Médicos prescrevem fisioterapia em casa com IA em nove ULS

O centro clínico vai ao utente, não o utente ao centro
A filosofia por trás da prescrição de tablets com IA para fisioterapia domiciliar, segundo o fundador da Sword Health.

Numa época em que as listas de espera se tornaram sinónimo de sofrimento adiado, nove Unidades Locais de Saúde portuguesas começam a prescrever tablets com inteligência artificial para reabilitação musculoesquelética em casa, invertendo a lógica de que é sempre o doente quem se desloca ao sistema. A iniciativa, desenvolvida pela empresa portuguesa Sword Health, reduz tempos de espera de dois anos para dez dias em casos documentados, e levanta uma questão mais profunda: até onde pode a tecnologia compensar as fragilidades estruturais de um sistema de saúde público?

  • As listas de espera para fisioterapia no SNS chegavam a dois anos em algumas regiões — um peso invisível que impedia pessoas de retomarem as suas vidas.
  • A ULS Cova da Beira, pioneira na adoção do sistema, reduziu o tempo de espera para dez dias, demonstrando que a mudança é possível e mensurável.
  • Nove unidades de saúde assinaram protocolos para começar a prescrever os dispositivos a partir desta semana, numa expansão que poderá abranger todo o país.
  • A ministra da Saúde reconhece o potencial da IA para a acessibilidade, mas avisa que não é panaceia — e uma falha de energia recente nos sistemas do SNS lembrou que a infraestrutura tecnológica subjacente ainda é frágil.
  • O novo centro de dados nacional, prometido para 2023 e ainda inativo, permanece um símbolo das tensões entre a ambição digital do SNS e a realidade da sua execução.

A partir desta semana, nove Unidades Locais de Saúde em Portugal passam a prescrever tablets desenvolvidos pela empresa portuguesa Sword Health — dispositivos que funcionam como fisioterapeutas portáteis, guiando utentes através de exercícios de reabilitação musculoesquelética em casa, com orientação de inteligência artificial em tempo real e suporte clínico remoto disponível sempre que necessário.

A cerimónia de assinatura dos protocolos decorreu no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde Vírgílio Bento, fundador da Sword Health, explicou o modelo: o tablet chega ao domicílio por prescrição médica, monitoriza os movimentos do utilizador e corrige a execução dos exercícios. A tecnologia não substitui o julgamento clínico — complementa-o, reservando a presença física do médico para os casos que realmente a exigem.

Os resultados da ULS Cova da Beira, que implementou o sistema no ano passado, são os mais citados: o tempo médio de espera para iniciar fisioterapia caiu de dois anos para dez dias. Uma das pacientes que continua a usar o dispositivo contou ter retomado todas as suas rotinas diárias, e destacou a simplicidade da interface como fator decisivo. Bento projeta que, em escala nacional, a tecnologia poderia reduzir em 97% as listas de espera do SNS nesta área, com uma poupança de 45% nos custos.

A parceria tornou-se legalmente possível após um decreto de fevereiro que regulamenta convenções para telerreabilitação com dispositivos médicos certificados. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, presente no evento, reconheceu o contributo da IA para a acessibilidade, mas sublinhou que não resolverá todos os problemas do sistema.

O evento também expôs vulnerabilidades mais antigas. O ministro Adjunto e da Reforma do Estado foi questionado sobre o atraso no novo centro de dados nacional — previsto para 2023, ainda inativo. Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde anunciaram que a infraestrutura, baseada em Évora, deverá estar operacional até ao final do ano, em redundância com o polo do Porto. A urgência é real: uma falha de energia na sexta-feira anterior já tinha perturbado os sistemas de informação do SNS. A fisioterapia com IA representa um avanço concreto — mas a modernização do SNS continua a ser construída sobre alicerces ainda em consolidação.

Começando na próxima segunda-feira, nove Unidades Locais de Saúde espalhadas pelo país vão colocar tablets nas mãos dos seus utentes — não para entretenimento, mas como ferramenta de reabilitação. Estes dispositivos, desenvolvidos pela empresa portuguesa Sword Health, funcionam como um fisioterapeuta portátil, guiando pessoas através de exercícios de recuperação musculoesquelética enquanto ficam em casa. A ideia é simples mas radical: em vez de o doente se deslocar ao centro de saúde, é o centro de saúde que vai até ele.

Vírgílio Bento, presidente e fundador da Sword Health, apresentou o modelo durante uma cerimónia de assinatura de protocolos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. O tablet funciona através de inteligência artificial que monitora os movimentos do utilizador e oferece orientações em tempo real sobre como executar corretamente os exercícios de reabilitação. Se algo correr mal ou se o utente tiver dúvidas, uma equipa clínica está disponível para intervir remotamente. O dispositivo chega ao domicílio mediante prescrição médica, e Bento sublinhou que certas questões continuam a exigir atendimento presencial dos médicos — a tecnologia não substitui o julgamento clínico, apenas o complementa.

