Mapeamento global identifica mais de 54 mil vírus de RNA desconhecidos em cidades

Quando você procura um vírus a partir de uma doença, existe um viés
Pesquisador explica por que estudar vírus sem partir de doenças conhecidas revela uma diversidade muito maior.
Mark

Por que descobrir vírus que não causam doenças importa? Parece uma curiosidade acadêmica.

Mimi

Porque os vírus evoluem constantemente. Se você só conhece os que causam doenças, está vendo uma foto de um filme em movimento. Esses outros vírus — os que infectam bactérias, os que vivem no solo — são parte do contexto em que novos patógenos emergem.

Mark

Então você está dizendo que compreender a diversidade viral é uma forma de vigilância?

Mimi

Exatamente. O UPVAtlas funciona como uma linha de base. Daqui a dez anos, você pode comparar o que existe em São Paulo hoje com o que existirá então. Mudanças nessas comunidades podem sinalizar algo importante acontecendo.

Mark

E quanto aos 60 vírus que podem infectar humanos? Isso é preocupante?

Mimi

É informação, não alarme. Saber que existem é diferente de saber que vão causar doença. Mas sim, é um sinal de que precisamos continuar olhando. A maioria dos vírus identificados infecta bactérias, não pessoas.

Mark

A ferramenta desenvolvida na USP — o geNomad — parece ser o coração técnico disso tudo.

Mimi

É. Sem ela, você teria milhões de sequências e nenhuma forma de saber o que são. O geNomad permite processar esse volume imenso e identificar quais fragmentos são realmente genomas virais. Muda completamente a escala do que é possível fazer.

  • Dezenas de milhares de vírus nunca descritos circulam silenciosamente em metrôs, hospitais e redes de esgoto de cidades em todos os continentes, invisíveis às abordagens científicas tradicionais.
  • A urgência se revela nos números: dos quase 55 mil vírus catalogados, 60 têm alta probabilidade de infectar humanos e 47 podem acometer outros mamíferos, sinalizando riscos potenciais ainda não mapeados.
  • A ferramenta geNomad, desenvolvida na USP, foi peça central para processar milhões de fragmentos genéticos e distinguir, nesse oceano de dados, quais sequências pertenciam a vírus — uma triagem que seria impossível manualmente.
  • As curvas de descoberta nunca estabilizaram: cada nova amostra analisada revelava vírus inéditos, indicando que os 55 mil catalogados são apenas uma fração do que realmente existe nesses ambientes.
  • O catálogo UPVAtlas transforma esse inventário em infraestrutura de vigilância — uma linha de base contra a qual será possível medir, nas próximas décadas, como as comunidades virais urbanas evoluem e se transformam.

Num momento em que a humanidade ainda assimila as lições de uma pandemia, cientistas de dezenas de países voltaram os olhos não para doenças conhecidas, mas para o silêncio viral que habita as superfícies cotidianas das cidades. Um estudo publicado na Nature Communications catalogou quase 55 mil espécies virais em 102 metrópoles ao redor do mundo — 77% delas inteiramente desconhecidas da ciência —, revelando que a vida microbiana urbana é vastamente mais rica e complexa do que qualquer mapa anterior sugeria. A descoberta não anuncia uma ameaça imediata, mas amplia profundamente o horizonte do que precisamos compreender para vigiar, com sabedoria, os patógenos que ainda estão por vir.

Cientistas de dezenas de países, incluindo pesquisadores brasileiros da USP, publicaram na Nature Communications um levantamento sem precedentes: 54.945 espécies virais identificadas em 102 cidades de 31 países, sendo 77% delas completamente desconhecidas da ciência. As amostras foram coletadas em estações de metrô, hospitais, redes de esgoto e superfícies de uso cotidiano — corrimãos, bancos, máquinas de bilhetes — entre março e julho de 2020, no auge da pandemia de COVID-19.

A ruptura metodológica foi decisiva. Durante décadas, a virologia partia das doenças para encontrar os vírus. Esse filtro tornava invisível a imensa maioria dos vírus que não adoece humanos. Ao usar a metatranscriptômica — técnica que sequencia todo o RNA presente em uma amostra sem isolar organismos individualmente —, os pesquisadores obtiveram uma imagem muito mais fiel da diversidade viral real. O volume de dados gerado foi processado pelo geNomad, ferramenta de bioinformática desenvolvida pelo professor Antônio Pedro Camargo, do Instituto de Química da USP, capaz de identificar genomas virais em meio a milhões de fragmentos genéticos.

A maioria dos vírus encontrados infecta bactérias, não humanos. Ainda assim, ao cruzar os dados com bases internacionais, os autores identificaram 60 vírus com alta probabilidade de infectar pessoas e 47 com potencial de acometer outros mamíferos. O estudo também encontrou 166 bacteriófagos ativos contra bactérias do grupo ESKAPE — microrganismos resistentes de relevância clínica —, abrindo caminho para pesquisas em fagoterapia.

O resultado prático é o UPVAtlas, um catálogo público que serve de ponto de partida para monitoramento contínuo. As curvas de acumulação de vírus inéditos nunca chegaram a estabilizar, sugerindo que os quase 55 mil vírus catalogados são apenas uma amostra do que existe. O esgoto destacou-se como o ambiente de maior diversidade viral, reforçando seu valor para a vigilância epidemiológica. Para Camargo, mapear essa diversidade é essencial: vírus evoluem constantemente, e compreender esse processo é o primeiro passo para antecipar as ameaças do futuro.

