Em um momento em que minerais críticos e terras-raras tornaram-se moeda de poder geopolítico, o presidente Lula invocou a memória colonial do Brasil para justificar uma postura de soberania irredutível sobre esses recursos. Diante de representantes do campo, das águas e das florestas, ele não apenas pronunciou palavras — respaldou-as com a criação de um conselho especializado e a assinatura de dezesseis decretos que traduzem intenção em estrutura institucional. O gesto situa o Brasil em um debate mais amplo sobre quem, afinal, tem o direito de decidir o destino das riquezas do sul global.
Lula promete defender minerais críticos do Brasil contra potências estrangeiras
Quem levanta o nariz somos nós, quem cuida das nossas coisas somos nós
Quando Lula fala em "potências estrangeiras" usando minerais críticos, ele está sendo específico sobre quem são essas potências, ou é mais uma denúncia genérica?
Ele não nomeia ninguém diretamente nos discursos citados. Mas o contexto do Fórum Celac-África sugere que está falando de nações ricas em geral — provavelmente pensando em Estados Unidos, China, Europa. A estratégia parece ser manter a crítica ampla enquanto constrói uma posição defensiva.
Exatamente. E aí está o problema: não sabemos quais negociações específicas o preocupam, ou se há ameaças concretas em andamento. O conselho foi criado em 2025, mas não há detalhes públicos sobre o que ele já fez ou recomendou.
O conselho especializado que ele menciona — como funciona? Quem está nele?
Lula diz que foi criado para assessorar decisões sobre minerais críticos e soberania. Mas a reportagem não traz nomes de membros, orçamento, ou como ele se relaciona com ministérios existentes.
Isso é um vazio importante. Um conselho pode ser muito ou muito pouco, dependendo de quem está nele e se tem poder real de veto ou apenas consultivo. Sem esses detalhes, é difícil avaliar se é um instrumento de proteção real ou mais um gesto simbólico.
Ele conecta a exploração histórica — ouro, prata, diamantes, escravidão — com a ameaça atual aos minerais críticos. Essa comparação faz sentido?
Faz sentido retórico e historicamente. O Brasil foi explorado por séculos. Mas os minerais críticos — lítio, cobre, níquel — são diferentes. Hoje há demanda global legítima por esses recursos para tecnologia limpa. A questão é se o Brasil consegue negociar preços justos e manter controle sobre a extração.
E aí está a nuance que o discurso não toca. Não é apenas "não deixar levar". É como extrair, processar, e vender esses minerais de forma que beneficie o Brasil. A retórica de soberania é importante, mas os detalhes da política econômica importam mais.
Le Pouls
- A disputa global por minerais críticos chegou ao centro do discurso político brasileiro, com Lula alertando que potências ricas usam 'força e poder' para recolonizar nações da América Latina e da África.
- O presidente conectou a ameaça atual a séculos de exploração — ouro, prata, diamantes, trabalho escravizado — argumentando que o padrão persiste, apenas com novos recursos em jogo.
- Para além da retórica, o governo criou em 2025 um conselho especializado para assessorar decisões presidenciais sobre minerais críticos e soberania nacional, institucionalizando a postura defensiva.
- Durante a Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural, foram assinados nove decretos de políticas estruturantes e sete de reforma agrária, além da formalização de 17 títulos para territórios quilombolas.
- A verdadeira prova dessa estratégia virá nas negociações futuras: se o Brasil conseguirá manter a soberania proclamada diante de potências que também cobiçam esses minerais.
Em um momento em que minerais críticos e terras-raras tornaram-se moeda de poder geopolítico, o presidente Lula invocou a memória colonial do Brasil para justificar uma postura de soberania irredutível sobre esses recursos. Diante de representantes do campo, das águas e das florestas, ele não apenas pronunciou palavras — respaldou-as com a criação de um conselho especializado e a assinatura de dezesseis decretos que traduzem intenção em estrutura institucional. O gesto situa o Brasil em um debate mais amplo sobre quem, afinal, tem o direito de decidir o destino das riquezas do sul global.
Na terça-feira, 24 de março, Lula abriu a Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário com uma declaração que vem repetindo há semanas: o Brasil não entregará seus minerais críticos a potências estrangeiras. "Nesse país, quem levanta o nariz somos nós", afirmou, sem nomear adversários, mas com clareza sobre a direção do recado.
