Walss-Bass estuda há mais de 20 anos os transtornos psiquiátricos em nível molecular, investigando por que sua irmã Paty desenvolveu esquizofrenia enquanto ela não, apesar de compartilharem genes e ambiente. A doença resulta de uma 'tempestade perfeita' combinando genética, traumas ambientais e o momento crítico em que ocorrem, especialmente durante formação cerebral na infância e adolescência.
Médica que estuda esquizofrenia busca resposta: por que só sua irmã herdou a doença?
Se nós herdamos os mesmos genes e crescemos no mesmo ambiente, por que minha irmã tem esquizofrenia e eu, não?
Como uma médica que estuda esquizofrenia consegue viver com a doença tão perto, na própria família? Não é conflitante?
É mais que conflitante. É a razão pela qual ela escolheu essa carreira. Quando estava fazendo doutorado em câncer, se perguntou o que realmente queria pesquisar pelo resto da vida. A resposta foi psiquiatria. Não havia outra opção.
Mas a pergunta central dela—por que só a irmã adoeceu—ainda não tem resposta, certo? Ela mesma diz isso no livro.
Exato. Mas o que ela descobriu é que não é um gene único. São 287 genes diferentes, combinados com traumas específicos no momento certo do desenvolvimento cerebral. No caso de Paty, foi a falta de amor materno durante a gravidez e infância, somada à genética.
Então a culpa que Consuelo carregou por anos—de que poderia ter evitado—era infundada?
Sim e não. Ela não poderia ter evitado. Mas compreender isso levou tempo. Escrever o livro a ajudou a transformar raiva em empatia e até admiração pela mãe.
Há um detalhe importante: a mãe recebeu terapia de eletrochoque e melhorou temporariamente. Mas os medicamentos continuam sendo os mesmos de 60 anos. Isso é um avanço real ou ainda estamos muito longe?
Ainda estamos longe em termos de cura. Mas Consuelo é otimista porque agora entendem os mecanismos genéticos. Novos medicamentos podem atacar as causas, não apenas os sintomas.
E Paty agora? Como está?
Vive com Consuelo há dez anos. Tem rotina, vai a uma casa-clube, faz desenhos. Está estável e feliz, mas depende completamente de cuidados contínuos.
Isso é importante notar: a estabilidade dela não é resultado de um novo tratamento revolucionário. É resultado de estrutura familiar, rotina e medicação antiga. O livro oferece esperança científica, mas a realidade atual é que o suporte social é o que funciona.
Le Pouls
- Consuelo Walss-Bass estuda esquizofrenia há mais de 20 anos; sua mãe e irmã Paty sofrem da doença
- 287 genes contribuem para esquizofrenia, mas cada pessoa tem combinações diferentes
- Paty desenvolveu esquizofrenia na adolescência; agora vive com Consuelo há 10 anos
- Medicamentos para esquizofrenia continuam sendo os mesmos de 60 anos atrás
- Livro 'Por que a Minha Irmã?' será lançado em 2026 pela editora Allele Books
Walss-Bass estuda há mais de 20 anos os transtornos psiquiátricos em nível molecular, investigando por que sua irmã Paty desenvolveu esquizofrenia enquanto ela não, apesar de compartilharem genes e ambiente. A doença resulta de uma 'tempestade perfeita' combinando genética, traumas ambientais e o momento crítico em que ocorrem, especialmente durante formação cerebral na infância e adolescência.
A médica Consuelo Walss-Bass, cuja mãe e irmã sofrem de esquizofrenia, dedica sua carreira a compreender as causas biológicas da doença. Ela lança livro em 2026 entrelaçando sua vivência familiar com conhecimento científico sobre o transtorno.
Consuelo Walss-Bass estava no meio do doutorado, estudando as causas genéticas da esquizofrenia, quando fez a pergunta que a acompanharia por duas décadas: por que sua irmã tinha a doença e ela não? Quando compartilhou a observação com o pai, ele respondeu com negação absoluta. Não era possível. Ele teria sabido. Vivia com a mãe delas. Mas para Consuelo, era evidente o que afligia Paty, a quarta de cinco filhos. O pai, porém, havia vivido algo que o tornava incapaz de aceitar: a esquizofrenia havia arrancado o amor de sua vida. A ideia de que sua filha sofresse da mesma enfermidade era insuportável.
Walss-Bass é bioquímica e geneticista, nascida no México, hoje professora de psiquiatria e ciências do comportamento na Universidade do Texas em Houston. Dirige o Programa de Genética Psiquiátrica da instituição e um laboratório que mantém 180 cérebros para estudo. Mais de vinte anos dedicados a compreender transtornos psiquiátricos em nível molecular. E sempre aquela pergunta: se herdamos os mesmos genes, crescemos no mesmo ambiente, por que apenas ela adoeceu? Agora, em 2026, lança um livro chamado "Por que a Minha Irmã?" pela editora Allele Books, entrelaçando sua vivência familiar com o conhecimento científico que acumulou.
