Com apenas 5% de visão, Lubian opera uma oficina mecânica usando Be My Eyes, óculos Ray-Ban Meta e aplicativos de diagnóstico automotivo para identificar peças e realizar reparos complexos. Além de mecânico, Lubian é especialista em acessibilidade digital no C6 Bank e mantém canal no YouTube documentando seus serviços, inspirando outros deficientes visuais a ingressar no mercado de trabalho.
Mecânico cego usa óculos inteligentes e IA para consertar carros em Canoas
A indústria precisa acordar e parar de fabricar ferramentas como se todo mundo enxergasse
Como é possível consertar um motor sem enxergar? Parece impossível.
Não é impossível, é diferente. Ele usa câmeras, inteligência artificial, voluntários remotos. A tecnologia faz a ponte entre o que ele não consegue ver e o que precisa saber.
Mas quanto disso é realmente autônomo? Ele depende do Be My Eyes, da esposa, dos óculos. Sem esses recursos, ele conseguiria?
Essa é uma pergunta importante. Ele mesmo diz que tem 5% de visão. A tecnologia não substitui a visão — ela amplia o que ele já consegue fazer.
E quanto ao mercado? Ele consegue competir com outros mecânicos?
Seus clientes incluem muitos pais de filhos com deficiência. Há uma demanda específica por alguém que entende essa realidade.
Mas isso é um nicho. Ele quer mudar a indústria inteira. Como planeja fazer isso?
Documentando seu trabalho no YouTube, mostrando que é possível. E pressionando fabricantes de ferramentas para pensarem em acessibilidade desde o design.
Qual é o maior obstáculo que ele enfrenta?
Ele mesmo nomeia: capacitismo. A ideia de que pessoas com deficiência não são capazes.
Mas há um risco aqui. Se a história dele virar apenas inspiradora, pode reforçar a ideia de que deficientes precisam ser "super-heróis" para merecer respeito.
Verdade. Ele não quer ser exceção. Quer que a regra mude.
Il Polso
- Guilherme Carlos Lubian tem 5% de visão e nasceu com retinose pigmentar
- Trabalha como especialista em acessibilidade digital no C6 Bank e conserta motores em garagem em Canoas
- Usa Be My Eyes, óculos Ray-Ban Meta e aplicativo Car Scanner para realizar reparos
- Mantém canal no YouTube chamado Lubian Garage documentando seus serviços
Com apenas 5% de visão, Lubian opera uma oficina mecânica usando Be My Eyes, óculos Ray-Ban Meta e aplicativos de diagnóstico automotivo para identificar peças e realizar reparos complexos. Além de mecânico, Lubian é especialista em acessibilidade digital no C6 Bank e mantém canal no YouTube documentando seus serviços, inspirando outros deficientes visuais a ingressar no mercado de trabalho.
Guilherme Carlos Lubian, deficiente visual desde o nascimento, conserta motores em sua garagem em Canoas usando aplicativos de IA, óculos inteligentes e voluntários remotos. Ele trabalha como especialista em acessibilidade digital e busca transformar a indústria de ferramentas para ser mais inclusiva.
Guilherme Carlos Lubian está em pé diante do motor de uma caminhonete Fiat Toro 2022, os óculos Ray-Ban Meta apoiados no rosto. Ele precisa substituir um pequeno filtro na entrada da bomba de alta pressão. Com apenas 5% de visão — o suficiente para distinguir claro de escuro, mas não para ser legalmente considerado uma pessoa com baixa visão — ele ativa o aplicativo Be My Eyes no celular. A câmera transmite a imagem do motor para voluntários remotos e para ferramentas de inteligência artificial que conseguem identificar componentes. Segundos depois, ele sabe exatamente onde está a peça. Seus dedos encontram o caminho. O filtro sai. Um novo entra no lugar.
Lubian tem 35 anos e nasceu com retinose pigmentar, a forma mais comum de cegueira hereditária no Brasil. Desde criança, era apaixonado por carros. Quando não conseguia enxergá-los direito, tocava com as mãos e tentava recriá-los em miniatura usando sucata, caixas de medicamentos e bandejas de isopor. Cresceu, comprou uma motocicleta para aprender a consertar, reformou-a, vendeu-a, comprou outra em péssimo estado e restaurou também. Depois veio um carro. A progressão era sempre a mesma: evoluir no conhecimento dos veículos. Natural de Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul, ele agora mora em Canoas, na Região Metropolitana, com a esposa Daiane Tubello. A oficina funciona na garagem de casa.
Durante o dia, Lubian trabalha como especialista em acessibilidade digital para o C6 Bank. Sua missão é ajudar outras pessoas com deficiência — visuais ou não — a acessar sites e aplicativos. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e tem especialização em User Experience, a área que estuda como as pessoas interagem com a tecnologia. À noite e nos fins de semana, conserta motores. Começou a investir seriamente na oficina durante a pandemia, adquirindo ferramentas e estudando. Inicialmente, trabalhava apenas com carros flex, aqueles que rodam com gasolina ou etanol. Depois se apaixonou por diesel e passou a especializar-se neles. Sua oficina ganhou o nome de Lubian Garage e abriu um canal no YouTube com o mesmo nome, documentando cada reparo. Entre seus principais clientes estão pais e mães de filhos com algum tipo de deficiência.
O arsenal tecnológico que usa é preciso. O Be My Eyes conecta-o a voluntários que enxergam e a inteligência artificial através de chamadas de vídeo ao vivo. Ele tira fotos das peças e envia para o aplicativo fazer a leitura. Usa o Car Scanner para diagnóstico automotivo. Os óculos inteligentes Ray-Ban Meta permitem comunicação direta com o Be My Eyes — quando está de frente para o motor e precisa do código de uma peça, ativa o recurso dos próprios óculos para obter a informação. Sua esposa também o auxilia na visualização de componentes. Daiane, com 40 anos, não esconde o orgulho: "A gente se surpreende todo dia. Às vezes, eu penso: 'Não tem como ele consertar tal coisa'. Mas ele vai lá e faz. É muito incrível, e eu aprendo muito por tabela."
Mas Lubian não quer apenas consertar carros. Quer transformar a indústria. Ele fala sobre capacitismo — o preconceito contra pessoas com deficiência baseado na ideia de que não são capazes — como um fantasma ainda muito presente. "Existe muito preconceito e discriminação. Se a pessoa não for forte e não tiver casca grossa, é difícil viver", desabafa. Seu plano é pressionar a indústria brasileira para que fabrique ferramentas mais acessíveis. "A indústria precisa acordar e parar de fabricar ferramentas como se todo mundo enxergasse, ouvisse e falasse. Precisamos trazer acessibilidade para as coisas", afirma. Ele quer ver outros deficientes inseridos no mercado de trabalho, podendo escolher o tipo de serviço que desejam realizar. "Sou muito movido a desafios. Gosto de complexidade", diz. E essa complexidade não é apenas técnica — é também a de viver e trabalhar em um mundo que ainda não foi pensado para pessoas como ele.
Citazioni salienti
A indústria precisa acordar e parar de fabricar ferramentas como se todo mundo enxergasse, ouvisse e falasse— Guilherme Carlos Lubian
A gente se surpreende todo dia. Às vezes, eu penso: 'Não tem como'. Mas ele vai lá e faz— Daiane Tubello, esposa de Lubian