Megacentro de dados do Google na Índia promete receitas, mas gera temores ambientais

Agricultores locais foram desapropriados de terras com compensações inadequadas; comunidades enfrentam risco de agravamento da escassez de água que já afeta a região.
Os dados não se bebem
Cartaz de protesto em Visakhapatnam resume a preocupação central dos moradores sobre o centro de dados do Google.
Mark

Por que exatamente a água é a preocupação central aqui? Não é apenas sobre consumo direto de refrigeração?

Mimi

Não. Vizag já enfrenta escassez crônica. Mesmo que o Google use refrigeração a ar, há consumo indireto — operações, limpeza, necessidades dos trabalhadores. E uma das áreas fica perto de um aquífero importante.

Luke

Mas o Google prometeu compensar 120% da água usada até 2030. Isso não é verificável?

Mimi

Tecnicamente sim, mas "água usada em operações" é uma categoria vaga. E compensação não é a mesma coisa que preservação local. Você pode compensar em outro lugar e deixar o aquífero seco.

Mark

E os empregos? 4.200 postos durante a construção parece significativo.

Mimi

Durante a construção. Depois, quando o centro estiver operando, quantos empregos permanecem? O Google não detalhou isso.

Luke

Exatamente. A promessa de emprego é de curto prazo. Os impactos ambientais são de longo prazo. Não há simetria.

Mark

Os agricultores foram compensados de forma justa?

Mimi

Chandala Sadamma vendeu 0,8 hectare por US$ 82 mil. Sem saber para quem. Sem negociação real.

Luke

Mas como você avalia se foi justo? Qual era o preço de mercado para terra agrícola em Tarluvada naquele momento?

Mimi

Boa pergunta. A reportagem não diz. O que sabemos é que ela chora ao olhar para a terra agora.

Mark

E as promessas de energia limpa do Google — são concretas?

Luke

Não. "Investirá em novos projetos de energia limpa" é vago. Quanto? Onde? Quando? Nada disso está especificado.

Mimi

É a linguagem corporativa padrão. Sons reconfortantes, mas sem compromissos mensuráveis.

  • Investimento de US$ 15 bilhões em centro de dados com capacidade de um gigawatt
  • Promessa de 4.200 empregos na construção e impacto de US$ 688 milhões anuais
  • Operação prevista para 2028 em Visakhapatnam, Índia
  • Região já enfrenta escassez crônica de água; uma área fica próxima a aquífero importante
  • Agricultora vendeu 0,8 hectare por US$ 82 mil sem saber do destino da terra

O projeto promete 4.200 empregos e impacto de US$ 688 milhões anuais na economia local, com operação prevista para 2028. Moradores enfrentam escassez de água crônica e temem que o centro de dados agrave a situação, apesar de promessas do Google sobre refrigeração a ar.

O Google planeja instalar seu maior centro de dados fora dos EUA em Visakhapatnam, Índia, com investimento de US$ 15 bilhões, mas moradores e ambientalistas temem impactos sobre recursos hídricos e meio ambiente.

Em Visakhapatnam, no sudeste da Índia, cartazes de protesto cobrem as ruas. Um deles traz a frase simples: "Os dados não se bebem". Em outro, o logotipo do Google aparece algemado. A mensagem é clara — a cidade está dividida sobre o futuro que a gigante americana de tecnologia quer construir ali.

O Google escolheu Visakhapatnam, também conhecida como Vizag, para abrigar seu maior centro de dados fora dos Estados Unidos. O projeto representa um investimento de cerca de US$ 15 bilhões e terá capacidade energética de um gigawatt, destinado a alimentar seus sistemas de inteligência artificial. A localização não é acidental. Vizag é o ponto de entrada na Índia dos cabos submarinos de internet que conectam o país a Cingapura, tornando-a estratégica para operações de dados em larga escala. O terreno escolhido ocupa uma área equivalente a mais de 340 campos de futebol.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, recebeu o anúncio com entusiasmo, vendo nele uma oportunidade de inserir plenamente o país na corrida global pela inteligência artificial. O Google promete 4.200 empregos durante a fase de construção e um impacto econômico anual de US$ 688 milhões na região. A previsão é que a instalação comece a operar em 2028. Mas essa narrativa de progresso não encontra o mesmo apoio entre os moradores.

A preocupação central gira em torno da água. Vizag já enfrenta escassez crônica, e o centro de dados — mesmo com promessas de refrigeração avançada por ar — levanta questões sobre consumo futuro de recursos hídricos. Uma das três áreas escolhidas pelo Google fica ao lado de uma reserva natural. Outra está próxima de um importante aquífero. Ambientalistas e moradores levaram o caso à Justiça, pedindo uma suspensão na construção até que avaliações independentes de impactos sociais e ambientais sejam realizadas. Gutta Rohith, do Fórum de Direitos Humanos, questiona a própria escolha: "Os Estados Unidos têm uma costa imensa. Poderiam ter instalado o centro lá. Por que vêm para cá?"

O impacto humano é tangível. Em Tarluvada, Chandala Sadamma, uma agricultora de 50 anos, vendeu seu terreno de 0,8 hectare — onde cultivava mangas e castanhas de caju — por pouco mais de US$ 82 mil, sem saber que seria destinado ao Google. Hoje, observando as escavadeiras no local, ela diz: "Quando olho para esta terra, dá vontade de chorar". Gubbala Ramanamma, comerciante de 57 anos, aponta para um poço seco enquanto fala sobre a escassez de água que já afeta sua comunidade. E.A.S. Sarma, ex-funcionário público, invoca a história: "Civilizações inteiras desapareceram por causa da escassez de água".

O Google, por sua vez, oferece garantias. Alexander Smith, chefe de Infraestrutura e Energia do Google para a região Ásia-Pacífico, declarou que o investimento representa um "compromisso para várias décadas" e que a empresa se comportará como uma "boa vizinha". A empresa promete não utilizar água para resfriar seus sistemas, recorrendo a um mecanismo avançado de refrigeração a ar. Para a água consumida em outras operações, o Google se compromete a compensar 120% do volume utilizado até 2030. A empresa também investirá em novos projetos de energia limpa.

Mas as promessas não dissipam a ansiedade. O Google não é o único a ver potencial em Vizag. O grupo americano Digital Realty, em parceria com o conglomerado indiano Reliance Industries e a Brookfield, está investindo US$ 11 bilhões em outro centro de dados na mesma região, destinado ao treinamento de modelos de inteligência artificial. A enxurrada de investimentos tecnológicos sobre uma região já vulnerável a crises hídricas coloca em questão se as promessas corporativas serão suficientes para proteger os recursos e as comunidades que dependem deles.

Os Estados Unidos têm uma costa imensa. Poderiam ter instalado o centro lá. Por que vêm para cá?
— Gutta Rohith, Fórum de Direitos Humanos
Quando olho para esta terra, dá vontade de chorar
— Chandala Sadamma, agricultora desapropriada
Civilizações inteiras desapareceram por causa da escassez de água
— E.A.S. Sarma, ex-funcionário público
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