Lula repete padrão de aumento de gastos em ano eleitoral, como Dilma e Bolsonaro

Estímulo numa economia já aquecida pressiona inflação
O ciclo político de 2026 difere de 2022 porque o estímulo ocorre quando a economia já opera aquecida, criando risco inflacionário.
Mark

Por que esse padrão de gastos em ano eleitoral se repete? É só oportunismo político?

Mimi

Não é tão simples. Há uma lógica política clara — presidentes que buscam reeleição têm incentivo para melhorar a situação econômica imediata dos eleitores. Mas o que o Ibre documenta é que isso aconteceu em três das quatro últimas eleições, e sempre concentrado nas semanas finais.

Luke

Espera aí. Você está dizendo que é um padrão, mas 2018 quebrou a sequência. Michel Temer não disputou reeleição e o gasto permaneceu próximo do nível de referência. Então não é automático — depende de quem está no poder e se quer continuar.

Mimi

Exato. É uma escolha. E quando fazem essa escolha, como Dilma, Bolsonaro e Lula fizeram, o impacto fiscal é real. No caso de Lula, R$ 33 bilhões não previstos no orçamento.

Mark

Mas o governo argumenta que o aumento do Bolsa Família foi só reposição de inflação. Isso é defensável?

Luke

Tecnicamente, talvez. Mas a IFI aponta que essa correção não estava prevista na peça orçamentária enviada ao Congresso 17 dias antes do anúncio. Então não era um ajuste automático — foi uma decisão tomada no meio do caminho eleitoral.

Mimi

E há um contexto fiscal mais amplo. O Brasil está em déficit primário há 13 anos. A dívida pública subiu de 71% do PIB quando Lula assumiu para 82,5% agora. Cada real gasto sem receita correspondente piora esse quadro.

Mark

Então o próximo presidente herda um problema maior?

Mimi

Sim. Os R$ 33 bilhões de impacto das medidas recentes tendem a agravar um problema fiscal já contratado. E a IFI ainda aponta que o orçamento subestima despesas e superestima receitas em R$ 100 bilhões.

Luke

Mas preciso ser claro: a IFI é uma instituição, tem uma visão. O governo tem outra. Quando a IFI projeta 1,8% de crescimento do PIB em 2027 e o governo projeta 2,4%, isso muda toda a conta de receita. Não é fraude — é desacordo técnico legítimo.

Mimi

Verdade. Mas há algo mais preocupante que transcende essas projeções. O estímulo está acontecendo numa economia já aquecida. Em 2022, ajudou uma economia que precisava. Agora está sendo pró-cíclico, pressionando mais a demanda quando ela já está alta.

Mark

O que significa isso na prática?

Mimi

Risco de inflação. Quando você estimula uma economia que já está funcionando a plena capacidade, você não cria mais produção — cria mais pressão nos preços.

Luke

E isso é um problema que o próximo presidente vai herdar também, independentemente de quem seja.

  • Dilma (2014), Bolsonaro (2022) e Lula (2026) aceleraram despesas públicas em anos eleitorais
  • Medidas recentes custam R$ 33 bilhões e não estavam previstas no orçamento enviado ao Congresso
  • Dívida pública subiu de 71% do PIB para 82,5% desde o início do governo Lula
  • Brasil está em déficit primário há 13 anos consecutivos
  • Estímulo de 2026 é pró-cíclico, diferente de 2022 que foi anticíclico

Dilma (2014), Bolsonaro (2022) e Lula (2026) aceleraram despesas públicas em anos eleitorais, concentrando medidas nas semanas finais de campanha. Medidas recentes do governo, como aumento do Bolsa Família e Desenrola 3, custam R$ 33 bilhões e não estavam previstas no orçamento enviado ao Congresso.

Pesquisa do Ibre/FGV mostra que Lula repetiu padrão de presidentes em reeleição ao expandir gastos públicos na reta final eleitoral, com impacto fiscal de R$ 33 bilhões não previsto no orçamento.

Três presidentes em busca de reeleição, três estratégias semelhantes: abrir os cofres públicos nas semanas finais de campanha. Dilma Rousseff em 2014, Jair Bolsonaro em 2022 e Lula agora repetem um padrão que economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas documentaram com precisão. A pesquisa, apresentada na Carta do Ibre de setembro e assinada pelo economista Luiz Guilherme Schymura, compara o gasto primário federal em diferentes ciclos eleitorais, corrigindo pela inflação e removendo efeitos sazonais. Para facilitar a comparação, o gasto registrado sete trimestres antes de cada eleição foi fixado em 100.

