Menino de 3 anos morre de covid-19 após já ter sido salvo de afogamento

Menino de 3 anos faleceu por covid-19 após sofrer complicações de afogamento anterior; família enlutada inclui pai vereador e mãe que relata devastação pela perda do filho desejado.
Não é a lei natural da vida os pais enterrarem um filho
A mãe de Bernardo reflete sobre a devastação de perder seu filho desejado para a covid-19.

Em Alumínio, interior de São Paulo, um menino de três anos chamado Bernardo deixou o mundo na madrugada de 10 de março de 2021, levado pela covid-19 antes que uma vaga de UTI pudesse ser encontrada. Ele já havia sobrevivido a um afogamento grave meses antes, mas as sequelas deixaram seu corpo vulnerável ao vírus que, apesar de todos os cuidados da família, encontrou caminho até ele. A história de Bernardo é um espelho da pandemia em sua face mais cruel: a de uma criança frágil, uma família vigilante, e um sistema de saúde que não chegou a tempo.

  • Bernardo tinha traqueostomia e saúde comprometida desde um afogamento em setembro de 2020 — condições que tornaram a covid-19 uma ameaça imediata à sua vida.
  • Mesmo com álcool em gel em todos os cômodos, ninguém entrando calçado em casa e o pai saindo ao trabalho com proteção, o vírus contaminou toda a família.
  • Na noite de 9 de março, a família correu contra o tempo buscando uma vaga de UTI pediátrica — até em São Paulo — enquanto o estado de Bernardo se agravava.
  • Sem conseguir a vaga, Bernardo morreu na madrugada de quarta-feira, no mesmo município onde havia sido salvo meses antes de um afogamento.
  • A prefeitura de Alumínio decretou luto oficial de três dias, e sua mãe Glaucia busca forças na crença de que o filho partiu sem mais sofrimento.

Bernardo José Rivera tinha três anos e já havia enfrentado a morte uma vez. Em setembro de 2020, cinco dias antes de seu aniversário, ele caiu na piscina da própria casa enquanto a mãe trabalhava e a avó cuidava das crianças. O afogamento foi grave: três meses de internação, e ao sair, uma traqueostomia que mudou para sempre sua saúde.

Quatro meses depois, no fim de fevereiro de 2021, Bernardo começou a apresentar sintomas de covid-19. O diagnóstico veio dois dias depois. A família havia tomado todos os cuidados possíveis — álcool em gel em cada cômodo, ninguém entrava calçado, o pai usava proteção no trabalho, Glaucia só saía com o filho para consultas médicas. Mesmo assim, o vírus chegou: contaminou o pai, a mãe, outros familiares. Um tio de Bernardo havia morrido em fevereiro pela mesma doença.

No dia 9 de março, Bernardo foi internado no pronto-atendimento de Alumínio — o mesmo lugar que havia salvado sua vida meses antes. Glaucia sabia, desta vez, que seria diferente. A família buscou desesperadamente uma vaga de UTI pediátrica, chegando a procurar em São Paulo. Na madrugada de quarta-feira, 10 de março, antes que qualquer vaga fosse encontrada, Bernardo morreu.

Glaucia descreve o filho como esperto, tagarela, desejado — uma segunda gestação que ela havia sonhado por anos. Ele tinha um irmão mais velho de oito anos. Seu pai, José Rivera, é vereador no município, e a prefeitura decretou luto oficial de três dias. A mãe, em seu luto, encontra amparo na ideia de que o filho era um anjo que não merecia mais sofrer — e que partiu com permissão.

Bernardo José Rivera tinha três anos quando o vírus chegou. Seus pais, Glaucia Silva Santos e José Rivera, já conheciam bem o caminho para o hospital — tinham estado lá antes, meses atrás, quando o menino quase morreu afogado na piscina de casa. Dessa vez não houve salvação. Na madrugada de quarta-feira, 10 de março de 2021, enquanto a família ainda buscava uma vaga em unidade de terapia intensiva, Bernardo faleceu em Alumínio, uma cidade a 82 quilômetros de São Paulo, vítima de complicações da covid-19.

Glaucia descreve o filho que perdeu com a precisão de quem ainda está tentando acreditar que ele se foi. Bernardo era desejado — ela havia sonhado com uma segunda gestação durante anos. Quando chegou, o menino se mostrou esperto, cativante, tagarela, curioso. Ele tinha um irmão mais velho, de oito anos. A mãe fala sobre a devastação de enterrar um filho, sobre como isso não é a ordem natural das coisas, sobre como estão buscando forças para seguir.

