Lula tenta se afastar de Moraes, mas corre risco de criar armadilha eleitoral

Se isso virar um show de horrores, acabou para o Lula
Estrategista eleitoral avalia risco de embate público no STF manter Supremo no centro da agenda a vinte dias da eleição.
Mark

Por que Lula não consegue simplesmente se afastar de Moraes agora e pronto?

Mimi

Porque estão vinculados na percepção pública há anos. Um rompimento abrupto a vinte dias da eleição parece menos princípio e mais fuga.

Luke

Mas ele já está tentando se afastar — citou Moraes nominalmente, defendeu investigação. Isso não está funcionando?

Mimi

Não. O núcleo da campanha avalia que a percepção negativa sobre Moraes recaiu diretamente sobre Lula. Quanto mais tenta se separar, mais parecem ligados.

Mark

E se Lula pedisse publicamente que Moraes se licenciasse?

Mimi

Essa é a orientação de parte do staff petista. Mas Lula já tentou isso em abril, em conversa reservada, e foi desestimulado por ministros aliados como Gilmar e Dino.

Luke

Espera — Moraes é tão importante assim para o governo?

Mimi

Muito. Ele articulou a reaproximação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o que permitiu aprovar a medida que zerou a taxa das blusinhas. Sem Moraes, isso não acontecia.

Mark

Então Lula está preso a Moraes por gratidão política?

Mimi

E por medo. Estrategistas acreditam que Lula teme uma reação de Moraes a um afastamento. Se não tivesse medo, já teria se afastado há muito tempo.

Luke

Qual é o risco real aqui? A sessão de terça-feira?

Mimi

Sim. Se virar um embate público no plenário, o Supremo fica no centro da agenda eleitoral, e Mendonça aparece como o lado correto enquanto Moraes é visto como vilão. Lula perde o controle da narrativa.

Mark

Então Lula está entre a espada e a parede?

Mimi

Exatamente. Se se afasta, parece culpado. Se não se afasta, fica ligado a Moraes. E se a sessão de terça virar um show de horrores, acabou para ele naquele dia.

Luke

Mas isso tudo depende de como a sessão vai acontecer, certo? Gilmar pediu adiamento.

Mimi

Verdade. Ainda há espaço para negociação nos bastidores. Mas o tempo está acabando.

  • Lula citou nominalmente Moraes em entrevista ao SBT na quinta-feira anterior, defendendo investigação sobre irregularidades
  • Moraes articulou reaproximação entre Lula e presidente do Senado Davi Alcolumbre, permitindo aprovação de medida que zerou taxa das blusinhas em 3 de setembro
  • Sessão extraordinária do STF prevista para terça-feira analisará relatório da Polícia Federal envolvendo Moraes
  • Faltam aproximadamente vinte dias para o pleito eleitoral

Presidente tenta blindar sua imagem separando-se de Moraes, citando nominalmente o ministro e defendendo investigação sobre irregularidades. Aliados petistas consideram necessário que Lula peça publicamente licença de Moraes, mas ministros como Gilmar e Dino desestimulam o afastamento.

Lula ensaia descolamento do ministro Alexandre de Moraes em meio à crise no STF, mas estrategistas alertam que o movimento pode soar como confissão de culpa a 20 dias da eleição.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um dilema político delicado: quanto mais tenta se distanciar do ministro Alexandre de Moraes, mais parece estar preso a ele. A crise no Supremo Tribunal Federal criou uma situação em que o afastamento pode soar menos como princípio e mais como conveniência eleitoral, justamente quando faltam três semanas para o pleito.

