito, muito grande pelos alunos
O que torna uma merendeira tão importante que toda uma escola sai para aplaudir?
Dirce não ficava na cozinha. Ela percebia quando um aluno estava triste, quando algo não estava bem. Era conselheira, amiga. Três décadas fazendo isso muda uma pessoa.
A homenagem foi realmente espontânea? Ninguém planejou?
Completamente. O gestor só ia entregar um buquê. Mas quando contou aos alunos que ela estava se despedindo, eles saíram das salas sozinhos, formaram o corredor. Ninguém mandou fazer.
Como alguém que trabalha em uma cozinha escolar consegue influenciar tanto?
Porque ela entendia as dores dos estudantes. Repassava as sugestões deles para melhorias na escola. Não era só comida boa — era presença, atenção, cuidado genuíno.
E agora, sem ela, como fica a escola?
O gestor disse que a lacuna já é sentida. Treinou a substituta, mas não é a mesma coisa. Dirce criou uma identidade com aquele lugar. Isso não se substitui tão fácil.
Dirce sente falta também?
Muito. Mas está aproveitando descansar, ficar em casa, ir ao sítio da família. De vez em quando volta à escola para matar a saudade. A relação não terminou, só mudou de forma.
The Pulse
- Dirce chegou ao último turno sem saber que a escola havia se mobilizado espontaneamente para homenageá-la — alunos formaram um corredor de aplausos do portão até as salas de aula.
- A emoção foi tão intensa que ela, autodeclarada 'chorona', não teve tempo de chorar: havia alegria demais tomando conta do momento.
- O gestor Rafael Maximo, que a trouxe para a escola com o objetivo de construir uma identidade institucional forte, admitiu que a lacuna já é sentida no dia seguinte à sua saída.
- Dirce treinou sua substituta antes de partir, garantindo continuidade — mas o vínculo afetivo que ela construiu com alunos e professores ao longo de dez anos não tem substituto imediato.
- Aposentada, ela divide os dias entre sua casa em Moreno e um sítio no Cabo de Santo Agostinho, e volta à escola de vez em quando — porque a saudade, confessa, é mútua.
Há trabalhos que moldam silenciosamente o espírito de uma comunidade — e só quando cessam revelam toda a sua profundidade. Dirce Maria Pereira dos Santos, merendeira por trinta anos em escolas públicas de Pernambuco, encerrou sua trajetória em 7 de agosto na Erem Maria do Céu Bandeira, em Moreno, e foi surpreendida por algo que nenhuma cerimônia oficial poderia orquestrar: uma escola inteira de pé, aplaudindo, reconhecendo que ela havia sido muito mais do que cozinheira. Sua aposentadoria, aos 70 anos, não marca uma ausência, mas a permanência invisível de quem soube enxergar além do prato.
No dia 7 de agosto, Dirce Maria Pereira dos Santos chegou à Escola de Referência em Ensino Médio Maria do Céu Bandeira, em Moreno, para seu último turno como merendeira. Aos 70 anos, encerrava três décadas de trabalho em cozinhas escolares. O que ela não esperava era o que a aguardava no portão.
Estudantes saíram das salas, formaram duas fileiras desde a entrada até os corredores internos e aplaudiram Dirce enquanto ela passava entre eles. A homenagem não foi planejada pela direção — o gestor Rafael Maximo havia preparado apenas flores e um almoço de despedida. Quando comunicou aos alunos que Dirce estava se aposentando, a resposta foi espontânea e imediata: a escola inteira decidiu homenageá-la daquela forma.
Dirce não era apenas quem preparava as refeições. Ao longo de dez anos naquela escola, ela percebeu tristezas, notou ausências, conversou com alunos em momentos difíceis e levou sugestões deles à coordenação. Rafael a descreveu como alguém capaz de saber, só pelo olhar, se um estudante estava bem — tornando-se conselheira e amiga além de cozinheira talentosa. Foi justamente por isso que ele a convidou para a escola: queria construir uma identidade forte para a instituição, e sabia do que ela era capaz.
Em entrevista após a homenagem, Dirce contou que havia planejado se despedir sala por sala, mas desistiu várias vezes. 'Eu sou chorona e gosto muito dos alunos', disse, rindo. A alegria do momento foi tão grande que não sobrou espaço para as lágrimas — mas a saudade veio depois. 'Estou com saudade ainda', confessou.
