Mecânico cego usa óculos inteligentes e IA para consertar carros em Canoas

A indústria precisa acordar e parar de fabricar ferramentas como se todo mundo enxergasse
Lubian defende que produtos devem ser projetados considerando pessoas com diferentes capacidades desde o início.
Mark

Como é possível consertar um motor sem enxergar? Parece impossível.

Mimi

Não é impossível, é diferente. Ele usa câmeras, inteligência artificial, voluntários remotos. A tecnologia faz a ponte entre o que ele não consegue ver e o que precisa saber.

Luke

Mas quanto disso é realmente autônomo? Ele depende do Be My Eyes, da esposa, dos óculos. Sem esses recursos, ele conseguiria?

Mimi

Essa é uma pergunta importante. Ele mesmo diz que tem 5% de visão. A tecnologia não substitui a visão — ela amplia o que ele já consegue fazer.

Mark

E quanto ao mercado? Ele consegue competir com outros mecânicos?

Mimi

Seus clientes incluem muitos pais de filhos com deficiência. Há uma demanda específica por alguém que entende essa realidade.

Luke

Mas isso é um nicho. Ele quer mudar a indústria inteira. Como planeja fazer isso?

Mimi

Documentando seu trabalho no YouTube, mostrando que é possível. E pressionando fabricantes de ferramentas para pensarem em acessibilidade desde o design.

Mark

Qual é o maior obstáculo que ele enfrenta?

Mimi

Ele mesmo nomeia: capacitismo. A ideia de que pessoas com deficiência não são capazes.

Luke

Mas há um risco aqui. Se a história dele virar apenas inspiradora, pode reforçar a ideia de que deficientes precisam ser "super-heróis" para merecer respeito.

Mimi

Verdade. Ele não quer ser exceção. Quer que a regra mude.

  • Guilherme Carlos Lubian tem 5% de visão e nasceu com retinose pigmentar
  • Trabalha como especialista em acessibilidade digital no C6 Bank e conserta motores em garagem em Canoas
  • Usa Be My Eyes, óculos Ray-Ban Meta e aplicativo Car Scanner para realizar reparos
  • Mantém canal no YouTube chamado Lubian Garage documentando seus serviços

Com apenas 5% de visão, Lubian opera uma oficina mecânica usando Be My Eyes, óculos Ray-Ban Meta e aplicativos de diagnóstico automotivo para identificar peças e realizar reparos complexos. Além de mecânico, Lubian é especialista em acessibilidade digital no C6 Bank e mantém canal no YouTube documentando seus serviços, inspirando outros deficientes visuais a ingressar no mercado de trabalho.

Guilherme Carlos Lubian, deficiente visual desde o nascimento, conserta motores em sua garagem em Canoas usando aplicativos de IA, óculos inteligentes e voluntários remotos. Ele trabalha como especialista em acessibilidade digital e busca transformar a indústria de ferramentas para ser mais inclusiva.

Guilherme Carlos Lubian está em pé diante do motor de uma caminhonete Fiat Toro 2022, os óculos Ray-Ban Meta apoiados no rosto. Ele precisa substituir um pequeno filtro na entrada da bomba de alta pressão. Com apenas 5% de visão — o suficiente para distinguir claro de escuro, mas não para ser legalmente considerado uma pessoa com baixa visão — ele ativa o aplicativo Be My Eyes no celular. A câmera transmite a imagem do motor para voluntários remotos e para ferramentas de inteligência artificial que conseguem identificar componentes. Segundos depois, ele sabe exatamente onde está a peça. Seus dedos encontram o caminho. O filtro sai. Um novo entra no lugar.

Lubian tem 35 anos e nasceu com retinose pigmentar, a forma mais comum de cegueira hereditária no Brasil. Desde criança, era apaixonado por carros. Quando não conseguia enxergá-los direito, tocava com as mãos e tentava recriá-los em miniatura usando sucata, caixas de medicamentos e bandejas de isopor. Cresceu, comprou uma motocicleta para aprender a consertar, reformou-a, vendeu-a, comprou outra em péssimo estado e restaurou também. Depois veio um carro. A progressão era sempre a mesma: evoluir no conhecimento dos veículos. Natural de Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul, ele agora mora em Canoas, na Região Metropolitana, com a esposa Daiane Tubello. A oficina funciona na garagem de casa.

Durante o dia, Lubian trabalha como especialista em acessibilidade digital para o C6 Bank. Sua missão é ajudar outras pessoas com deficiência — visuais ou não — a acessar sites e aplicativos. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e tem especialização em User Experience, a área que estuda como as pessoas interagem com a tecnologia. À noite e nos fins de semana, conserta motores. Começou a investir seriamente na oficina durante a pandemia, adquirindo ferramentas e estudando. Inicialmente, trabalhava apenas com carros flex, aqueles que rodam com gasolina ou etanol. Depois se apaixonou por diesel e passou a especializar-se neles. Sua oficina ganhou o nome de Lubian Garage e abriu um canal no YouTube com o mesmo nome, documentando cada reparo. Entre seus principais clientes estão pais e mães de filhos com algum tipo de deficiência.

O arsenal tecnológico que usa é preciso. O Be My Eyes conecta-o a voluntários que enxergam e a inteligência artificial através de chamadas de vídeo ao vivo. Ele tira fotos das peças e envia para o aplicativo fazer a leitura. Usa o Car Scanner para diagnóstico automotivo. Os óculos inteligentes Ray-Ban Meta permitem comunicação direta com o Be My Eyes — quando está de frente para o motor e precisa do código de uma peça, ativa o recurso dos próprios óculos para obter a informação. Sua esposa também o auxilia na visualização de componentes. Daiane, com 40 anos, não esconde o orgulho: "A gente se surpreende todo dia. Às vezes, eu penso: 'Não tem como ele consertar tal coisa'. Mas ele vai lá e faz. É muito incrível, e eu aprendo muito por tabela."

Mas Lubian não quer apenas consertar carros. Quer transformar a indústria. Ele fala sobre capacitismo — o preconceito contra pessoas com deficiência baseado na ideia de que não são capazes — como um fantasma ainda muito presente. "Existe muito preconceito e discriminação. Se a pessoa não for forte e não tiver casca grossa, é difícil viver", desabafa. Seu plano é pressionar a indústria brasileira para que fabrique ferramentas mais acessíveis. "A indústria precisa acordar e parar de fabricar ferramentas como se todo mundo enxergasse, ouvisse e falasse. Precisamos trazer acessibilidade para as coisas", afirma. Ele quer ver outros deficientes inseridos no mercado de trabalho, podendo escolher o tipo de serviço que desejam realizar. "Sou muito movido a desafios. Gosto de complexidade", diz. E essa complexidade não é apenas técnica — é também a de viver e trabalhar em um mundo que ainda não foi pensado para pessoas como ele.

A indústria precisa acordar e parar de fabricar ferramentas como se todo mundo enxergasse, ouvisse e falasse
— Guilherme Carlos Lubian
A gente se surpreende todo dia. Às vezes, eu penso: 'Não tem como'. Mas ele vai lá e faz
— Daiane Tubello, esposa de Lubian
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