O corpo de Bernardo carregava as marcas de duas tragédias. A primeira aconteceu em 17 de setembro de 2020, cinco dias antes de seu terceiro aniversário. Ele caiu na piscina da própria casa — uma chácara com muro e portão, o lugar que Glaucia sempre havia imaginado como o mais seguro do mundo. Sua mãe estava trabalhando. Sua avó cuidava dele e do irmão. O afogamento foi grave o suficiente para exigir três meses de internação. Quando saiu do hospital, Bernardo tinha uma traqueostomia, um tubo cirurgicamente inserido em sua traqueia para ajudá-lo a respirar. Sua saúde nunca mais foi a mesma.

Quatro meses depois, em 28 de fevereiro de 2021, Bernardo começou a apresentar os primeiros sintomas de covid-19. Dois dias depois, o diagnóstico foi confirmado. No dia 9 de março, ele foi internado no pronto-atendimento da cidade. Glaucia recorda que foi naquele mesmo pronto-atendimento que devolveram a vida ao seu filho quando ele se afogou. Mas dessa vez ela sabia que seria diferente. Sabia que seu bebê dificilmente voltaria. A família começou a procurar uma vaga de UTI pediátrica — até em São Paulo. Glaucia pediu a Deus que, se fosse hora de levá-lo, pelo menos não o deixasse ser transferido para longe de casa.

Os cuidados tinham sido rigorosos. O pai saía para o trabalho com proteção. Ninguém entrava em casa calçado. Álcool em gel estava em todos os cômodos. Glaucia só saia com Bernardo para ir aos médicos. Apesar de tudo isso, o vírus encontrou a família. O pai contraiu covid-19. A mãe contraiu. Dois outros familiares contraíram. Um tio de Bernardo havia morrido em fevereiro por complicações da mesma doença.

Bernardo foi enterrado na quarta-feira, 10 de março. Seu pai, José Rivera, é vereador no município. A prefeitura de Alumínio decretou luto oficial de três dias pela morte da criança. Glaucia, em seu desespero, encontrou uma forma de seguir: saber que o filho estava sofrendo muito, que ele era um anjo que não merecia sofrer mais, que partiu com permissão de Deus. É o que ela diz para si mesma agora, nos dias que vêm.

O Bernardo foi muito desejado, só Deus sabe o quanto eu quis ter esse segundo filho. Ele sempre foi muito esperto, cativante, tagarela e muito curioso.
— Glaucia Silva Santos, mãe de Bernardo
Meu maior medo no hospital era ele pegar esse vírus
— Glaucia Silva Santos, recordando seus temores após o afogamento de 2020
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como uma criança com comorbidades graves acaba contraindo covid-19 apesar de todos os cuidados?

Model

A resposta está em como o vírus se move através das famílias. O pai tinha que sair para trabalhar. Mesmo com proteção, mesmo com álcool em gel, mesmo com as precauções, o vírus encontrou uma brecha. E uma vez que entra em casa, especialmente com uma criança com traqueostomia — um tubo que a conecta diretamente ao sistema respiratório — o risco se multiplica.

Inventor

A traqueostomia fazia diferença no prognóstico?

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Fazia toda a diferença. Bernardo já tinha os pulmões e as vias aéreas comprometidas pelo afogamento anterior. A traqueostomia era necessária para ele respirar. Quando a covid-19 chegou, seu corpo já estava operando em desvantagem. Não era uma criança saudável de três anos enfrentando o vírus — era uma criança cujo sistema respiratório já estava fragilizado.

Inventor

Por que a família não conseguiu uma vaga de UTI a tempo?

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Essa é a pergunta que fica no ar. Eles buscavam vaga até em São Paulo, a 82 quilômetros de distância. Mas Bernardo morreu na madrugada enquanto ainda esperavam. Não sabemos se não havia leitos disponíveis, se havia atrasos no sistema, se a situação piorou mais rápido do que o esperado. O que sabemos é que uma criança vulnerável precisava de cuidados intensivos e não os recebeu a tempo.

Inventor

Como os pais estão processando isso — duas tragédias com o mesmo filho em seis meses?

Model

Glaucia fala sobre a primeira vez que estiveram naquele pronto-atendimento, quando salvaram Bernardo do afogamento. Ela sabia, quando voltou dessa segunda vez, que seria diferente. Há uma resignação naquilo que ela diz — que pediu a Deus que, se fosse hora, pelo menos não o deixasse morrer longe de casa. É uma mãe negociando com o universo nos termos que consegue.

Inventor

O que a história de Bernardo revela sobre a pandemia no Brasil?

Model

Revela que crianças com vulnerabilidades preexistentes não estavam protegidas. Revela que mesmo famílias que fazem tudo certo — que isolam, que usam álcool em gel, que limitam saídas — ainda perdem. E revela que quando a covid-19 encontra uma criança cujo corpo já está fragilizado, as chances de sobrevivência diminuem drasticamente. Bernardo é um caso extremo, mas não é único.

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