Na fronteira entre o poder público e a vida privada, uma prefeita se viu no centro de uma noite que reuniu violência doméstica, silêncio institucional e a complexidade de quem escolhe não denunciar. Em Guajará-Mirim, Rondônia, o chamado veio da mãe — não da vítima —, revelando como o ciclo da violência muitas vezes encontra sua voz nos que estão ao redor antes de encontrá-la em quem sofre. O caso, agora nas mãos da Polícia Civil, lembra que a lei pode avançar mesmo quando a vítima recua.
Mãe de prefeita aciona PM após suposta agressão em Guajará, RO
Resolveria o assunto com o marido, disse a prefeita aos policiais
Por que a mãe dela chamou a polícia se a filha não queria denunciar?
Porque o que ela viu — ou acreditou ver — era grave o suficiente para não deixar passar. Às vezes quem está dentro da situação não consegue enxergar com clareza.
E o marido, o que ele disse que aconteceu?
Que ela estava brava, bebida, e que foi ela quem partiu para cima dele. Mas havia uma TV quebrada e objetos espalhados. Alguém quebrou algo.
Uma testemunha disse que ela apenas caiu?
Sim. Disse que não viu agressão, que foi um escorregão em chão molhado. Mas testemunhas em situações assim são complicadas — nem sempre veem tudo, nem sempre falam tudo que viram.
Ela já tinha pedido proteção contra ele antes?
Tinha. Medidas protetivas. E os filhos pequenos dela já tinham visto violência entre os pais. Isso não desaparece de uma noite para a outra.
Então por que ela recusou a denúncia?
Porque estava ali, naquele momento, com o marido, com a polícia na casa, com medo talvez de consequências. Ou porque acreditava mesmo que foi só uma queda. Ou porque não se via como vítima. As pessoas raramente fazem o que parece lógico de fora.
The Pulse
- A mãe da prefeita acionou a PM ao presenciar o que descreveu como espancamento — um grito de socorro que a própria filha se recusou a ecoar.
- Policiais chegaram a uma casa em desordem: televisão quebrada, objetos espalhados, e três versões contraditórias dos fatos esperando por eles.
- Raissa da Silva Paes negou a agressão, recusou exame de corpo de delito e dispensou o abrigo oferecido, afirmando que resolveria o caso diretamente com o marido.
- O histórico pesa: medidas protetivas anteriores, filhos de 3 e 6 anos que já presenciaram violência, e um padrão documentado que o silêncio desta noite não apaga.
- O caso foi encaminhado à Polícia Civil, que pode investigar independentemente da vontade da vítima em formalizar a denúncia.
Na fronteira entre o poder público e a vida privada, uma prefeita se viu no centro de uma noite que reuniu violência doméstica, silêncio institucional e a complexidade de quem escolhe não denunciar. Em Guajará-Mirim, Rondônia, o chamado veio da mãe — não da vítima —, revelando como o ciclo da violência muitas vezes encontra sua voz nos que estão ao redor antes de encontrá-la em quem sofre. O caso, agora nas mãos da Polícia Civil, lembra que a lei pode avançar mesmo quando a vítima recua.
Na noite de 15 de janeiro, a mãe da prefeita de Guajará-Mirim acionou a Polícia Militar relatando que a filha estava sendo espancada pelo marido, Antônio Bento do Nascimento, 55 anos. Quando os policiais chegaram à residência no bairro Serraria, encontraram uma televisão quebrada e objetos espalhados pelo chão.
A prefeita Raissa da Silva Paes contou que ela e o marido haviam começado a beber por volta das 18h, que uma discussão escalou e que Antônio a empurrou, fazendo-a cair no chão molhado e machucar o joelho esquerdo. Ainda assim, recusou-se a registrar queixa formal, a fazer exame de corpo de delito e a aceitar o abrigo temporário oferecido pela PM, dizendo que resolveria o assunto diretamente com o marido. Antônio, por sua vez, afirmou que foi a esposa quem se exaltou e partiu para cima dele, e ainda ameaçou representar contra os policiais por entrada sem autorização.
O que confere gravidade ao episódio é o que veio antes: Raissa já havia solicitado medidas protetivas de urgência contra o marido, e os dois filhos do casal — de 3 e 6 anos — chegaram a presenciar atos de violência anteriores. O padrão estava documentado, mesmo que a noite de sábado tenha terminado sem uma denúncia formal. O caso foi encaminhado à Polícia Civil, que pode dar prosseguimento à investigação independentemente da recusa da vítima em denunciar.
Na noite de sábado, 15 de janeiro, a mãe da prefeita de Guajará-Mirim acionou a Polícia Militar após presenciar o que descreveu como uma agressão contra a filha. O chamado chegou ao Ciop informando que a mulher estava sendo espancada pelo marido, Antônio Bento do Nascimento, 55 anos. A ocorrência foi registrada no bairro Serraria, onde fica a residência da prefeita Raissa da Silva Paes, filiada ao MDB.
Quando os policiais chegaram ao local, encontraram uma cena de desordem: uma televisão de LED quebrada e diversos objetos espalhados pelo chão. Raissa explicou aos agentes que ela e o marido haviam começado a beber por volta das 18h e que, em algum momento da noite, uma discussão escalou. Segundo seu relato, Antônio a empurrou e ela caiu no chão molhado, resultando em uma lesão no joelho esquerdo. Apesar da situação, a prefeita recusou-se a fazer um registro formal da agressão ou submeter-se a um exame de corpo de delito. Ela afirmou que resolveria o assunto diretamente com o marido.
Antônio ofereceu uma versão diferente dos fatos. Disse aos policiais que a esposa havia ingerido bebida alcoólica, exaltado-se e "partido para cima dele". Ele também informou que pretendia representar contra os policiais por terem entrado em sua casa sem autorização. Uma testemunha que estava presente relatou à PM uma narrativa distinta: afirmou que não havia havido agressão e que Raissa simplesmente havia perdido o equilíbrio no chão molhado e caído.
O que torna este episódio particularmente significativo é o histórico que o precede. Raissa já havia registrado ocorrências policiais anteriormente e solicitado medidas protetivas de urgência contra Antônio. Segundo documentos, os dois filhos do casal — uma criança de 6 anos e outra de 3 — chegaram a presenciar atos de violência praticados pelo marido. Embora não haja relatos de ameaças ou agressões físicas nos últimos meses e nenhum descumprimento anterior das medidas protetivas, o padrão de comportamento estava documentado.
Durante o atendimento, a PM ofereceu abrigo temporário fornecido por órgão público, mas Raissa recusou, alegando não considerar haver risco iminente de morte. A guarnição registrou a ocorrência e encaminhou o caso para a Polícia Civil, que deverá dar prosseguimento independentemente da recusa da prefeita em formalizar uma denúncia. O caso segue aberto, com a investigação agora nas mãos da polícia judiciária.
Notable Quotes
Raissa afirmou que desde às 18h estavam consumindo bebidas alcoólicas e que em determinado momento acabaram discutindo, quando Antônio a empurrou e ela caiu no chão— Relato de Raissa da Silva Paes à Polícia Militar
Antônio disse que a esposa estava ingerindo bebida alcoólica, havia se exaltado e 'partiu para cima dele'— Versão de Antônio Bento do Nascimento aos policiais