As nove unidades de saúde envolvidas nesta primeira fase são a ULS Santa Maria, ULS Algarve, ULS Alto Ave, ULS Baixo Mondego, ULS Cova da Beira, ULS Matosinhos, ULS São João, ULS Almada Seixal e ULS São José. A ULS Cova da Beira foi pioneira, implementando o sistema no ano passado, e os números que apresenta são impressionantes. João Marques Gomes, presidente do conselho de administração dessa unidade, revelou que o tempo médio de espera para começar fisioterapia caiu de dois anos para dez dias após a referenciação hospitalar. O número de utentes em lista de espera para estas condições foi reduzido significativamente.

Bento estima que, em escala nacional, esta tecnologia poderia reduzir as listas de espera para consultas de fisioterapia no Serviço Nacional de Saúde em 97%, com uma poupança de custos de 45%. Estes números são ambiciosos, mas baseiam-se na experiência piloto já em curso. Maria Teresa, uma das pacientes que continua a usar o dispositivo, testemunhou que conseguiu retomar todas as suas rotinas diárias. Desde o primeiro contacto com o tablet, ficou impressionada com a simplicidade da interface — um detalhe importante quando se trata de tecnologia destinada a pessoas em recuperação.

A parceria entre o SNS e a Sword Health tornou-se possível após um decreto que entrou em vigor em fevereiro, regulamentando convenções nacionais para prestação de cuidados de medicina física e reabilitação através de telerreabilitação com dispositivos médicos certificados. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, presente no evento, reconheceu que a inteligência artificial não será a solução para todos os problemas do sistema de saúde, mas afirmou que contribuirá para uma maior acessibilidade aos cuidados. O modelo pode expandir-se a outras unidades de saúde se estas solicitarem a tecnologia.

O evento também trouxe à tona questões mais amplas sobre a infraestrutura tecnológica do SNS. O ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, foi questionado sobre o atraso no novo centro de dados nacional, originalmente previsto para entrar em funcionamento em 2023 e ainda inativo. Matias respondeu que o projeto enfrenta desafios tecnológicos relevantes. Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde anunciaram que o novo centro de dados, baseado em Évora, deverá estar operacional até ao final do ano, funcionando em redundância em tempo real com a infraestrutura atual no Porto. Esta redundância é crítica — uma falha de energia na passada sexta-feira já tinha causado perturbações nos sistemas de informação do SNS, com alguns constrangimentos a prolongarem-se nos dias seguintes. A implementação da fisioterapia com IA representa um passo concreto na modernização do SNS, mas a solidez da infraestrutura tecnológica subjacente continua a ser um trabalho em progresso.

A inteligência artificial não será a solução para todos os problemas, mas vai contribuir para uma maior acessibilidade a cuidados de saúde no país
— Ana Paula Martins, ministra da Saúde
Desde o primeiro dia de contacto com o tablet, a simplicidade do dispositivo é extraordinária
— Maria Teresa, paciente que utiliza o dispositivo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que um tablet consegue fazer o trabalho de um fisioterapeuta?

Model

Não faz exatamente o mesmo trabalho. O tablet guia o exercício e monitora se está a ser feito corretamente, mas há sempre uma equipa clínica por trás, pronta a intervir. É mais como ter um instrutor disponível 24 horas que sabe exatamente o que você deveria estar a fazer.

Inventor

E as pessoas realmente confiam numa máquina para lhes dizer como se mexer?

Model

A paciente que testou disse que a simplicidade do dispositivo foi extraordinária. Quando as pessoas veem que funciona — quando conseguem fazer exercícios em casa sem esperar dois anos — a confiança vem naturalmente.

Inventor

Dois anos para dez dias é uma mudança enorme. Como é que isso é possível?

Model

Porque o sistema remove o gargalo. Não precisa de agendar consultas, não precisa de ir ao centro. O tablet chega a casa, começa imediatamente, e a equipa clínica só intervém se houver um problema real.

Inventor

Mas isto não torna os fisioterapeutas dispensáveis?

Model

Não. Muda o que fazem. Em vez de repetirem o mesmo exercício centenas de vezes, podem focar-se nos casos complexos, nas decisões clínicas que realmente precisam de um humano.

Inventor

A ministra disse que a IA não resolve tudo. O que é que ainda falta?

Model

Muita coisa. Este é um passo numa área específica. O SNS tem problemas muito maiores — infraestrutura, recursos, acesso a especialidades. Uma boa solução para um problema não é uma solução para todos.

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