Fisher articula saúde mental e depressão como fenômenos diretamente ligados ao sistema econômico capitalista, renovando argumentos marxistas para gerações contemporâneas. Sua obra evolui de 'Realismo Capitalista' (2009) para 'O Estranho e o Sinistro', explorando como o presente é assombrado por futuros perdidos e imaginações políticas bloqueadas.
Mark Fisher une cultura pop e saúde mental na crítica anticapitalista
O presente é assombrado por futuros que deixaram de ser possíveis
Por que Mark Fisher importa agora, especialmente no Brasil? Parece que suas ideias chegaram atrasadas.
Não atrasadas — chegaram no tempo certo. Em 2009, quando "Realismo Capitalista" saiu, o Brasil estava otimista. Mas entre 2016 e 2017, quando as crises explodiram, suas teses sobre apatia e resignação deixaram de ser abstratas e viraram urgentes.
Ele conecta coisas muito diferentes — cultura pop, depressão, política. Como isso funciona?
Fisher tinha um superpoder para nomear fenômenos. Ele via que a apatia política não era apenas ideológica — era psíquica, ligada ao sistema econômico. Quando você está deprimido, os gestos da vida cotidiana parecem encenação. Ele via isso como sintoma do capitalismo.
Mas ele era filósofo, não psicólogo. Como conseguiu falar sobre saúde mental com tanta precisão?
Porque sofria de depressão desde a adolescência. Escrevia sobre Joy Division e Ian Curtis não como crítico distante, mas como alguém que conhecia aquele sofrimento. Sua teoria era encarnada.
O que significa essa ideia de "assombrologia" que ele desenvolveu com Simon Reynolds?
Que o presente é assombrado por futuros que morreram. Não futuros que ainda virão — futuros que deixaram de ser possíveis. Quando você vê retromania na música, nostalgia constante, é porque a imaginação política morreu.
E por que isso ressoa tanto agora com a juventude brasileira?
Porque a juventude vive exatamente isso. Sabe que as coisas estão ruins, mas não consegue imaginar como mudar. Fisher nomeou essa experiência. Deu palavras para o que as pessoas sentiam mas não conseguiam articular.
Ele se matou em 2017. Isso muda como lemos sua obra?
Muda tudo. Seus livros ganham um teor fantasmagórico. Gonzo diz que "Fisher era assombrado por sua teoria, e deixou-a para que fôssemos também". Ele era o fantasma de sua própria vida.
The Pulse
- Mark Fisher morreu em janeiro de 2017, aos 48 anos, por suicídio
- Duas traduções de suas obras foram lançadas no Brasil em 2026: "O Estranho e o Sinistro" e "Constructos Flatline"
- "Realismo Capitalista" (2009) se tornou clássico contemporâneo para a esquerda mundial
- Fisher cunhou termos como "retromania" e "assombrologia" com o crítico Simon Reynolds
Fisher articula saúde mental e depressão como fenômenos diretamente ligados ao sistema econômico capitalista, renovando argumentos marxistas para gerações contemporâneas. Sua obra evolui de 'Realismo Capitalista' (2009) para 'O Estranho e o Sinistro', explorando como o presente é assombrado por futuros perdidos e imaginações políticas bloqueadas.
A obra do filósofo britânico Mark Fisher ganha crescente recepção no Brasil, unindo crítica anticapitalista com análise de cultura pop e sofrimento psíquico. Duas traduções lançadas em 2026 consolidam seu legado intelectual entre a juventude politizada.
Numa quarta-feira de maio em São Paulo, dezenas de pessoas se apertavam na pista do Sol Y Sombra, uma casa de temática latino-americana no Bixiga, para assistir a um filme sobre um filósofo britânico que morreu há quase uma década. O documentário-ficção "We Are Making a Film About Mark Fisher" chegava ao Brasil num momento em que a obra do autor finalmente encontrava seu público por aqui — não discretamente, como aconteceu quando "Realismo Capitalista" foi lançado em 2009, mas com a força de quem chega atrasado a uma conversa que já estava acontecendo há anos.
Mark Fisher nasceu em Hull, formou-se em inglês e filosofia no final dos anos 1980, e viveu sua juventude imerso na cena pós-punk inglesa. Em 1995, ajudou a fundar o Cybernetic Culture Research Unit, um grupo de pesquisa experimental que se dissolveria nos anos 2000. Entre aulas em universidades e seu blog de crítica musical chamado k-punk, Fisher construiu uma obra que se consolidaria em três livros. Morreu em janeiro de 2017, aos 48 anos, por suicídio — um detalhe que não é periférico à sua teoria, mas central a ela.
