Mercado de trabalho resiste, mas desacelera; recessão não é indicada por estudo

O mercado está em desaceleração, mas segue resiliente
Economista avalia que indicadores ainda não sinalizam recessão iminente, apesar da perda de ritmo.
Mark

Então essa regra de Sahm — ela realmente funciona como um alerta precoce, ou é só mais um indicador que economistas usam para parecer que entendem o futuro?

Mimi

Funciona melhor do que parece. Nos dois episódios recessivos que o Brasil viveu nos últimos 12 anos, ela disparou. O ponto é que ela dispara mais rápido que outras métricas porque os dados de desemprego saem com mais frequência que os dados de PIB.

Luke

Mas aí está o problema, não é? A regra foi testada em apenas dois episódios. Dois. E um deles foi a pandemia, que foi um choque completamente anômalo. Não dá para ter muita confiança em um indicador com tão pouca história.

Mimi

Verdade. Mas Imaizumi deixa claro que a regra tem limitações. O mercado de trabalho brasileiro não funciona como o americano. Há mais informalidade, mais flexibilidade. Em uma recessão real, você pode não ver o desemprego formal subir tanto.

Mark

Então por que adaptar a regra se ela não vai funcionar bem mesmo?

Mimi

Porque é melhor ter um sinal imperfeito do que nenhum sinal. E porque, mesmo imperfeita, ela captura algo real — quando o mercado de trabalho começa a se deteriorar, geralmente algo ruim está acontecendo.

Luke

Mas o indicador em julho estava em 0,12 ponto percentual. O limiar é 0,3. Estamos a um quarto do caminho. Isso é "resiliente" ou é só que ainda não chegou lá?

Mimi

É resiliente no sentido de que não está piorando rapidamente. Ficou estável entre junho e julho. Se estivesse acelerando em direção ao limiar, seria mais preocupante.

Mark

E quanto à renda? Vi que caiu 0,7%.

Mimi

Caiu, mas o IBGE diz que está dentro da margem de estabilidade estatística. Não é uma queda significativa em termos técnicos.

Luke

Mas é uma queda. E quando você junta queda de renda com desaceleração do PIB — que foi de 1,1% para 0,5% — começa a parecer que as coisas estão esfriando.

Mimi

Estão esfriando, sim. Ninguém discorda disso. A questão é se vão congelar. E por enquanto, os números não indicam que vão.

Mark

E as eleições? Isso muda algo?

Mimi

Muda tudo. A política fiscal que vier em 2027 pode ser a diferença entre crescimento fraco e recessão real. Sartori deixa claro que é preciso um ajuste fiscal cuidadoso, sem apertar demais.

  • O mercado de trabalho brasileiro atingiu a menor taxa de desemprego desde 2012, mas o rendimento médio dos trabalhadores já recua — sinal de que a recuperação pode ter chegado ao seu limite.
  • A regra de Sahm adaptada ao Brasil marcou 0,12 ponto percentual em julho, estável nos dois últimos meses e ainda distante do limiar de 0,3 p.p. que acenderia o alerta de recessão.
  • Economistas alertam que o mercado de trabalho brasileiro reage com defasagem às crises: em vez de desemprego abrupto, vagas formais podem migrar silenciosamente para a informalidade, enganando os indicadores tradicionais.
  • Com o PIB desacelerando de 1,1% para 0,5% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026, os juros elevados já cobram seu preço — e as eleições presidenciais adicionam uma variável fiscal imprevisível para 2027.

Em um país onde o trabalho informal sempre amorteceu os choques econômicos, a pergunta sobre recessão raramente tem resposta simples. Um estudo recente adapta ao Brasil uma métrica americana de alerta precoce — a regra de Sahm — e conclui que, embora o mercado de trabalho esteja perdendo fôlego, o indicador permanece bem abaixo do limiar que historicamente precede contrações. O momento é de desaceleração, não de colapso, mas as incertezas eleitorais e os juros elevados lembram que a distância entre os dois pode ser menor do que os números sugerem.

O mercado de trabalho brasileiro perde força, mas ainda não acende o sinal vermelho de recessão. É o que indica um estudo do economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, que adaptou ao Brasil a chamada regra de Sahm — métrica criada pela ex-economista do Federal Reserve Claudia Sahm para detectar recessões precocemente nos Estados Unidos.

Na versão americana, o alerta dispara quando a média móvel de três meses do desemprego sobe 0,5 ponto percentual acima do menor nível dos 12 meses anteriores. Imaizumi reduziu esse limiar para 0,3 p.p. no caso brasileiro, ajuste justificado pela maior informalidade do mercado nacional e respaldado por orientações do centro de pesquisa Made, da USP. Testado nas recessões de 2014–2016 e de 2020, o indicador adaptado funcionou como alerta precoce em ambos os episódios.

Os dados mais recentes mostram o indicador em 0,12 p.p. em julho — estável em relação a junho e ainda distante do limiar crítico. A taxa de desemprego chegou a 5,3% no trimestre até julho, o menor nível desde o início da série histórica em 2012. Ainda assim, o rendimento médio do trabalho recuou de R$ 3.786 para R$ 3.762 entre abril e julho, sugerindo que o mercado pode ter atingido um patamar de saturação após anos de recuperação.