Antes de partir, ela treinou sua substituta. Rafael admitiu que a ausência já pesa: 'Ontem mesmo foi terrível sem ela.' Agora, Dirce acorda sem hora marcada, divide o tempo entre Moreno e um sítio da família no Cabo de Santo Agostinho — e volta à escola de vez em quando, porque a saudade, de ambos os lados, não desaparece facilmente.
No dia 7 de agosto, Dirce Maria Pereira dos Santos chegou à Escola de Referência em Ensino Médio Maria do Céu Bandeira em Moreno, no Grande Recife, para o que seria seu último turno como merendeira. Aos 70 anos, ela encerrava três décadas de trabalho em cozinhas escolares — passando por três instituições diferentes ao longo de sua carreira — e se aposentava no início do mês. O que ela não imaginava era que seus alunos e colegas tinham preparado algo para ela.
No portão da escola, começou a se formar uma fila de pessoas. Estudantes saíram das salas de aula, desceram pelos corredores, e se posicionaram em duas fileiras que se estendiam desde a entrada até as dependências internas da unidade. Quando Dirce passou por entre eles, a escola inteira a aplaudiu. Não era um evento programado pela administração. O gestor Rafael Maximo havia planejado apenas entregar um buquê de flores e fazer um almoço de despedida no dia anterior. Mas quando ele e a coordenação comunicaram aos alunos que Dirce estava se despedindo, algo aconteceu de forma completamente espontânea: toda a comunidade escolar decidiu homenageá-la daquela maneira.
Dirce não era apenas quem preparava as refeições. Durante dez anos naquela escola — e ao longo de toda sua carreira — ela havia desenvolvido uma relação profunda com os estudantes que ia muito além da cozinha. Ela percebia quando um aluno estava triste, quando faltava ao almoço, quando algo não estava bem. Conversava com eles, oferecia palavras de apoio e incentivo. Levava as sugestões dos estudantes para a coordenação, ajudando a escola a melhorar. Rafael Maximo a descreveu como alguém que conseguia, apenas pelo olhar, saber se um menino estava bem ou não — e isso a tornava conselheira, amiga, além de cozinheira talentosa.
O próprio gestor havia trazido Dirce para a escola com um objetivo claro: criar uma identidade forte, redirecionar os rumos da instituição. Ele a conhecia desde a infância — era filho de uma amiga dela — e sabia do que ela era capaz. Segundo Rafael, a estratégia funcionou perfeitamente. Dirce conquistou a confiança de alunos, professores e funcionários, criando uma identidade fantástica com toda a comunidade.
Em entrevista após a homenagem, Dirce revelou que havia planejado se despedir de classe em classe, mas desistiu várias vezes. "Eu sou chorona e gosto muito dos alunos", explicou, rindo da própria emoção. "Porque eu tenho um carinho muito, muito grande pelos alunos. São meninos muito bons." A homenagem a deixou tão emocionada que não teve tempo nem para chorar — havia alegria demais. Mas também deixou saudade. "Eu não tinha tempo de chorar, de tanta alegria. Me deixou com muita saudade. Estou com saudade ainda", contou.
Antes de partir, Dirce treinou sua substituta para garantir continuidade no trabalho. Rafael Maximo admitiu que a lacuna já era sentida. "A gente já está com saudade, sim. Ela precisou se aposentar para cuidar da saúde dela, cuidar das coisas dela, né? 70 anos. Mas vou dizer que a lacuna já é sentida. Ontem mesmo foi terrível sem ela", confessou o gestor.
Agora, Dirce aproveita os dias de aposentadoria de forma diferente. Não precisa acordar cedo para ir à escola. Passa tempo em sua casa em Moreno e em um sítio da família no Cabo de Santo Agostinho, também na Região Metropolitana. "Eu estou curtindo o meu dia. A hora de acordar, não tenho que ir para canto nenhum", disse. Mas de vez em quando volta à escola para matar a saudade — e a saudade, parece claro, é mútua.
Notable Quotes
Nós fomos nas salas e colocamos para os meninos que Dirce estava se despedindo. Aí de forma espontânea toda a escola veio para a porta, toda a escola saiu e foi aplaudi-la de ponta a ponta— Rafael Maximo, gestor da escola
Eu estou curtindo o meu dia. A hora de acordar, não tenho que ir para canto nenhum. Não tenho que ir para escola. De vez em quando eu vou lá para matar a saudade— Dirce Maria Pereira dos Santos