Melatonina exige cautela: riscos do uso sem orientação profissional

Usuários de melatonina apresentaram mortalidade 7,8% em cinco anos versus 4,3% no grupo de comparação, indicando possível impacto na saúde geral.
Melatonina não é vitamina. É um hormônio, e hormônios exigem respeito.
A confusão entre suplemento e hormônio natural é o cerne do problema do uso descontrolado de melatonina.
Mark

Por que a melatonina se tornou tão popular se os riscos são tão significativos?

Mimi

Porque é fácil, está em toda parte, e funciona — pelo menos no curto prazo. As pessoas estão desesperadas por dormir, e a melatonina promete uma solução sem receita, sem burocracia. Ninguém quer ouvir que precisa fazer terapia comportamental ou mudar seus hábitos. Um comprimido é mais simples.

Mark

Mas o estudo da American Heart Association não prova que a melatonina causa insuficiência cardíaca, certo?

Mimi

Correto. Não prova. Mas quando você vê que usuários têm 90% mais chance de desenvolver insuficiência cardíaca em cinco anos, você não pode simplesmente ignorar isso. Pode haver outras explicações, mas a associação existe e é forte. Isso deveria fazer as pessoas pensarem duas vezes.

Mark

Então qual é a dose segura?

Mimi

A Anvisa diz que é 0,21 mg por dia. Mas muitos suplementos vendidos no Brasil contêm doses muito maiores. E mesmo dentro do limite, ninguém sabe realmente qual é a dose segura para uso prolongado. Esse é o ponto — a segurança do uso a longo prazo ainda está sendo estudada.

Mark

E se alguém realmente não conseguir dormir sem ajuda?

Mimi

Então é hora de procurar um profissional. Pode ser que a insônia seja sintoma de ansiedade, depressão ou outro problema que precisa ser tratado de verdade. A terapia cognitivo-comportamental funciona melhor que melatonina para insônia crônica, e os benefícios duram mais tempo.

Mark

Qual é o risco real para a maioria das pessoas?

Mimi

Provavelmente menor do que os números sugerem. Mas o ponto é que ninguém sabe ao certo. Você pode tomar melatonina por anos e não ter problema nenhum. Ou pode ser uma das pessoas que desenvolve insuficiência cardíaca. A questão é: vale a pena correr esse risco quando existem alternativas mais seguras?

  • Pesquisa de 2025 associa uso prolongado de melatonina a 90% mais chance de insuficiência cardíaca em cinco anos
  • Mortalidade de 7,8% entre usuários de melatonina versus 4,3% no grupo de comparação em cinco anos
  • Anvisa autoriza limite máximo de 0,21 mg de melatonina por dia em suplementos para adultos
  • Efeitos adversos incluem sonolência diurna, tontura, dor de cabeça e náusea

Pesquisa de 2025 vincula melatonina a 90% mais chance de insuficiência cardíaca em cinco anos entre usuários. Melatonina é hormônio, não vitamina simples, e pode interagir com medicamentos e causar efeitos como tontura e dor de cabeça.

Estudo associa uso prolongado de melatonina a maior risco de insuficiência cardíaca e mortalidade. Anvisa autoriza suplemento, mas alerta sobre efeitos adversos e necessidade de acompanhamento profissional.

A melatonina está em toda parte — nas prateleiras das farmácias, nos sites de suplementos, nas mãos de quem passa noites acordado esperando o sono chegar. É vendida como solução simples, praticamente inofensiva, uma alternativa natural aos medicamentos pesados. Mas há um problema fundamental nessa narrativa: melatonina não é vitamina. É um hormônio, produzido naturalmente pela glândula pineal durante a noite, responsável por sincronizar o ritmo circadiano e sinalizar ao corpo que o repouso se aproxima. Quando você a compra em um frasco, está comprando um hormônio — e hormônios exigem respeito.

