Megacomplexo de luxo em Florianópolis paralisa obras e deixa 800 processos na Justiça

Centenas de investidores de todo o Brasil sofreram prejuízos financeiros significativos, com perdas individuais chegando a R$ 200 mil, impactando suas economias pessoais e confiança em investimentos imobiliários.
Todos os bens foram removidos e é um prejuízo enorme para todo mundo
Investidor que comprou cotas do empreendimento relata a frustração ao descobrir a paralisação das obras.
Mark

Como é que um projeto desse tamanho, em um lugar tão valorizado, consegue parar completamente?

Mimi

A paralisação não foi de um dia para o outro. Começou com problemas financeiros pós-pandemia, um fundo investidor de São Paulo que não conseguiu manter o aporte. Mas o que realmente travou tudo foi a avalanche de ações judiciais — quando os investidores perceberam que não havia entrega, começaram a processar, e isso complicou qualquer tentativa de reestruturação rápida.

Mark

Os compradores acreditavam que estavam fazendo um investimento seguro?

Mimi

Completamente. Era uma cidade turística, um local bonito, frente para o mar. A promessa era clara: hotel de luxo, shopping, estacionamento. Tudo muito bem apresentado. Ninguém imagina que um projeto desse porte vai simplesmente parar e virar um esqueleto de concreto.

Mark

Qual é a situação agora? A construtora tem plano de retomar?

Mimi

Sim, mas é um plano que depende de um novo investidor entrar. Eles querem transformar tudo em uma Sociedade de Propósito Específico, encerrar o modelo de cooperativa. Dizem que 99% já está negociado, mas isso ainda precisa de aprovação em assembleia.

Mark

E os investidores que já perderam dinheiro? Eles vão ser ressarcidos?

Mimi

A empresa promete que sim — que todos que compraram cotas vão ser ressarcidos ou poderão continuar no empreendimento sob a nova estrutura. Mas isso é promessa. A realidade é que há quase 800 processos judiciais em andamento e o Ministério Público investigando. Os investidores estão se organizando independentemente para buscar reparações.

Mark

Qual é o maior prejuízo que alguém sofreu?

Mimi

Uma professora de São Paulo perdeu quase R$ 200 mil. Comprou cinco cotas em 2020, pagou tudo, e quando o canteiro parou, percebeu que tinha investido em um vazio. Os prejuízos variam bastante — alguns perderam R$ 10 mil, outros muito mais. Mas todos têm a mesma sensação: foram enganados.

  • Projeto prometia hotel com 350+ quartos, shopping com 100 lojas e 400 vagas de estacionamento na Praia dos Ingleses
  • Obras paralisadas desde junho de 2023, com prazo original de entrega em outubro de 2022
  • Quase 800 processos judiciais contra JC Compra e Venda de Imóveis e sua parceira
  • Prejuízos individuais variam entre R$ 10 mil e R$ 200 mil por investidor
  • Ministério Público de Santa Catarina abriu notícia de fato para investigar o atraso

Projeto prometia hotel com 350 quartos, shopping com 100 lojas e 400 vagas de estacionamento, mas obras estão abandonadas desde junho de 2023. Construtora alega problemas financeiros pós-pandemia e dificuldades com fundo investidor, enquanto Ministério Público investiga o atraso contratual.

Empreendimento de luxo na Praia dos Ingleses em Florianópolis está paralisado desde 2023 com quase 800 processos judiciais. Investidores de todo o Brasil acumulam prejuízos entre R$ 10 mil e R$ 200 mil cada.

Na Praia dos Ingleses, uma das regiões mais valorizadas de Florianópolis, existe hoje apenas um esqueleto de concreto. O que deveria ser um megacomplexo de luxo — hotel com mais de 350 quartos, shopping com 100 lojas, 400 vagas de estacionamento — virou um canteiro abandonado. As obras pararam em junho de 2023, e desde então nada se mexe. Quase 800 processos judiciais tramitam contra os responsáveis. Centenas de investidores de todo o Brasil estão tentando entender como um projeto apresentado com tanta ostentação desabou.