Para fundamentar a posição, o presidente recorreu à história. Evocou o ouro, a prata e os diamantes levados durante a colonização, o extermínio de povos indígenas e os 330 anos de escravidão — conectando esse passado ao que ele enxerga como uma nova forma de exploração, agora centrada em minerais críticos e terras-raras. Dias antes, no Fórum Celac-África, já havia denunciado que nações ricas buscam "colonizar outra vez" o sul global por meio desses recursos.
O governo não ficou apenas no discurso. Em 2025, Lula criou um conselho especializado para assessorar decisões presidenciais sobre minerais críticos e soberania nacional — estrutura que reafirmou durante a cerimônia como instrumento de proteção dos interesses brasileiros. Na mesma ocasião, foram assinados nove decretos de desenvolvimento rural e sete de reforma agrária, além de 17 títulos para territórios quilombolas, com a presença dos ministros Paulo Teixeira e Anielle Franco.
O que emerge é uma estratégia que entrelaça soberania mineral, desenvolvimento rural e justiça histórica. Os decretos mostram que a retórica caminha ao lado da ação administrativa — mas a medida real dessa política será definida nas negociações que o Brasil travar nos próximos anos com as potências que também cobiçam o que há no seu subsolo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco na terça-feira, 24 de março, para abrir a Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário e deixou clara uma posição que vem repetindo há semanas: o Brasil não cederá seus minerais críticos a potências estrangeiras. Sem nomear adversários específicos, ele foi direto: "Nesse país, quem levanta o nariz somos nós, quem cuida das nossas coisas somos nós e ninguém mais vai cuidar".
A declaração não era retórica vazia. Lula invocou o peso da história colonial brasileira para fundamentar sua posição. "Eles já levaram todo o ouro, toda a prata e todos os diamantes que a gente tinha. Já mataram todos os índios, já escravizaram negros durante 330 anos", disse, conectando a exploração de séculos passados ao que ele vê como uma ameaça contemporânea. A mensagem era clara: não permitirá que o ciclo se repita com os recursos minerais que o país possui hoje.
Essa não é a primeira vez que o presidente articula essa preocupação. Dias antes, em 21 de março, durante o Fórum Celac-África, Lula havia afirmado que nações ricas buscam ser "donos dos minérios críticos e das terras-raras", utilizando-se de "força e poder" para "colonizar outra vez" povos da América Latina e África. O tom é consistente: uma denúncia de que a dinâmica de exploração persiste, apenas com novos nomes e novos recursos.
Para dar substância a essas palavras, o governo já tomou medidas institucionais. Em 2025, Lula criou um conselho especializado encarregado de assessorar decisões presidenciais sobre minerais críticos, terras-raras e soberania nacional. Durante a cerimônia de terça-feira, ele reafirmou a existência desse órgão como instrumento de proteção dos interesses brasileiros. O conselho funciona como uma estrutura de vigilância e deliberação sobre como o país negocia e protege seus ativos minerais.
O evento em si foi produtivo além do discurso. O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, e a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, acompanharam o presidente. Durante a cerimônia, o governo assinou nove decretos voltados para políticas estruturantes de desenvolvimento rural e sete decretos adicionais dedicados à reforma agrária. Também foram formalizados 17 títulos para nove territórios quilombolas. A conferência, que segue até 27 de março, reúne representantes de todo o país para definir diretrizes de políticas públicas para povos do campo, das águas e das florestas.
O que emerge dessa sequência de eventos é uma estratégia governamental que conecta soberania mineral com desenvolvimento rural e justiça social. Não se trata apenas de proteger recursos do subsolo, mas de afirmar que quem decide o destino desses recursos é o povo brasileiro, não interesses externos. O conselho criado em 2025 representa a institucionalização dessa intenção. Os decretos assinados nesta semana mostram que a retórica está sendo acompanhada por ação administrativa, ainda que a verdadeira medida de sucesso dessa política dependa de como o Brasil negocia nos próximos anos com potências que também cobiçam esses minerais.
Citations marquantes
Eles já levaram todo o ouro, toda a prata e todos os diamantes que a gente tinha. Já mataram todos os índios, já escravizaram negros durante 330 anos— Presidente Lula, na abertura da 3ª CNDRSS
Países ricos querem ser donos dos minérios críticos e das terras-raras, utilizando força e poder para colonizar outra vez povos latino-americanos e africanos— Lula, no 1º Fórum Celac-África em 21 de março