A infância de Consuelo foi marcada pelas alucinações, delírios, murmúrios e falta de afeto da mãe. Oito dias antes de completar quinze anos, no México, sua mãe foi internada em um hospital neurológico. Consuelo colocou um bilhete na mala do pai, esperando que ele o lesse, carregando a esperança de que a mãe voltasse. Foram dois meses sem ela. A família continuou com as vidas, cada um internalizando a ausência sozinho. Mas Consuelo guardava memórias bonitas: antes dos cinco anos, antes do primeiro episódio forte, sua mãe havia sido uma ótima mãe. Essas lembranças a ajudaram a vê-la sempre assim, mesmo depois que tudo mudou. Depois daquele evento, a mãe nunca mais voltou a ser a mesma pessoa.
Paty, porém, enfrentou algo diferente. Quando a mãe estava grávida dela, já não estava bem. Nos primeiros meses de vida de Paty, não havia o amor materno que deveria estar ali. Esse foi seu primeiro trauma. Depois veio o isolamento: enquanto o pai trabalhava e os irmãos mais velhos iam para a escola ou para casa de amigos, Paty ficava sozinha com a mãe, justamente quando seu cérebro estava se desenvolvendo. Consuelo acredita que essa combinação—a carga genética herdada mais o impacto ambiental no momento crítico do desenvolvimento cerebral—foi o que levou à doença. Os três filhos mais velhos tinham uns aos outros. O irmão menor foi enviado para viver com uma família que os ajudava, o que o salvou. Mas Paty não teve essa proteção.
Os primeiros sinais foram sutis demais para serem reconhecidos como doença. Paty começou a sofrer paranoias, dizendo que estavam falando mal dela, que não a amavam, que a ignoravam. Nada tão estranho quanto extraterrestres a caminho. Quando contou a Consuelo que achava que alguém a estava observando, Consuelo não entendeu que sua irmã estava ouvindo vozes ou vendo coisas. Era difícil fazer amigos. Ela passava muito tempo sozinha. Raiva, paranoia, isolamento—quando ocorrem juntos, são sintomas precoces que poderiam ter sido reconhecidos. Mas ninguém reconheceu.
Paty se transformou em alguém que Consuelo não reconhecia. Precisou ir embora. Pouco tempo depois, Paty desapareceu. Ninguém sabia onde estava. Consuelo carregou culpa por anos, pensando que se tivesse ficado, teria podido ajudar. Dois anos depois, ela e o marido saíram para procurá-la. Encontraram Paty casada, vivendo em condições terríveis. Seu marido, que cuidava dela, havia acabado de morrer de câncer. Paty já havia sido diagnosticada com esquizofrenia. Agora, dez anos depois de tê-la encontrado, Paty vive com Consuelo e sua família. Inicialmente foi muito difícil—precisou hospitalizá-la contra sua vontade. Paty demorou para perdoar, mas agora agradece. Seus dias são bonitos: vai a uma casa-clube, rega plantas, faz desenhos. Tem uma rotina, e isso é crucial para pessoas com esquizofrenia. Saber o que acontecerá traz tranquilidade e segurança.
Consuelo descobriu que 287 genes contribuem para a esquizofrenia, mas cada pessoa tem combinações diferentes. Não há um gene culpado. É a combinação dos genes herdados somada aos traumas vivenciados, e o momento crítico em que esses traumas ocorrem. Se uma pessoa sofre trauma quando as sinapses estão se formando, isso pode contribuir para a doença. Os medicamentos continuam sendo os mesmos de sessenta anos atrás—Paty toma clozapina, a única que a ajuda. Mas Consuelo sente otimismo. À medida que descobrem o que causa a doença, acreditam que em breve poderão desenvolver medicamentos que não ataquem apenas os sintomas, mas os genes causadores. Essa compreensão científica ajuda a reduzir a estigmatização, fazendo as pessoas entenderem que é uma doença biológica, causada por fatores fora do controle das pessoas. Quando criança, Consuelo dizia à irmã: "Controle-se". Agora sabe que não conseguem controlar. Isso, para ela, é um avanço incrível.
Escrever o livro teve poder curador. Às vezes chorava enquanto escrevia. Começou a entender sua mãe cada vez mais. Quando vieram para os Estados Unidos, o pai trabalhava o dia todo e a mãe ficava com os filhos em um país estranho, falando outro idioma. Quando Consuelo mesma se mudou para os Estados Unidos na idade adulta, ficou com depressão. Pensou em como sua mãe havia passado por aquilo, sofreu com isolamento, ninguém a entendia. Depois que teve seus próprios filhos, observou o esforço que a mãe fez, tentando como podia levá-los adiante. Agora vê que as duas últimas gestações precipitaram a psicose da mãe, e depois que nasceram, a doença ficou mais grave. Consuelo a admira muito. Mas quando seu irmão Rudy terminou de ler o livro, perguntou: "Pensei que você fosse explicar por que ela". A pergunta permanece. Mas Consuelo tem muita fé e otimismo de que irão entender isso em alguns anos. A ciência avança. E isso é incrível.
Citations marquantes
A doença resulta de uma combinação de genética, traumas ambientais e o momento crítico em que ocorrem, especialmente durante formação cerebral na infância e adolescência— Consuelo Walss-Bass, explicando a 'tempestade perfeita' que levou ao adoecimento de sua irmã
Entender que eles não conseguem controlar é importantíssimo. Isso, para mim, é um avanço incrível— Consuelo Walss-Bass, sobre a compreensão científica reduzindo estigmatização