Imaizumi ressalva que o mercado de trabalho brasileiro reage com defasagem às crises: em vez de desemprego aberto, uma recessão pode se manifestar primeiro como migração de vagas formais para a informalidade — movimento que a regra de Sahm pode não captar com precisão. Para o economista Rodolpho Sartori, da Buysidebrazil, o mercado chegou ao seu teto, mas uma recessão em 2027 não está no horizonte por ora. Suas projeções apontam crescimento de 1,9% do PIB em 2026 e 1,6% no ano seguinte.

O cenário mais amplo, porém, carrega riscos. Os juros elevados já desaceleraram o PIB de 1,1% no primeiro trimestre para 0,5% no segundo trimestre de 2026. As eleições presidenciais de outubro — com Lula e Flávio Bolsonaro como favoritos — introduzem uma variável fiscal decisiva: a política econômica que cada um adotaria a partir de 2027 pode alterar profundamente as perspectivas de crescimento. Sartori adverte que equilibrar corte de juros, ajuste fiscal e confiança do mercado será um exercício delicado — e o resultado desse equilíbrio pode definir se o Brasil mantém o crescimento ou escorrega para uma contração.

O mercado de trabalho brasileiro está perdendo força, mas ainda não oferece sinais concretos de que o país se encaminha para uma recessão. É o que aponta um estudo do economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, que adapta ao Brasil uma métrica americana conhecida como regra de Sahm — batizada assim em homenagem à economista Claudia Sahm, ex-integrante do Federal Reserve.

Nos Estados Unidos, essa regra funciona de forma simples: quando a média móvel de três meses da taxa de desemprego sobe 0,5 ponto percentual ou mais acima do menor nível registrado nos 12 meses anteriores, ela acende um sinal de alerta para recessão. Imaizumi ajustou esse indicador para a realidade brasileira, reduzindo o limiar para 0,3 ponto percentual. A mudança não é arbitrária. O mercado de trabalho nacional tem características distintas do americano — maior informalidade, por exemplo — que exigem uma calibragem diferente. A recomendação segue orientação recente do Made, centro de pesquisa em macroeconomia das desigualdades vinculado à USP.

Os números mais recentes mostram um mercado em transição. Até fevereiro, a diferença medida pela regra estava negativa. Nos meses seguintes, começou a se aproximar do limiar de 0,3 ponto percentual. Mas em junho e julho — os dois últimos períodos com dados disponíveis — o indicador se estabilizou, passando de 0,13 para 0,12 ponto percentual. Ainda está longe de disparar o alarme. "O mercado de trabalho está em desaceleração, mas segue ainda resiliente, ainda forte", afirma Imaizumi. Ele ressalva, porém, que o mercado de trabalho brasileiro reage com certa defasagem às crises econômicas. Em uma recessão, é possível que vagas formais migrem para o setor informal em vez de haver um aumento abrupto do desemprego — um padrão que a regra de Sahm pode não captar com precisão.

Os dados históricos que sustentam essa análise vêm do IBGE e cobrem desde o final de 1995. A série foi testada em dois episódios recessivos recentes: a crise de 2020, durante a pandemia de Covid-19, e a recessão anterior, que durou do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016. Em ambos os casos, a diferença medida pela regra ultrapassou o limiar de 0,3 ponto percentual, validando o indicador como ferramenta de alerta precoce.

A taxa de desemprego divulgada pelo IBGE ficou em 5,3% no trimestre até julho — o menor nível para esse período desde que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua começou, em 2012. Mas há sinais de desaceleração. O rendimento médio do trabalho recuou 0,7% entre abril e julho, caindo de R$ 3.786 para R$ 3.762 mensais. O IBGE considera a queda dentro da margem de estabilidade estatística, mas analistas a interpretam como um indicador de que o mercado chegou a um patamar de saturação após anos de recuperação.

Para Rodolpho Sartori, economista da consultoria Buysidebrazil, o mercado de trabalho parece ter atingido seu teto. Ainda assim, ele não projeta recessão para 2027 — pelo menos não no momento. Suas previsões apontam crescimento de 1,9% para o PIB em 2026 e 1,6% no ano seguinte. O contexto econômico mais amplo, porém, carrega incertezas. O Brasil enfrenta juros elevados para conter a inflação, o que já desacelerou o crescimento do PIB para 0,5% no segundo trimestre de 2026, ante 1,1% no primeiro trimestre. As eleições presidenciais de outubro trazem uma variável política importante: as pesquisas apontam Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro como favoritos, e a política fiscal que cada um implementaria a partir de 2027 pode alterar significativamente o cenário econômico. Sartori alerta que será preciso equilibrar cuidadosamente a redução dos juros, o ajuste fiscal e a confiança do mercado — um desenho delicado que pode determinar se o país consegue manter o crescimento ou desliza para uma contração.

O mercado de trabalho está em desaceleração, mas segue ainda resiliente, ainda forte
— Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence
É preciso melhorar o mercado de crédito, diminuindo a curva de juros, e é preciso melhorar as expectativas com um ajuste fiscal necessário, mas que tem de ser cuidadoso
— Rodolpho Sartori, economista da Buysidebrazil
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