Em um sistema construído para proteger os mais vulneráveis, o dinheiro destinado a aposentados e pensionistas do INSS foi desviado por meio de uma rede de empresas e intermediários. Samuel Chrisostomo, apontado como operador financeiro central desse esquema, deixou a prisão por decisão do ministro André Mendonça, do STF, após dez meses detido — não por inocência declarada, mas porque as diligências que justificavam sua prisão preventiva foram concluídas. A liberdade vigiada que se segue é um lembrete de que a justiça, quando funciona, caminha em etapas, e que o capítulo final ainda não foi esc
Mendonça solta ex-contador da Conafer investigado por desvios de aposentadorias
A liberdade sob vigilância: tornozeleira, passaporte entregue, país inteiro como prisão.
Por que um ministro do STF está decidindo sobre a soltura de um investigado em um caso de desvio de aposentadorias? Isso não deveria estar em outra instância?
A prisão preventiva é uma medida cautelar que pode ser revista a qualquer momento. Mendonça não está julgando o mérito do caso — está apenas dizendo que as razões que justificavam manter Samuel preso já não existem com a mesma força, porque as investigações específicas sobre ele foram concluídas.
Mas a PGR argumentou que ainda há risco de interferência na investigação. Como Mendonça pode estar tão certo de que esse risco desapareceu? Quem define quando as diligências estão "concluídas"?
É uma questão de interpretação. Mendonça viu que o caso avança para o relatório final e considerou que a tornozeleira eletrônica, as restrições de contato e a proibição de sair do país são suficientes para proteger a investigação.
E quanto aos R$ 304,9 milhões? Esse dinheiro foi recuperado?
A reportagem não menciona recuperação de valores. Sabemos que Samuel e sua irmã teriam recebido esse montante, mas não há informação sobre se foi bloqueado, devolvido ou está sendo rastreado.
O foco agora é estabelecer responsabilidades criminais. A recuperação dos valores provavelmente virá depois, se houver condenação.
Samuel pode simplesmente desaparecer dentro do Brasil?
Tecnicamente, não. Ele tem tornozeleira eletrônica, não pode sair do país e precisa entregar o passaporte. Mas a reportagem não detalha como a Polícia Federal monitora alguém em um território tão vasto.
É um risco calculado. Mendonça apostou que as medidas cautelares são suficientes para manter Samuel disponível até o julgamento.
Le Pouls
- Cerca de R$ 304,9 milhões teriam sido desviados de aposentadorias e pensões do INSS por meio de empresas criadas para disfarçar a movimentação dos recursos.
- Samuel Chrisostomo, ex-contador da Conafer, era considerado peça central do esquema e estava preso desde novembro de 2025 — sua soltura gerou tensão com a Procuradoria-Geral da República, que defendia a manutenção da prisão.
- O ministro Mendonça avaliou que as investigações específicas ligadas a Samuel já estavam encerradas e que o processo caminhava para o relatório final, tornando a prisão preventiva desproporcional ao momento processual.
- Samuel sai da prisão com tornozeleira eletrônica, proibido de sair do país, de contatar outros investigados e de frequentar entidades associativas ou instalações do INSS e da Dataprev.
- Milhões de aposentados que sofreram descontos não autorizados em seus benefícios aguardam a conclusão do processo e a eventual definição de responsabilidades e reparações.
Em um sistema construído para proteger os mais vulneráveis, o dinheiro destinado a aposentados e pensionistas do INSS foi desviado por meio de uma rede de empresas e intermediários. Samuel Chrisostomo, apontado como operador financeiro central desse esquema, deixou a prisão por decisão do ministro André Mendonça, do STF, após dez meses detido — não por inocência declarada, mas porque as diligências que justificavam sua prisão preventiva foram concluídas. A liberdade vigiada que se segue é um lembrete de que a justiça, quando funciona, caminha em etapas, e que o capítulo final ainda não foi escrito.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, ordenou na terça-feira a libertação de Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, ex-contador da Conafer preso desde novembro de 2025 no âmbito da Operação Sem Desconto. A decisão representa um ponto de inflexão em um caso que expôs desvios sistemáticos de recursos de aposentadorias e pensões do INSS.
A Polícia Federal aponta Samuel como um dos principais operadores financeiros do esquema ligado à Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais. Ele teria atuado por meio de empresas criadas para receber e dissimular valores desviados, com emissão de notas fiscais para justificar transferências e circulação de recursos entre diferentes pessoas jurídicas. Documentos indicam que Samuel e sua irmã teriam recebido aproximadamente R$ 304,9 milhões da confederação por essas estruturas. Uma empresa registrada em seu nome tinha como endereço uma igreja no Recanto das Emas, no Distrito Federal — detalhe que ilustra a engenhosidade com que o esquema foi montado.