O empreendimento foi vendido em dois modelos. Alguns compradores entraram como cooperados, outros adquiriram cotas de multipropriedade — o direito de usar o imóvel em períodos específicos do ano, sem ser dono de fato. A promessa era simples: um investimento seguro em uma cidade turística, com retorno garantido. O contrato original previa entrega em outubro de 2022, com margem de tolerância de até 180 dias. Quando junho de 2023 chegou e nada havia sido concluído, o alvará de construção já estava vencido junto à prefeitura.

Flávio Marcelino e sua esposa compraram duas cotas em 2022 por pouco mais de R$ 10 mil. Pagaram, esperaram, e quando perceberam que o canteiro havia parado, suspenderam os pagamentos. "Eles falavam que ia ter um retorno maior ainda, uma valorização depois do alargamento da praia", lembra. "Não tinha mais ninguém trabalhando. Entramos com uma ação para tentar reverter isso, mas até agora sem resposta. Todos os bens foram removidos e é um prejuízo enorme para todo mundo." Janaína de Sousa Alves, professora de São Paulo, perdeu quase R$ 200 mil — o maior prejuízo individual documentado. Ela havia comprado cinco cotas em 2020, atraída pela localização e pela reputação da cidade. "Florianópolis é muito atrativa. A gente nunca pensou que era uma coisa que não ia dar certo."

Os prejuízos variam entre R$ 10 mil e R$ 200 mil por investidor. Alguns vieram de São Paulo, outros do Rio Grande do Sul, muitos eram moradores locais. Todos acreditavam estar fazendo um investimento sólido. Dezenas de reclamações foram registradas em plataformas de consumidor, e pelo menos 11 processos foram abertos no Procon de Florianópolis. A JC Compra e Venda de Imóveis Ltda e sua parceira, a JC Compra e Venda de Imóveis SCP Centrinho dos Ingleses, figuram como rés na maioria das quase 800 ações.

O Ministério Público de Santa Catarina abriu uma notícia de fato para investigar o atraso contratual. Júlio De David, sócio-proprietário da construtora, alega que o projeto foi vítima de problemas financeiros após a pandemia, desaquecimento nas vendas e dificuldades de um fundo de investimentos de São Paulo que aportava recursos. Segundo ele, a enxurrada de ações judiciais travou as tentativas de reestruturação rápida. A empresa agora negocia a entrada de um novo grupo investidor e promete transformar o empreendimento em uma Sociedade de Propósito Específico sob nova gestão. Afirma que 99% da negociação já está alinhada, pendente apenas de aprovação em assembleia.

A construtora diz que todos os que adquiriram cotas ou direitos de uso fazem parte do pacote de negociações e serão ressarcidos ou poderão optar por continuar no empreendimento sob a nova estrutura. Alguns distratos e pagamentos já vêm sendo realizados individualmente, segundo a empresa. Para quem busca esclarecimentos ou ressarcimento, o canal oficial é o email centrinho@jccompraevenda.com. Paralelamente, grupos de compradores lesados se organizaram de forma independente nas redes sociais e na Justiça para buscar reparações. O que era para ser um símbolo de prosperidade em uma das praias mais procuradas do Brasil agora é um símbolo de desconfiança — um aviso de que nem todo investimento imobiliário em cidade turística é tão seguro quanto parece.

Eles falaram que ia ter um retorno maior ainda, uma valorização depois do alargamento da praia. Não tinha mais ninguém trabalhando. Entramos com uma ação para tentar reverter isso, mas até agora sem resposta.
— Flávio Marcelino, investidor que comprou duas cotas em 2022
Florianópolis é uma cidade muito atrativa. A gente nunca pensou que era uma coisa que não ia dar certo. Até por ser uma cidade turística, atrativa e o local bonito, acabamos acreditando.
— Janaína de Sousa Alves, professora de São Paulo que perdeu R$ 200 mil
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