Nos últimos dias, Lula começou a mudar o tom. Em entrevista ao SBT na quinta-feira anterior, citou nominalmente Moraes ao tratar do caso Master, questionando quem seria culpado de verdade e afirmando que, se o ministro tivesse cometido irregularidades, deveria responder por elas. Antes disso, o presidente já havia se referido a Moraes como "ministro de Michel Temer", tentando desvinculá-lo de sua administração. O núcleo da campanha petista avalia que a percepção negativa sobre a atuação do magistrado recaiu diretamente sobre Lula, e parte do staff considera necessário um posicionamento público mais incisivo. A orientação central é que o presidente peça publicamente que Moraes se licencie da Corte para se defender das revelações recentes sobre sua relação com Daniel Vorcaro e o Banco Master.

Mas esse movimento não é novo. Em abril, em conversa reservada, Lula já havia demonstrado preocupação com o impacto das denúncias, lembrando a Moraes que ele havia construído uma biografia histórica com o julgamento do 8 de janeiro e pedindo que não permitisse que o caso Vorcaro destruísse essa reputação. Na época, o presidente também defendeu que o ministro desse explicações à sociedade e se declarasse impedido de atuar no caso. Porém, foi desestimulado por ministros aliados como Gilmar Mendes e Flávio Dino, que pediram a Lula para não atacar Moraes.

O problema é que Moraes não é um aliado qualquer. Ele teve atuação central no Tribunal Superior Eleitoral em 2022, conduziu processos que atingiram Jair Bolsonaro e participou de articulações políticas entre o governo e o Congresso. Um episódio recente ilustra essa importância: Moraes articulou a reaproximação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que estavam afastados desde a rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF. Alcolumbre resistia a votar a medida provisória que zerava a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada "taxa das blusinhas". Graças à reaproximação facilitada por Moraes, a medida foi aprovada pelo Senado em 3 de setembro e sancionada por Lula na quinta-feira anterior, evitando o retorno da cobrança. Largar a mão de quem fez isso é politicamente custoso.

Estrategistas eleitorais alertam que o movimento pode ser contraproducente. Roberto Reis, estrategista eleitoral, avalia que uma tentativa de desvinculação neste momento pode soar como confissão de culpa. Lula e Moraes estão vinculados na percepção pública depois de anos de proximidade, e uma separação a cerca de vinte dias da eleição poderia produzir mais notícias sobre a relação entre os dois do que efetivamente afastá-los aos olhos do eleitor. Reis compara a situação com outros momentos em que Lula "rifou" politicamente aliados como José Dirceu, José Genoíno e Antonio Palocci, mas aponta que a principal diferença é o tempo. A campanha teria pouco mais de três semanas para produzir esse efeito, e um rompimento neste momento continuaria alimentando o noticiário, soando como conveniência. Além disso, Reis acredita que Lula teme uma reação de Moraes a um eventual afastamento. "Se ele não tivesse medo, já teria largado a mão dele há muito tempo", diz o estrategista.

O cenário pode piorar significativamente na terça-feira seguinte, quando o plenário do STF está previsto para realizar uma sessão extraordinária para analisar o relatório da Polícia Federal que envolve Moraes. A expectativa era de uma sessão aberta, mas Gilmar Mendes enviou um ofício pedindo o adiamento e sugerindo que o relatório produzido a pedido de Moraes e que mira André Mendonça seja incorporado ao debate. O principal embate envolve a regularidade da determinação de Mendonça para aprofundar a apuração dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro. A Procuradoria-Geral da República pediu a nulidade do relatório, argumentando que houve irregularidades na investigação.

Para Reis, um embate público no plenário seria especialmente ruim para o presidente porque manteria o Supremo no centro da agenda justamente quando a campanha tenta recolocar a disputa eleitoral como assunto principal. Na opinião pública, André Mendonça está aparecendo como o lado correto e Moraes como o vilão. Se houver uma briga aberta entre eles, o presidente não conseguirá mais tirar o assunto da campanha. Como disse o estrategista: "Se isso virar um show de horrores, acabou para o Lula naquele dia".

Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar
— Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao SBT
Lula teme muito uma reação do Alexandre. Se ele não tivesse medo, já teria largado a mão dele há muito tempo
— Roberto Reis, estrategista eleitoral
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