Só conseguem ter bom desempenho se estiverem medicados
Em menos de uma década, o Brasil passou de 3,2 milhões para quase 75 milhões de caixas de tadalafila vendidas por ano — um salto que não se explica pela epidemia de disfunção erétil, mas pelo desejo de jovens saudáveis de dominar o próprio desempenho. O medicamento, batizado carinhosamente de 'tadala', migrou da clínica para a academia e para a vida noturna sem que a ciência tenha confirmado qualquer benefício para quem não precisa dele. O que os médicos observam, em vez disso, é uma geração aprendendo a desconfiar do próprio corpo sem a mediação de uma pílula — e os riscos dessa crença podem ser mais duradouros do que qualquer efeito adverso físico.
- As vendas de tadalafila cresceram mais de 2.300% em dez anos no Brasil, impulsionadas não por diagnósticos médicos, mas pelo consumo recreativo entre homens jovens.
- Sem prescrição obrigatória efetiva, as farmácias funcionam como porta de entrada livre para uma substância que pode causar priapismo, colapso de pressão arterial e alterações sensoriais permanentes.
- A combinação com álcool, energéticos, anabolizantes e drogas recreativas transforma efeitos adversos raros em riscos concretos para quem usa a substância em contextos de festa ou academia.
- Urologistas alertam que o perigo mais silencioso é psicológico: homens jovens passam a acreditar que só funcionam bem com a droga, criando uma dependência mental que se autossustenta.
- Especialistas cobram regulação mais rigorosa da Anvisa, mas enquanto o debate avança, a curva de vendas continua subindo e o fenômeno se consolida como tendência cultural.
A tadalafila deixou de ser um medicamento de nicho para disfunção erétil e se tornou um item de consumo cotidiano entre homens jovens brasileiros. Conhecida como 'tadala', a substância é buscada por quem quer ampliar o desempenho sexual ou, nas academias, potencializar o ganho muscular — usos para os quais não existe nenhuma evidência científica de benefício.
Os números traduzem a escala do fenômeno: de 3,2 milhões de caixas vendidas em 2015, o Brasil chegou a 74,9 milhões em 2025. A Anvisa não separa os dados por faixa etária, mas especialistas são unânimes em apontar os jovens saudáveis como motor desse crescimento, favorecidos pela compra livre nas farmácias.
Gustavo Marquesine Paul, da Sociedade Brasileira de Urologia, destaca que o risco mais insidioso não é químico, mas mental. Homens que usam a droga recreativamente passam a acreditar que dependem dela para ter bom desempenho — uma convicção que se torna autossustentável mesmo sem qualquer base fisiológica.
Os efeitos adversos comuns são toleráveis, mas o quadro muda quando a tadalafila é misturada com álcool, estimulantes, anabolizantes ou drogas recreativas. Nessas combinações, surgem riscos sérios: priapismo, quedas bruscas de pressão e alterações visuais e auditivas que podem deixar sequelas permanentes.
Médicos pedem controle regulatório mais rigoroso, frustrados pela contradição central do fenômeno: jovens se expõem a riscos reais em troca de um benefício que a ciência simplesmente não confirma. Por ora, a droga segue acessível, e a tendência não dá sinais de desaceleração.
A tadalafila virou moda entre homens jovens no Brasil, e médicos estão cada vez mais preocupados. O medicamento, conhecido informalmente como "tadala", é procurado por quem quer melhorar o desempenho sexual sem receita médica — e também aparece em academias, onde alguns acreditam que potencializa o ganho muscular após o treino. O problema é que a substância tem indicações médicas bem específicas: disfunção erétil, sintomas urinários ligados ao aumento benigno da próstata e hipertensão arterial pulmonar. Fora desses casos, seu uso é recreativo e crescentemente perigoso.