Em 2014, Dilma acelerou as despesas ao longo do ano, chegando ao trimestre anterior à votação cerca de 10% acima do nível de referência. No trimestre eleitoral em si, permaneceram cerca de 8 pontos percentuais acima dessa base. Com 51,64% dos votos no segundo turno, ela derrotou Aécio Neves. Bolsonaro seguiu roteiro parecido em 2022, mas com timing diferente. No segundo trimestre daquele ano, as despesas ainda estavam praticamente no mesmo patamar de sete trimestres antes. Entre julho e setembro, porém, deram um salto e ficaram cerca de 11 pontos percentuais acima da base. Naquelas semanas que antecederam o segundo turno, Bolsonaro concentrou uma série de anúncios: antecipação do pagamento do Auxílio Brasil para que os depósitos terminassem antes da votação, inclusão de cerca de 500 mil famílias no programa, início do crédito consignado para beneficiários de programas sociais via Caixa Econômica Federal, além de benefícios para taxistas e caminhoneiros. Também foram anunciadas linhas de crédito para mulheres empreendedoras e uso do FGTS futuro para financiamento de imóveis. Nada disso impediu a derrota: Lula foi eleito com 50,83% dos votos, na eleição mais apertada desde a Redemocratização.

Lula agora segue o mesmo caminho. Segundo a Instituição Fiscal Independente, vinculada ao Senado, as medidas anunciadas pelo presidente devem custar ao menos R$ 33 bilhões para o próximo governo, sem previsão no projeto de lei orçamentária anual já enviado ao Congresso. O aumento do Bolsa Família, justificado pelo governo como mera reposição da inflação, custará R$ 23 bilhões no próximo ano. A legislação eleitoral proíbe novos gastos em período eleitoral, mas o governo tem o argumento jurídico de que apenas repôs a inflação — ainda que essa correção não estivesse prevista na peça orçamentária enviada ao Congresso 17 dias antes do anúncio.

O economista Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, reconhece que é comum democracias gastarem mais em anos eleitorais. Mas o Brasil enfrenta uma situação cronicamente desfavorável: o país completa 13 anos de déficit primário, ou seja, gastando mais do que arrecada, sem contar os juros da dívida. Quando Lula assumiu, a dívida pública representava 71% do PIB; hoje atinge 82,5%. Os R$ 33 bilhões de impacto das medidas mais recentes tendem a agravar um problema fiscal já contratado para o próximo presidente. A IFI também aponta que o projeto de lei orçamentária subestima despesas e superestima receitas. A diferença entre a conta do governo e a análise da instituição atinge R$ 100 bilhões, sem contar as últimas medidas. O governo considera um crescimento do PIB de 2,4% em 2027, enquanto a IFI projeta 1,8%, o que repercute na arrecadação esperada.

Os economistas Manoel Pires e Bráulio Borges, citados na Carta do Ibre, mapearam R$ 254,8 bilhões em medidas de estímulo no período atual. Desse total, R$ 183,4 bilhões, ou 72%, são iniciativas relacionadas a crédito, que em grande parte não aparecem como gasto primário no Orçamento. Deixando de fora ações recorrentes e medidas associadas à guerra no Oriente Médio, o núcleo do pacote de estímulos soma R$ 190,1 bilhões, dos quais R$ 166,7 bilhões, ou 88%, estão ligados a crédito. Entre as políticas mais diretamente associadas ao ciclo político estão o Desenrola e o Move Brasil, voltado ao financiamento de caminhões e motoristas de aplicativos. O Ibre também menciona ampliação de crédito para micro e pequenas empresas, linhas para indústria 4.0, financiamentos para empresas aéreas e expansão do Minha Casa, Minha Vida. Há uma ressalva importante: nem toda política de crédito lançada ou ampliada em 2026 pode ser atribuída diretamente à eleição. O Brasil Soberano, criado em reação ao tarifaço, e programas de financiamento de bens de capital verde têm fontes tradicionais como o FAT.

Mas existe uma diferença crítica entre este ciclo e o de 2022. O estímulo de agora ocorre numa economia já aquecida. O hiato do produto, que compara o que o país produz com o que poderia produzir sem pressionar os preços, está positivo. Em 2022, o impulso do gasto foi anticíclico, ajudando a puxar uma economia que precisava de fôlego. Em 2026, o impulso está sendo pró-cíclico, ou seja, estímulos adicionais pressionam mais a demanda numa economia já aquecida, aumentando o risco de alta da inflação. A Carta do Ibre conclui que, embora o ciclo político deste ano não pareça deixar uma herança fiscal negativa forte para o próximo mandato, o estímulo de crédito dado numa economia já muito alavancada é um elemento adicional a se considerar na complicada equação de política econômica para 2027.

É um pouco da dinâmica de qualquer democracia governos gastarem um pouco mais no ano eleitoral, mas aqui nós temos uma situação cronicamente desfavorável, que é o fato do país completar 13 anos de déficit primário
— Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI
Contact Us FAQ