A Procuradoria-Geral da República defendia a manutenção da prisão, alegando risco de reiteração criminosa e interferência nas investigações. Mendonça, porém, entendeu que as diligências específicas relacionadas a Samuel já haviam sido concluídas e que o processo se aproximava do relatório final, reduzindo a necessidade da prisão preventiva.
A liberdade, no entanto, vem carregada de restrições: tornozeleira eletrônica, entrega do passaporte em 24 horas, proibição de deixar o país, vedação de contato com outros investigados e testemunhas, e impedimento de frequentar entidades associativas ou instalações do INSS e da Dataprev. O próprio ministro fez questão de sublinhar que a soltura não equivale a absolvição — é uma medida processual, não um julgamento de mérito.
Enquanto Samuel segue investigado sob vigilância eletrônica, milhões de aposentados que tiveram descontos não autorizados em seus benefícios aguardam uma conclusão que estabeleça responsabilidades. A Operação Sem Desconto continua, e a libertação de Samuel marca não o fim da história, mas um capítulo intermediário de um processo que ainda tem muito a revelar.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, ordenou na terça-feira a libertação de Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, ex-contador da Conafer, que estava preso desde novembro de 2025 sob investigação na Operação Sem Desconto. A decisão marca um ponto de inflexão em um caso que envolve desvios sistemáticos de recursos de aposentadorias e pensões do INSS, movimentados através de uma rede sofisticada de empresas e intermediários.
A Polícia Federal identifica Samuel como um dos principais operadores financeiros do núcleo ligado à Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais. Segundo a investigação, ele teria atuado por meio de empresas criadas especificamente para receber, movimentar e dissimular valores desviados. O esquema incluía a emissão de notas fiscais para justificar transferências e a circulação de recursos entre diferentes pessoas jurídicas, criando uma camada de complexidade que dificultava o rastreamento do dinheiro. Documentos indicam que Samuel e sua irmã, Lucineide dos Santos Oliveira, teriam recebido aproximadamente R$ 304,9 milhões da confederação através dessas estruturas empresariais.
A função de Samuel na Conafer foi confirmada publicamente pelo presidente da entidade, Carlos Roberto Ferreira Lopes, durante depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS. Quando questionado sobre quem era Samuel, Lopes identificou-o simplesmente como o contador da organização. A investigação também estabeleceu ligações entre Samuel e a Associação dos Aposentados do Brasil, outra entidade sob escrutínio no caso, sugerindo que ele funcionava como um elo entre as duas organizações. Uma empresa registrada em seu nome tinha como endereço de sede uma igreja no Recanto das Emas, no Distrito Federal, um detalhe que ilustra a criatividade com que o esquema foi estruturado.
A Procuradoria-Geral da República havia argumentado pela manutenção da prisão preventiva, alegando que ainda existiria risco de reiteração criminosa, ocultação de vestígios e interferência na investigação. Mendonça, porém, considerou que as diligências específicas relacionadas a Samuel já haviam sido concluídas e que o processo se aproximava da elaboração do relatório final. Para o ministro, o avanço das apurações havia reduzido a necessidade de manter a prisão preventiva como medida de segurança processual.
A liberdade de Samuel não é, contudo, irrestrita. Ele usará tornozeleira eletrônica e terá de entregar seu passaporte à Polícia Federal em até 24 horas. Pode circular por todo o território nacional, mas está proibido de deixar o país. Não poderá manter contato com outros investigados e testemunhas da operação, com exceção de familiares de primeiro grau. Também lhe é vedado frequentar entidades associativas com as quais tenha mantido relação ou instalações do INSS e da Dataprev. Mendonça foi explícito ao ressaltar que a soltura não representa absolvição nem antecipa qualquer conclusão sobre a responsabilidade criminal de Samuel — é uma medida processual, não um julgamento de mérito.
O caso permanece em movimento. Samuel segue investigado, agora sob vigilância eletrônica, enquanto a investigação avança para suas fases finais. Os milhões de aposentados que tiveram descontos não autorizados em suas pensões continuam à espera de uma conclusão que estabeleça responsabilidades e, potencialmente, reparações. A Operação Sem Desconto segue seu curso, com a libertação de Samuel marcando não o fim da história, mas um capítulo intermediário em um processo que ainda tem muito a revelar.
Citations marquantes
Não significa absolver o investigado, desconsiderar os elementos já produzidos ou antecipar qualquer conclusão sobre o mérito— Ministro André Mendonça, em sua decisão