Cientistas mapearam um mundo invisível que circula sob nossos pés e nas superfícies que tocamos todos os dias. Um estudo internacional publicado em julho na revista Nature Communications analisou amostras coletadas em 102 cidades de 31 países — incluindo São Paulo — e catalogou 54.945 espécies virais, das quais aproximadamente 77% nunca haviam sido descritas pela ciência. O trabalho, que envolveu pesquisadores brasileiros, revelou que dezenas de milhares de vírus desconhecidos habitam estações de metrô, hospitais, redes de esgoto e outros ambientes de grande circulação humana.

A pesquisa nasceu de uma mudança de perspectiva fundamental. Durante décadas, os cientistas estudavam vírus a partir das doenças que causavam — dengue, gripe, COVID-19, febre amarela. Esse enfoque criava um ponto cego: ignorava completamente a vasta maioria dos vírus que não provocam infecções em humanos. Antônio Pedro Camargo, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo e um dos autores do estudo, explica que quando você procura um vírus partindo de uma doença específica, já existe um viés embutido. Ao analisar amostras sem esse filtro prévio, emerge uma imagem muito mais ampla da diversidade viral que realmente existe na natureza.

O trabalho utilizou uma técnica chamada metatranscriptômica, que permite sequenciar simultaneamente todas as moléculas de RNA presentes em uma amostra — sem precisar isolar cada organismo individualmente. Imagine um punhado de terra: ali convivem bactérias, vírus que infectam bactérias, outros microrganismos, insetos. Em vez de separar cada um, os pesquisadores extraem e sequenciam todo o conjunto de RNA. O resultado é um volume imenso de fragmentos genéticos sem identificação inicial — apenas sequências de letras. O desafio então se torna: cada pedaço de genoma corresponde a quê? É uma bactéria? Um vírus? Que tipo de vírus?

Essa triagem foi realizada com auxílio do geNomad, uma ferramenta de bioinformática desenvolvida por Camargo que processa milhões de sequências de fragmentos genéticos e identifica quais correspondem a genomas virais. Os pesquisadores então compararam as sequências de uma enzima presente em todos os vírus de RNA — a RdRP, responsável pela replicação viral — e reconstruíram as relações de parentesco entre eles. Alguns vírus se mostraram tão distintos de tudo o que já havia sido descrito que os autores propuseram criar duas novas categorias filogenéticas, além de uma nova classe e vários agrupamentos ainda sem classificação formal. Camargo ressalva que essas propostas são preliminares: análises computacionais precisam ser complementadas com mais informações para confirmar formalmente que esses são de fato grupos completamente novos.

O levantamento coletou 2.922 amostras entre março e julho de 2020, durante a pandemia de COVID-19. A maior parte — 1.862 amostras — veio do consórcio MetaSUB, que investiga o microbioma de ambientes urbanos. Os pesquisadores usavam cotonetes para coletar material de superfícies de contato frequente: corrimãos, bancos, máquinas de bilhetes. As demais amostras foram recuperadas de bancos públicos de dados e cobriam o entorno das cidades — solo, sedimento, água doce, esgoto, estufas. As curvas de acumulação, que medem quantos vírus inéditos aparecem a cada nova coleta analisada, nunca estabilizaram em praticamente nenhum tipo de amostra. Isso sugere que os quase 55 mil vírus catalogados representam apenas uma fração do que realmente existe nesses locais.

A descoberta não significa que as cidades estejam repletas de novos patógenos humanos. Os pesquisadores conseguiram propor um hospedeiro potencial para apenas um terço das sequências identificadas, e nesse conjunto, mais da metade corresponde a vírus que infectam bactérias. Uma parcela pequena, porém, tem potencial de infectar vertebrados. Ao cruzar os dados com a base VIRION, que reúne associações documentadas entre vírus e vertebrados, os autores identificaram 60 vírus com alta probabilidade de infectar humanos e 47 de acometer outros mamíferos. Dos 60 com potencial para infectar pessoas, 19 vieram de ambientes urbanos e 34 de amostras de origem animal. A pesquisa também identificou 166 bacteriófagos — vírus especializados em destruir bactérias — com histórico de infecção em linhagens do grupo ESKAPE, microrganismos de importância clínica como o Staphylococcus aureus. Esse conjunto abre uma possível linha de investigação sobre fagoterapia, o uso de vírus no combate a esses patógenos resistentes.

O catálogo resultante, batizado UPVAtlas (Atlas de Vírus de RNA Urbanos e Periurbanos), cria um ponto de partida para comparações futuras. Será possível confrontar o que existe em uma cidade hoje com o que existirá em dez anos e investigar como as comunidades virais mudam conforme o ambiente e a localização. Superfícies urbanas como ruas, bancos e estações apresentaram diversidade viral menor que ambientes naturais — indício de que a atividade humana tende a homogeneizar essas comunidades. O esgoto foi exceção notável, exibindo uma das maiores diversidades do levantamento, reforçando seu potencial para monitoramento ambiental. Para Camargo, conhecer essa diversidade é crucial porque os vírus estão em constante evolução, e esse processo está intimamente ligado à sua capacidade de infectar organismos. Os vírus só sobrevivem se conseguem se reproduzir nas células de hospedeiros — e quanto mais entendemos sobre essa diversidade, melhor preparados estamos para antecipar mudanças futuras.

Conhecíamos vários vírus causadores de doenças, mas subestimávamos muito a diversidade viral na natureza
— Antônio Pedro Camargo, professor do Instituto de Química da USP
Há uma diversidade viral muito grande, maior do que a gente já conhecia. Acho que esse é o ponto principal do artigo
— Antônio Pedro Camargo
Contáctanos FAQ