Num gesto que mistura diplomacia e pragmatismo econômico, os presidentes Lula e Trump conversaram por mais de uma hora sobre as tarifas americanas que pesam sobre 5,8 bilhões de dólares em exportações brasileiras. O Brasil contesta as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos e busca, pela via do diálogo, preservar uma parceria comercial que considera vital para ambos os países. A conversa, descrita como cordial, não resolve o impasse imediatamente, mas mantém aberta a porta da negociação numa relação que tem oscilado entre tensão e aproximação.
Lula liga para Trump e defende negociação sobre tarifas; americano propõe reunião de equipes
Grandes líderes não iniciam guerras, mas as encerram
Por que Lula decidiu ligar para Trump agora, especificamente?
Ele indicou a aliados no início do mês que buscaria essa conversa. As tarifas estavam causando dano real — 5,8 bilhões de dólares em exportações afetadas. Era o momento de tentar mudar a trajetória.
Trump concordou com tudo que Lula disse?
Não exatamente. Trump concordou que os vínculos comerciais precisam ser preservados, mas propôs que as equipes se reunissem para negociar. Isso é diferente de aceitar os argumentos brasileiros.
E quanto à questão das facções criminosas serem terroristas?
Lula rejeitou essa classificação. Disse que grupos criminosos causam terror, sim, mas não são organizações terroristas no sentido internacional. O Brasil tem leis para lidar com eles. É uma distinção importante para a soberania.
Qual é a história por trás dessa relação tensa entre os dois?
Começou com Trump culpando Lula de perseguir Bolsonaro. Depois houve um encontro de 39 segundos na ONU que mudou tudo — Trump saiu dizendo que tiveram química excelente. Desde então, oscilam entre tensão e aproximação.
O Brasil vai realmente avançar com esse processo de reciprocidade?
O governo acha que não este ano. Há cautela deliberada. Eles não querem tomar decisões precipitadas que piorem as coisas. A ideia é manter a negociação viva enquanto as equipes trabalham nos detalhes.
Então essa ligação foi uma vitória para Lula?
Foi um passo. Mantém a porta aberta. Mas as tarifas continuam em vigor, e os setores brasileiros — madeira, móveis, calçados, açúcar — continuam sofrendo. O real teste será o que as equipes conseguem negociar.
El Pulso
- Tarifas de 25% e 12,5% impostas pelos EUA ameaçam setores inteiros da economia brasileira, de calçados a máquinas, num golpe que o governo Lula classifica como politicamente motivado.
- O Brasil notificou formalmente os Estados Unidos sobre um processo de reciprocidade, mas o círculo petista avalia que nenhuma retaliação significativa ocorrerá ainda em 2026.
- Lula usou a ligação para desmontar, uma a uma, as alegações americanas — desmatamento, propriedade intelectual, trabalho forçado — argumentando que carecem de fundamento técnico.
- Trump concordou com a importância dos laços comerciais e propôs que as equipes dos dois países se reúnam em breve, sinalizando disposição para negociar sem ceder formalmente.
- A conversa também tocou em segurança e geopolítica: Lula rejeitou a classificação de facções criminosas como terroristas e propôs uma reunião extraordinária da ONU para buscar saídas diplomáticas nos conflitos globais.
Num gesto que mistura diplomacia e pragmatismo econômico, os presidentes Lula e Trump conversaram por mais de uma hora sobre as tarifas americanas que pesam sobre 5,8 bilhões de dólares em exportações brasileiras. O Brasil contesta as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos e busca, pela via do diálogo, preservar uma parceria comercial que considera vital para ambos os países. A conversa, descrita como cordial, não resolve o impasse imediatamente, mas mantém aberta a porta da negociação numa relação que tem oscilado entre tensão e aproximação.
Lula e Trump conversaram por uma hora e vinte minutos numa ligação que o Palácio do Planalto descreveu como amistosa. O presidente brasileiro aproveitou o tempo para contestar as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil — uma sobretaxa de 25% específica ao país, em vigor desde 22 de julho, e uma adicional de 12,5% que atinge outras nações. Juntas, essas medidas afetam 5,8 bilhões de dólares em exportações brasileiras, incluindo madeira, móveis, calçados e açúcar.
Lula argumentou que as justificativas apresentadas pela administração americana — desmatamento, propriedade intelectual, Pix, etanol e importações com trabalho forçado — carecem de fundamento técnico e têm motivação política. Aliados do presidente apontam a atuação de adversários como Eduardo e Flávio Bolsonaro como responsáveis por pressionar Washington nessa direção. Trump, por sua vez, concordou com a necessidade de fortalecer os vínculos comerciais e propôs que as equipes dos dois países se reúnam brevemente.
Na semana anterior à ligação, o Brasil havia notificado os EUA sobre o início de um processo de reciprocidade. Ainda assim, o círculo petista avalia que esse processo não avançará de forma significativa neste ano, adotando cautela para não agravar a situação.
