Mulheres são diagnosticadas em média 4 anos mais tarde que homens em centenas de condições de saúde, conforme estudo dinamarquês com 6,9 milhões de pessoas. Durante décadas, homens foram usados como referência em pesquisas porque ciclo menstrual e oscilações hormonais eram vistos como fatores que aumentavam variabilidade dos resultados.
Medicina ainda conhece menos o corpo feminino, aponta pesquisadora
O corpo feminino não é apenas um corpo masculino com diferenças
Por que levou tanto tempo para a medicina reconhecer que mulheres precisam ser estudadas como mulheres, e não como homens com variações?
Porque na época em que a pesquisa clínica moderna se estruturou, havia uma lógica econômica e prática: homens eram mais simples de estudar. Sem ciclo menstrual, sem gravidez, sem as complicações que isso trazia. Ninguém parou para perguntar se essas "complicações" eram justamente o que precisava ser entendido.
E quando o FDA finalmente mudou a política em 1993, isso resolveu o problema?
Não. Porque a pesquisa pré-clínica, aquela feita com células e animais, continuava ignorando o sexo como variável importante. Você pode mudar uma regra no papel, mas a cultura científica leva muito mais tempo para mudar.
O estudo dinamarquês que mostrou mulheres sendo diagnosticadas quatro anos mais tarde — isso é só porque os médicos não sabem o que procurar?
É parte disso. Mas também é porque os sintomas podem ser diferentes. Um infarto em uma mulher não é um infarto em um homem. Se você foi treinado para reconhecer um padrão masculino, você vai perder o padrão feminino.
No Brasil, apenas 0,5% dos registros mencionam dor menstrual ou pélvica. Isso significa que as mulheres não estão reclamando, ou que os médicos não estão ouvindo?
Provavelmente ambos. Mulheres aprendem que certos tipos de dor são "normais". E os médicos, sem protocolos específicos, não sabem como registrar ou tratar o que ouvem.
Se a pesquisa começasse agora a incluir mulheres de verdade, quanto tempo levaria para corrigir essas lacunas?
Depende de quanto investimento e atenção isso recebe. Mas o ponto é que não é só pesquisa. É educação médica, é protocolo, é como os hospitais funcionam. Tudo isso precisa mudar junto.
The Pulse
- Mulheres diagnosticadas 4 anos mais tarde que homens em centenas de condições de saúde (estudo dinamarquês, 6,9 milhões de pessoas, 21 anos)
- FDA proibiu mulheres em idade fértil de testes clínicos em 1977; revogou em 1993
- NIH exigiu sexo como variável biológica a partir de janeiro de 2016
- Dor menstrual ou pélvica registrada em apenas 0,5% dos prontuários no Recife (469 mil mulheres)
- Mulheres têm 26% menos chances de encaminhamento a centros especializados em traumatismo cranioencefálico
Mulheres são diagnosticadas em média 4 anos mais tarde que homens em centenas de condições de saúde, conforme estudo dinamarquês com 6,9 milhões de pessoas. Durante décadas, homens foram usados como referência em pesquisas porque ciclo menstrual e oscilações hormonais eram vistos como fatores que aumentavam variabilidade dos resultados.
Exclusão histórica de mulheres em pesquisas clínicas criou lacunas persistentes no diagnóstico e tratamento de doenças. Avanços recentes buscam corrigir esse viés, mas desafios permanecem na educação médica e protocolos clínicos.
A medicina construiu seu conhecimento sobre o corpo humano usando principalmente homens como referência. Essa escolha histórica, feita por razões que pareciam práticas na época, deixou lacunas profundas no diagnóstico e tratamento de mulheres que persistem até hoje. A ginecologista e pesquisadora Stephani Caser, mestranda em ginecologia na Unifesp e cofundadora da See Me, uma empresa brasileira de saúde íntima feminina, vem estudando como essa exclusão moldou a medicina moderna e por que seus efeitos ainda são sentidos nas clínicas e consultórios.
Durante décadas, mulheres foram mantidas fora dos estudos clínicos principais. A justificativa era simples: o ciclo menstrual, as flutuações hormonais e a possibilidade de gravidez tornavam os resultados mais variáveis e os estudos mais caros. Ninguém questionava se essas diferenças deveriam ser justamente o objeto de investigação. O corpo feminino foi tratado como um corpo masculino com algumas diferenças anatômicas, quando na verdade sintomas podem se manifestar de formas completamente distintas, e a resposta aos medicamentos varia significativamente. Um infarto em uma mulher, por exemplo, pode não apresentar a dor no peito clássica que todos aprendem a reconhecer, tornando o diagnóstico mais difícil e potencialmente fatal.