Os números revelam a dimensão do fenômeno. Em 2015, o Brasil vendeu 3,2 milhões de caixas de tadalafila. Uma década depois, em 2025, esse número saltou para 74,9 milhões — um crescimento de mais de 2.300%. O ano anterior tinha registrado 64,7 milhões de caixas, mostrando que a aceleração é recente e contínua. A Anvisa não desagrega os dados por faixa etária, mas especialistas confirmam que o aumento está concentrado em homens jovens que compram livremente nas farmácias, sem qualquer intermediação médica.
Gustavo Marquesine Paul, da Sociedade Brasileira de Urologia, aponta um risco que vai além dos efeitos físicos: a dependência psicológica. Embora a tadalafila não cause dependência química no sentido farmacológico, ela pode criar uma dependência mental forte. Homens que usam a droga recreativamente começam a acreditar que só conseguem ter um bom desempenho sexual se estiverem medicados — uma crença que se torna autossustentável e prejudicial.
Os efeitos adversos mais comuns são relativamente leves: dor de cabeça, dores musculares, congestão nasal, vermelhidão no rosto, azia e queimação no estômago. Mas existem riscos muito mais sérios, especialmente quando o usuário combina tadalafila com outras substâncias. Álcool, energéticos, estimulantes, anabolizantes, drogas recreativas e suplementos de procedência desconhecida podem desencadear priapismo (ereção prolongada e dolorosa), alterações visuais e auditivas, e quedas perigosas de pressão arterial. Esses efeitos raros podem deixar sequelas permanentes.
O que torna a situação particularmente frustrante para os médicos é a ausência total de benefício comprovado. Não há evidências científicas de que a tadalafila melhore o desempenho sexual ou físico em homens saudáveis. Quem a usa recreativamente está se expondo a riscos reais em troca de um ganho que não existe — ou que existe apenas na percepção, alimentada pela dependência psicológica. A facilidade de compra nas farmácias, sem prescrição, amplifica o problema. Especialistas pedem maior controle regulatório, mas por enquanto a droga segue sendo vendida livremente, alimentando uma tendência que cresce a cada ano.
Notable Quotes
A tadalafila não causa dependência química, mas pode favorecer uma dependência psicológica. Esses homens passam a acreditar que só conseguirão ter um bom desempenho sexual se estiverem usando o medicamento.— Gustavo Marquesine Paul, Sociedade Brasileira de Urologia
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a tadalafila ganhou tanta popularidade entre homens jovens se não oferece benefício real?
Porque a percepção é mais poderosa que a realidade. Um homem toma a droga, tem uma experiência sexual, e seu cérebro associa o medicamento ao sucesso — mesmo que ele tivesse tido sucesso sem ele. Depois fica com medo de tentar sem a droga.
E a questão da dependência psicológica — como ela funciona exatamente?
Não é como cocaína ou álcool, onde o corpo grita por mais. É mais sutil. O homem internaliza a ideia de que precisa da droga para funcionar. Isso cria uma barreira mental que é muito difícil de quebrar.
As vendas cresceram 2.300% em dez anos. Isso é uma epidemia?
É um crescimento explosivo, sim. Mas o termo epidemia sugere doença. O que temos é um comportamento de risco que virou normalizado. Farmácias vendem como se fosse vitamina.
Qual é o pior cenário que um médico vê?
Um jovem que combina tadalafila com álcool e cocaína em uma festa. A pressão cai drasticamente, ele pode ter um infarto. Ou priapismo — ereção que não passa, que danifica o tecido peniano permanentemente.
Por que a Anvisa não controla melhor a venda?
Porque tecnicamente a tadalafila é um medicamento legítimo com indicações reais. Controlar a venda é mais complexo que simplesmente proibir. Mas a realidade é que a facilidade de compra alimenta o uso recreativo.
E se um jovem parar de usar — consegue recuperar a confiança no próprio desempenho?
Consegue, mas leva tempo e muitas vezes precisa de ajuda profissional. A dependência psicológica é tão real quanto qualquer outra.