No Brasil, a Anvisa autorizou a melatonina como suplemento alimentar em 2021, destinado a adultos com 19 anos ou mais, sem necessidade de receita médica. A decisão abriu as portas para o consumo em massa, facilitado pela ausência de barreiras burocráticas. Mas essa mesma facilidade de acesso criou um problema: pessoas passaram a usar melatonina sem orientação profissional, tratando-a como se fosse uma simples vitamina. O limite máximo estabelecido pela agência é de 0,21 mg por dia, mas muitos suplementos disponíveis no mercado contêm doses bem maiores, e o consumidor raramente sabe disso.

Em 2025, a American Heart Association apresentou uma pesquisa que deveria ter acendido um sinal de alerta. Analisando dados de mais de 130 mil adultos com insônia, os pesquisadores descobriram que o uso de melatonina por pelo menos um ano estava associado a uma chance cerca de 90% maior de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo de cinco anos. Os usuários também apresentavam probabilidade aproximadamente 3,5 vezes maior de precisar ser hospitalizados por essa condição. Os números são preliminares e não comprovam relação de causa e efeito — os pesquisadores foram cuidadosos em deixar isso claro — mas são números que não podem ser ignorados.

Há mais. A mortalidade por qualquer causa foi de 7,8% entre os usuários de melatonina durante o período de cinco anos, comparada a 4,3% no grupo que não usava. Isso corresponde a uma probabilidade quase duas vezes maior de morte. Novamente, os pesquisadores ressaltam que a associação não prova que a melatonina tenha causado essas mortes — pode haver fatores confundidores, características dos usuários que explicariam melhor o resultado. Mas quando você vê esses números, fica difícil não se perguntar se vale a pena.

Mesmo em curto prazo, a melatonina pode provocar efeitos adversos desagradáveis: sonolência diurna, tontura, dor de cabeça, náusea. Confusão ou desorientação também podem ocorrer, embora sejam menos frequentes. E há ainda a questão das interações com medicamentos — a melatonina não funciona sozinha no corpo, ela interage com outros compostos, e nem sempre de forma previsível. A segurança do uso prolongado ainda está sendo estudada, o que significa que muitas pessoas estão sendo cobaias involuntárias de um experimento em andamento.

O paradoxo é que a insônia é real, e o sofrimento de quem não consegue dormir é real. Mas nem toda dificuldade para dormir é um problema que a melatonina resolve. Muitas vezes, a insônia é sintoma de algo mais profundo: ansiedade, depressão, dor crônica, outros distúrbios do sono. Tratar apenas o sintoma, sem investigar a causa, é como colocar um adesivo em um vazamento. A melatonina tem indicações mais bem estabelecidas em alguns distúrbios específicos do ritmo circadiano, incluindo certos casos envolvendo pessoas cegas sem percepção de luz. Para a insônia crônica em adultos, as evidências sobre sua eficácia são mais limitadas e variam conforme o perfil do paciente.

Existem alternativas. A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida como TCC-I, é considerada tratamento de primeira linha para a insônia crônica. Ela funciona modificando os pensamentos e comportamentos que dificultam o sono, usando técnicas como controle de estímulos e restrição do tempo na cama. Os benefícios podem se manter após o tratamento, reduzindo a necessidade de depender de substâncias. Mudanças simples nos hábitos também ajudam: manter horários regulares, reduzir a exposição à luz intensa e às telas antes de dormir, preparar um ambiente escuro e silencioso. Atividade física regular contribui para a qualidade do sono, assim como evitar refeições pesadas perto da hora de dormir e usar técnicas de relaxamento para acalmar a mente.

O que fica claro é que a melatonina não é a solução mágica que a publicidade sugere. É um hormônio que merece cautela, acompanhamento profissional e uma compreensão clara de por que você está tomando. Se você está usando melatonina sem orientação de um médico, é hora de conversar com um. Se está considerando começar, saiba que existem caminhos mais seguros para recuperar o sono.

Os dados são preliminares e não comprovam relação de causa e efeito entre melatonina e insuficiência cardíaca
— Pesquisadores da American Heart Association
A terapia cognitivo-comportamental é considerada tratamento de primeira linha para insônia crônica
— Orientação profissional em saúde
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