Em 1977, o FDA americano formalizou essa exclusão com uma recomendação que proibia mulheres em idade fértil das fases iniciais de testes de medicamentos, supostamente para proteger possíveis fetos de efeitos desconhecidos. A medida manteve mulheres fora das primeiras etapas do desenvolvimento de drogas por anos. Só em 1993 o órgão revogou a orientação e publicou diretrizes para avaliar diferenças entre homens e mulheres na resposta aos medicamentos. Mas a mudança chegou tarde demais para corrigir décadas de pesquisa enviesada. O problema também estava na pesquisa pré-clínica, aquela feita com células e animais antes de qualquer teste em humanos, onde o sexo dos modelos biológicos frequentemente nem era considerado uma variável relevante.
Em 2015, o NIH, a principal agência federal de pesquisa biomédica dos Estados Unidos, finalmente exigiu que pesquisadores considerassem o sexo como variável biológica em todos os estudos que financiava. A política entrou em vigor em janeiro de 2016. Mesmo assim, as consequências da exclusão histórica continuam visíveis. Um estudo dinamarquês publicado na revista Nature Communications em 2019 analisou 6,9 milhões de pessoas ao longo de 21 anos e descobriu que mulheres são diagnosticadas em média quatro anos mais tarde que homens em centenas de condições de saúde. Em doenças metabólicas, o atraso chega a 4,5 anos. Em câncer, 2,5 anos. No Brasil, a situação é agravada pela falta de registros adequados. Uma pesquisa da Vital Strategies Brasil examinou prontuários de mais de 469 mil meninas e mulheres de 10 a 49 anos atendidas na rede pública do Recife e descobriu que dor menstrual ou pélvica aparecia em apenas 0,5% dos casos quando considerados os códigos oficiais de doenças.
Outro estudo publicado em junho deste ano na revista Canadian Medical Association Journal analisou traumatismo cranioencefálico em mais de 50 mil canadenses entre 2009 e 2020. O resultado foi perturbador: mulheres têm 26% menos chances de serem encaminhadas a centros médicos especializados do que homens, mesmo quando apresentam o mesmo grau de lesão, idade e comorbidades. A Sociedade Brasileira de Cardiologia reconheceu em 2025 que mulheres continuam sub-representadas em ensaios clínicos de doenças cardiovasculares e cardiometabólicas, e parte das recomendações médicas ainda se baseia em evidências indiretas ou extrapoladas de estudos com maioria masculina.
Na ginecologia, a evolução do conhecimento ilustra como a pesquisa inadequada deixa mulheres sofrendo desnecessariamente. A endometriose, por exemplo, foi explicada durante décadas principalmente pela menstruação retrógrada, quando sangue menstrual retorna pelas trompas para a cavidade pélvica. Hoje sabe-se que a doença é muito mais complexa, envolvendo fatores genéticos, imunológicos e hormonais. O rastreamento do câncer do colo do útero também evoluiu. O Papanicolau, usado há décadas, foi complementado em 2024 quando o Ministério da Saúde incorporou ao SUS testes moleculares para detectar o HPV oncogênico, uma estratégia mais sensível que deverá se tornar o principal método de rastreamento.
Caser observa que áreas como menopausa, síndrome dos ovários policísticos e microbioma vaginal começam a receber maior investimento em pesquisa. Essa ampliação faz parte de uma mudança mais ampla na ciência, que começa a tratar a saúde feminina não apenas como um conjunto de doenças reprodutivas, mas como um campo de investigação próprio. Quando a medicina finalmente começar a estudar os corpos femininos em sua complexidade, entender suas diferenças reais e incorporar esse conhecimento na educação médica, nos protocolos e nos fluxos de atendimento, o diagnóstico chegará mais cedo. Mas isso ainda está por vir.
Notable Quotes
Quando a gente começar a olhar para os estudos já nos corpos femininos, entender quais são as diferenças e inserir isso dentro da educação médica, dentro dos protocolos, dentro do fluxo, a gente vai ter uma antecipação de diagnóstico— Stephani Caser, ginecologista e pesquisadora