A conversa também abordou segurança pública e geopolítica. Lula rejeitou a classificação das facções PCC e CV como organizações terroristas — decisão tomada pelos EUA em maio — e apresentou o projeto de lei Antifacção como resposta brasileira ao crime organizado. Sobre os conflitos internacionais, os dois concordaram sobre a urgência de uma solução negociada na Ucrânia, e Lula propôs uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU, posição que já havia defendido com Xi Jinping e Putin.
Essa ligação é mais um capítulo numa relação marcada por altos e baixos. Em julho do ano passado, Trump havia imposto uma tarifa de 50% ao Brasil, citando a condenação de Bolsonaro. Um encontro relâmpago de 39 segundos na ONU mudou o tom, levando a telefonemas e a um encontro na Malásia onde Trump amenizou algumas medidas. Agora, ambos parecem dispostos a manter o diálogo aberto, ainda que as questões comerciais permaneçam sem solução.
Lula e Trump conversaram por mais de uma hora e vinte minutos numa ligação que o Palácio do Planalto descreveu como amistosa e cordial. O presidente brasileiro usou o tempo para defender a negociação sobre as tarifas que os Estados Unidos impuseram ao Brasil, argumentando que as justificativas apresentadas pela administração americana — desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações com trabalho forçado — carecem de fundamento.
As tarifas em questão representam um peso real na economia brasileira. Uma sobretaxa de 25% específica para o Brasil começou a valer em 22 de julho, atingindo 15% do volume total exportado para os Estados Unidos em 2025, o equivalente a 5,8 bilhões de dólares. A essa se soma uma tarifa adicional de 12,5% que atinge também outras nações. Os setores mais afetados incluem madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, produtos cerâmicos e açúcar. O governo brasileiro contesta que essas medidas têm fundamento técnico, avaliando que possuem motivação política. Aliados do presidente têm apontado a atuação de adversários políticos, como Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, como responsáveis por pressionar a administração Trump nessa direção.
Durante a conversa, Lula enfatizou que as tarifas prejudicam tanto o Brasil quanto os Estados Unidos, e que manter a negociação é o melhor caminho para ambos os países. Reiterou a importância de preservar os laços comerciais e de manter os Estados Unidos como um dos principais parceiros do Brasil. Trump concordou com a necessidade de fortalecer os vínculos comerciais e propôs que as equipes dos dois países retomem as reuniões o mais brevemente possível.
Na semana anterior à ligação, o governo brasileiro havia notificado os Estados Unidos sobre o início de um processo de reciprocidade em resposta às tarifas impostas. A avaliação do círculo petista, porém, é que esse processo não avançará significativamente neste ano. Há uma postura de cautela para evitar decisões precipitadas que possam agravar ainda mais a situação.
A conversa também abordou questões de segurança. Lula reforçou o interesse em cooperação no combate ao crime organizado e rejeitou a classificação de grupos criminosos brasileiros como organizações terroristas. Em maio deste ano, os Estados Unidos classificaram as facções PCC e CV como entidades terroristas, uma decisão que o governo Lula buscava evitar. Durante a ligação, o presidente argumentou que grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre populações vulneráveis, mas não se equiparam a organizações terroristas, e que o Brasil possui instrumentos suficientes para enfrentá-los sem necessidade de designações especiais. Lula também mencionou a aprovação do projeto de lei Antifacção e a Proposta de Emenda à Constituição sobre Segurança Pública, embora esta última ainda aguarde votação no Senado.
Os dois presidentes também trocaram impressões sobre conflitos internacionais. Concordaram sobre a urgência de encontrar uma solução negociada entre Rússia e Ucrânia. Trump discutiu perspectivas de resolução do conflito com o Irã, enquanto Lula lamentou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e propôs a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para buscar saídas diplomáticas — uma posição que havia adotado também em conversas recentes com Xi Jinping e Vladimir Putin. Segundo a nota do Palácio, Lula afirmou que grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que as encerram.
Essa ligação representa mais um capítulo numa relação que tem sido marcada por tensões. Ao longo de um ano e meio como presidentes dos maiores países democráticos do Ocidente, Lula e Trump acumularam choques, intercalados por momentos de aproximação. Em julho do ano passado, Trump havia decretado uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, citando como justificativa uma suposta perseguição na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por participação na tentativa de golpe de 2023. Lula reagiu com dureza. Um encontro de 39 segundos nos bastidores da Assembleia Geral da ONU em setembro mudou o tom da relação. Trump revelou minutos depois que os dois tiveram uma química excelente. Isso resultou em telefonemas e num encontro em outubro na Malásia, onde Trump chegou a relaxar as tarifas, retirando produtos da lista e excluindo o ministro Alexandre de Moraes das sanções previstas na Lei Magnitsky. Agora, com essa nova ligação, ambos parecem dispostos a manter o diálogo aberto, ainda que as questões comerciais permaneçam complexas.
Citas Notables
As alegações que basearam a medida (desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos com trabalho forçado) são infundadas— Lula, durante a ligação com Trump
Grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre populações carentes, mas não se confundem com organizações terroristas— Lula, sobre a classificação de facções como terroristas