O que torna Fisher relevante agora, especialmente no Brasil, é sua capacidade de conectar coisas que parecem desconectadas: cultura pop e depressão, bandas de rock e apatia política, filmes de terror e o colapso da imaginação futura. Ele não era psicólogo ou psicanalista de formação, mas saúde mental era um de seus tópicos favoritos. Em "Impotência Reflexiva", um texto de 2006 publicado no k-punk, ele descreveu estudantes britânicos sob a crise do governo Tony Blair como resignados ao seu destino — sabiam que as coisas estavam ruins, mas já não acreditavam que conseguiriam mudá-las. Usava o sucesso da banda indie Arctic Monkeys como exemplo dessa apatia, ligando nostalgia estética à falta de imaginação política. O psicanalista Rodrigo Gonsalves, que traduziu "Realismo Capitalista" para o português e depois "O Estranho e o Sinistro", resume assim: Fisher "colocou a saúde mental de uma forma que as pessoas não pensavam antes, que é completamente ligada ao nosso sistema econômico".
Em 2009, quando "Realismo Capitalista" saiu com o subtítulo "É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo?", o livro foi recebido discretamente. Mas virou um clássico contemporâneo para a esquerda mundial. No Brasil, porém, a recepção foi lenta. Em 2009, o país vivia progressismo e otimismo econômico — o diagnóstico de Fisher sobre a morte da imaginação política parecia estranho demais. Tudo mudou entre 2016 e 2017, quando crises políticas e econômicas explodiram por aqui. De repente, suas ideias não eram abstratas: eram urgentes. Amauri Gonzo, jornalista e tradutor, explica: "Em 2009, a teoria do Fisher era muito estranha. Mas, no fim dos anos 2010, tudo era muito real. Passamos a viver em um mundo onde o Donald Trump manda nos Estados Unidos, é muito difícil olhar para isso e não pensar 'é culpa do capitalismo'".
Este ano, 2026, duas traduções de Fisher foram lançadas por editoras brasileiras. "O Estranho e o Sinistro", seu último livro, saiu pela Autonomia Literária em março. Gonsalves, que o traduziu, conheceu Fisher através de uma recomendação de Slavoj Žižek quando fazia doutorado na Suíça. O livro parte de uma crítica ao conceito freudiano do "infamiliar" para construir seus conceitos principais, analisando filmes de terror e contos de ficção científica como experiências estéticas. É mais abstrato e etéreo que seus trabalhos anteriores — quase como um livro assombrado, segundo Gonsalves. Fisher já se interessava por elementos sobrenaturais desde sua tese de doutorado, mas em "O Estranho e o Sinistro" essa obsessão amadurece. "Acho importante discutir vampiros, zumbis, essas coisas mortas-vivas que assombram o nosso dia a dia", diz Gonsalves.
Um dos textos mais tocantes de Fisher sobre saúde mental é "Nenhum Prazer", sobre a banda Joy Division e seu vocalista Ian Curtis, que aparece em "Fantasmas da Minha Vida" (2014). Nele, Fisher escreve sobre depressão com precisão cirúrgica: "Para o depressivo, os hábitos do antigo mundo da vida agora parecem ser, precisamente, um modo de encenação, uma série de gestos maquiados, que não são mais capazes de representar". Fisher sofria de depressão desde a adolescência. Seu colega e amigo Simon Reynolds, um dos críticos musicais mais importantes de sua geração, nota que Fisher tinha um superpoder: "Ele conseguia escrever muito bem sobre os detalhes e as particularidades de uma obra de arte, mas seu superpoder era expandir isso para princípios abstratos mais amplos". Juntos, Reynolds e Fisher cunharam termos que definiram a música ocidental dos anos 2000 e 2010 — "retromania" e "assombrologia" — ambos partindo da mesma ideia: que o presente é assombrado por futuros perdidos.
A recepção de Fisher no Brasil intensificou-se porque suas ideias chegaram no momento certo, quando a realidade finalmente alcançou sua teoria. Gonzo o chama de "arquiteto de conceitos" por sua facilidade em nomear fenômenos que as pessoas sentiam mas não conseguiam articular. Gonsalves acrescenta: "Ele tocou no pulso do nosso sofrimento naquele momento. Ele ganhou esse caráter incendiário porque ele é objetivo, suas ideias são de fácil transmissão". Fisher escrevia sem muitas firulas acadêmicas, partindo de cultura pop e saúde mental para chegar à crítica anticapitalista — uma abordagem que ressoa especialmente com a juventude politizada. Sua obra agora aparece em conversas entre alunos, em podcasts como "Fisher e os Fisherianos", e até em letras do grupo de rap experimental carioca Crizin da ZO. O psicanalista Christian Dunker o cita regularmente. O que Fisher deixou foi uma chave de leitura para o presente: a ideia de que estamos vivendo num mundo assombrado por imaginações políticas que morreram, e que essa morte é tanto psíquica quanto econômica.
Notable Quotes
Fisher colocou a saúde mental de uma forma que as pessoas não pensavam antes, que é completamente ligada ao nosso sistema econômico— Rodrigo Gonsalves, psicanalista e tradutor
Ele conseguia escrever muito bem sobre os detalhes de uma obra de arte, mas seu superpoder era expandir isso para princípios abstratos mais amplos— Simon Reynolds, crítico musical