Dois barcos partiram de Rakhine em junho rumo à Malásia; um perdeu contato logo após partir e outro virou uma semana depois, sem relatos de resgate. Os rohingyas são apátridas perseguidos há décadas em Mimyanmar; cerca de 1 milhão vive em campos em Bangladesh com acesso mínimo a educação e emprego.
Mais de 500 rohingyas desaparecem em naufrágio na costa de Mianmar
São pessoas invisíveis
Por que essas pessoas estão dispostas a arriscar tudo em um barco?
Porque ficar significa não ter educação, não ter emprego, não ter futuro. Significa viver em um abrigo de bambu com mais de um milhão de outras pessoas, esperando ajuda internacional que diminui a cada ano. A Malásia representa a possibilidade de trabalho, de dignidade.
E os traficantes? Como eles ganham dinheiro com isso?
Cobram dos desesperados. Três mil dólares por pessoa — é tudo o que uma família pode reunir vendendo o pouco que tem. Os traficantes não se importam se o barco é seguro ou se há resgate. Eles já foram pagos.
Por que ninguém vem em socorro quando um barco está em perigo?
Porque está em águas internacionais, entre Bangladesh e Mianmar. Nenhum país se sente responsável. Se fossem cidadãos ocidentais, haveria helicópteros, navios de resgate, operações coordenadas. Mas rohingyas são invisíveis.
Nur Kalima continua dizendo aos filhos que o pai voltará em breve?
Sim. O que mais ela pode fazer? As crianças precisam de esperança. Mas ela sabe a verdade — sabe que Abdul Rahman provavelmente está morto há semanas, e ela está grávida do terceiro filho, sozinha em um campo de refugiados.
Isso vai mudar algo?
A ONU está pedindo esforços regionais e internacionais mais fortes. Mas a história se repete. Cinco mil rohingyas morreram afogados na última década. 2025 foi o ano mais mortal. E agora mais de 500 desapareceram em um mês. Sem mudanças estruturais — sem direitos, sem cidadania, sem oportunidades — as pessoas continuarão tentando fugir.
The Pulse
- Dois barcos partiram de Rakhine em junho rumo à Malásia; mais de 500 pessoas desaparecidas
- Mais de 1 milhão de rohingyas vivem em campos em Bangladesh desde sua expulsão há quase uma década
- Cerca de 5 mil rohingyas morreram afogados no mar na última década; 2025 foi o ano mais mortal
- Traficantes cobravam cerca de US$ 3 mil por pessoa para a travessia
Dois barcos partiram de Rakhine em junho rumo à Malásia; um perdeu contato logo após partir e outro virou uma semana depois, sem relatos de resgate. Os rohingyas são apátridas perseguidos há décadas em Mimyanmar; cerca de 1 milhão vive em campos em Bangladesh com acesso mínimo a educação e emprego.
Dois barcos com rohingyas naufragaram na costa de Mianmar em junho, com a ONU temendo mais de 500 mortes. A tragédia expõe a vulnerabilidade da minoria perseguida que tenta fugir dos campos de refugiados em Bangladesh.
Nur Kalima tem 24 anos e está grávida do terceiro filho. Quando seus dois filhos pequenos perguntam pelo pai, ela diz que ele voltará em breve. Mas há semanas ela vive com a certeza de que Abdul Rahman está morto, afogado em algum lugar do Oceano Índico.
Seis semanas antes do naufrágio, Abdul Rahman saiu do abrigo de bambu onde a família vivia nos campos de refugiados de Cox's Bazar, em Bangladesh. Uma semana depois, um homem desconhecido ligou para Nur Kalima exigindo cerca de três mil dólares para manter o marido em segurança — um sinal claro de que traficantes de pessoas estavam envolvidos na jornada. Ele disse que Abdul Rahman estava a caminho da Malásia, onde esperava construir uma vida melhor. As ligações pararam. Depois vieram as notícias sobre corpos chegando à costa de Mianmar.
Dois barcos partiram do estado de Rakhine, no oeste de Mianmar, no final de junho. Rakhine é a terra natal tradicional dos rohingyas, a minoria muçulmana perseguida que agora tenta desesperadamente sair do país. Um dos barcos perdeu contato logo após iniciar a viagem. O outro virou aproximadamente uma semana depois. A Organização das Nações Unidas teme que mais de 500 pessoas tenham morrido. Não há relatos de que alguém tenha vindo em socorro.
Os passageiros eram principalmente rohingyas — alguns deles haviam retornado a Mianmar vindos dos campos em Bangladesh, esperando encontrar oportunidades que não existem mais em seu país de origem. Mais de um milhão de rohingyas vivem agora nesses campos, expulsos de Mianmar há quase uma década. Lá, têm pouco ou nenhum acesso à educação ou emprego. A ajuda internacional vem diminuindo há anos. A escolha entre ficar e morrer lentamente de fome ou arriscar a vida no mar não é realmente uma escolha.
Na última década, cerca de cinco mil rohingyas morreram afogados no mar, segundo a ONU. O ano de 2025 foi o mais mortal já registrado. Em abril deste ano, acredita-se que 250 migrantes de Bangladesh, incluindo muitos rohingyas, morreram quando seu barco virou no Mar de Andamão. Mohammed Rafique, 26 anos, foi um dos poucos sobreviventes daquele navio. Ele descreveu condições tão desumanas que alguns viajantes haviam morrido sufocados no porão de pesca superlotado antes mesmo do barco virar. "Passei pelo pior e nunca encorajaria ninguém a fazer essa jornada", disse ele.
Lynn Htet, pesquisador birmanês do grupo de direitos humanos Fortify Rights, expressou desânimo com o fato de centenas de pessoas poderem desaparecer sem que o mundo entre em ação. "Se as pessoas nos barcos fossem do Ocidente, muitos países teriam se unido para formar grupos de busca. Mas os rohingyas não têm nenhuma influência. São pessoas invisíveis."
Os rohingyas são apátridas em seu próprio país e são perseguidos há décadas. Em 2017, o exército de Mianmar lançou uma operação de violência étnica contra eles que a ONU e os Estados Unidos classificam como genocídio. Hamid Ullah, 19 anos, era um dos moradores do campo em Bangladesh que retornou a Mianmar e acredita-se que estava em um dos barcos que naufragaram. Ele continua desaparecido. Seu cunhado, Nur Mohammed, disse: "O quarteirão inteiro está rezando por ele".
A ONU está pedindo atenção ao número crescente de viagens de barco que os rohingyas estão fazendo pelo Golfo de Bengala enquanto tentam fugir de dificuldades e perseguição, ou são enganados e colocados em barcos por traficantes. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e a Organização Internacional para as Migrações emitiram um comunicado conjunto pedindo esforços regionais e internacionais mais fortes para evitar mais perdas de vidas ao longo de uma das rotas marítimas mais mortais do mundo. Médicos Sem Fronteiras afirmou que a tragédia ressalta, mais uma vez, as consequências mortais da perseguição contínua, da violência e da negação de direitos básicos enfrentados pelo povo rohingya.
Notable Quotes
Passei pelo pior e nunca encorajaria ninguém a fazer essa jornada— Mohammed Rafique, 26 anos, sobrevivente de navio que virou em abril
Se as pessoas nos barcos fossem do Ocidente, muitos países teriam se unido para formar grupos de busca. Mas os rohingyas não têm nenhuma influência— Lynn Htet, pesquisador da Fortify Rights