Maria Angélica descobriu na cerâmica ferramenta terapêutica para conectar-se com seu filho com doença genética, transformando hobby em negócio estruturado. O ateliê-escola oferece adaptações personalizadas para alunos com necessidades específicas, funcionando como espaço de acolhimento e encontro entre famílias.
Médica deixa UTI neonatal e cria ateliê de cerâmica inclusivo que fatura R$ 95 mil/mês
Às vezes, acho que fui premiada pela vida
O que a levou a deixar uma carreira consolidada de mais de vinte anos?
Não foi uma decisão repentina. Começou com Thiago, meu filho. Quando ele estava com argila nas mãos, tudo mudava. Ele conseguia ficar concentrado, presente. Eu via que aquilo tinha um poder que a medicina não tinha — não era sobre curar, era sobre conectar.
E a pandemia acelerou essa transição?
Sim. Durante o isolamento, comecei a pensar seriamente: por que não transformar isso em algo maior? Não apenas para meu filho, mas para outras famílias que enfrentam desafios parecidos.
Novecentos mil reais é um investimento considerável. Você tinha medo?
Claro que tinha. Mas eu vinha de uma carreira estável. Consegui poupar, consegui estudar gestão empresarial, consegui investir na formação técnica. O medo era real, mas a convicção era maior.
Como você estruturou o espaço para ser verdadeiramente inclusivo?
Não é algo que você faz uma vez e pronto. É contínuo. Conversamos com psicólogos, terapeutas ocupacionais, médicos. Cada aluno tem suas necessidades. Alguns dias a gente reduz estímulos sonoros, outros dias a luz precisa ser diferente. É personalizado.
E o que significa para você que o negócio fature noventa e cinco mil reais por mês?
Significa que inclusão é viável economicamente. Que você não precisa escolher entre fazer o bem e ter um negócio sustentável. Thiago está aqui, produzindo suas peças. Mãe e filho moldando argila juntas. Isso é o sucesso real.
The Pulse
- Pediatra com mais de 20 anos em UTI neonatal deixa medicina para fundar ateliê de cerâmica
- Filho nasceu com doença genética; cerâmica se tornou ferramenta de conexão familiar
- Ateliê-escola em Curitiba fatura R$ 95 mil por mês com aproximadamente R$ 900 mil investidos
- Espaço oferece adaptações personalizadas para alunos com necessidades específicas
Maria Angélica descobriu na cerâmica ferramenta terapêutica para conectar-se com seu filho com doença genética, transformando hobby em negócio estruturado. O ateliê-escola oferece adaptações personalizadas para alunos com necessidades específicas, funcionando como espaço de acolhimento e encontro entre famílias.
Pediatra com mais de 20 anos de experiência em UTI neonatal deixa medicina para fundar ateliê de cerâmica inclusivo em Curitiba, faturando R$ 95 mil mensais.
Maria Angélica Telles passou mais de vinte anos dentro de unidades de terapia intensiva neonatal, pediatra entre incubadoras e monitores cardíacos, cuidando de recém-nascidos em seus primeiros e mais frágeis dias de vida. Depois de duas décadas nesse trabalho, ela fez uma escolha que poucos em sua posição fariam: deixou a medicina para trabalhar com argila.
O caminho começou em casa, sem grandes planos. Seu filho Thiago nasceu com uma doença genética que exigia adaptações constantes na vida familiar. Ele tinha dificuldade em manter a concentração em atividades ordinárias — aquele tipo de dispersão que deixa pais e educadores em busca de soluções. Mas quando Magé, como é conhecida, o colocava diante de um torno de cerâmica ou simplesmente deixava suas mãos explorar a argila, algo mudava. "Ele conseguia ficar comigo duas, três horas num domingo à tarde brincando e modelando argila", ela recorda. Naquele momento, entre o barro úmido e as mãos do filho, ela viu algo além de um passatempo.
A paixão pela cerâmica germinou em 2015, mas foi a pandemia que a transformou em convicção. Quando o mundo parou, Magé começou a enxergar a atividade não como fuga, mas como possibilidade real de negócio. Ela investiu em formação técnica em cerâmica e em cursos de gestão empresarial. Com aproximadamente novecentos mil reais investidos ao longo da jornada, abriu um ateliê-escola em Curitiba com uma proposta deliberadamente diferente das escolas de arte convencionais: um espaço pensado para acolher pessoas diversas, especialmente aquelas com necessidades específicas.
O ateliê funciona como um organismo vivo que se adapta. Alguns dias as aulas exigem menos ruído; outros, iluminação mais suave ou abordagens pedagógicas inteiramente diferentes. Os professores conversam regularmente com psicólogos, terapeutas ocupacionais e médicos para compreender melhor o que cada aluno precisa. Não é apenas um lugar onde se aprende a fazer cerâmica. É um espaço de cuidado onde mães e filhos compartilham tempo juntos nas bancadas de argila, onde famílias trocam conversas e experiências. "É nosso momento da semana juntas", resume uma das alunas que frequenta as aulas com sua filha.
O negócio cresceu. Hoje o ateliê fatura em média noventa e cinco mil reais por mês. Mas para Magé, os números não capturam o que realmente importa. O ateliê nasceu da relação com Thiago, e continua sendo alimentado por ela. Seu filho acompanha de perto o crescimento do empreendimento e produz suas próprias peças. "Às vezes, acho que fui premiada pela vida", diz ela. Entre cumbucas feitas à mão, esculturas e peças moldadas com cuidado, mãe e filho seguem transformando argila em algo maior: uma forma diferente de empreender, mais humana, mais afetiva, mais inclusiva.
Notable Quotes
Ele conseguia ficar comigo duas, três horas num domingo à tarde brincando e modelando argila— Maria Angélica Telles, sobre seu filho Thiago
Quando idealizei a escola, eu pensava não só numa escola de arte, mas num espaço de cuidado e acolhimento— Maria Angélica Telles