Num momento em que os Estados Unidos mantêm presença militar sem precedentes ao largo da Venezuela, o presidente Lula ligou para Trump buscando coordenar esforços contra o crime organizado, defender uma saída diplomática para a crise venezuelana e avançar em negociações comerciais. A conversa revela o esforço brasileiro de se manter como interlocutor relevante numa região onde as tensões entre Washington e Caracas ameaçam escapar do controle diplomático. Trump respondeu com aprovação pessoal, sinalizando abertura — mas o abismo entre a disposição ao diálogo e as ações militares em curso perman
Lula e Trump discutem tráfico e Venezuela; republicano elogia brasileiro
Gosto dele. Ele é muito bom.
Por que Lula ligou justamente agora para Trump, neste momento específico?
Porque os EUA estão fazendo algo muito grande na Venezuela — uma mobilização militar sem precedentes — e Brasília está nervosa. Lula precisa estar na conversa, não fora dela.
Mas por que falar de crime organizado se o assunto real é Venezuela?
Porque é a abertura que funciona. Se Lula disser "não façam operação militar", Trump fecha a porta. Se disser "vamos trabalhar juntos contra o crime", Trump se sente ouvido e cooperativo. É diplomacia.
Trump disse que gosta de Lula. Isso muda algo?
Muda tudo. Significa que há espaço para negociação. Trump trabalha com pessoas que ele acha que o entendem. Lula está tentando ser essa pessoa.
E quanto às tarifas que foram removidas?
É moeda de troca. Lula comemora a vitória econômica para mostrar que a relação funciona nos dois sentidos. Mas há mais tarifas ainda. Ele quer manter o diálogo aberto.
O Brasil realmente pode impedir uma operação americana na Venezuela?
Não. Mas pode influenciar como ela acontece, ou se acontece. Ser mediador é ter voz. Lula está tentando garantir que o Brasil não seja colateral de uma decisão que Washington já está tomando.
E se Trump decidir fazer uma operação militar no Brasil também?
Exatamente. Por isso Lula não quer que crime organizado seja classificado como terrorismo. Porque terrorismo justifica intervenção militar. Ele está fechando portas que poderiam ser abertas depois.
El Pulso
- Os EUA mantêm desde agosto uma mobilização militar inédita na costa venezuelana, com mais de 80 pessoas mortas em ataques a embarcações suspeitas de transportar drogas — sem que Washington apresente provas concretas.
- Lula teme que o enquadramento de facções brasileiras como organizações terroristas abra precedente para intervenções militares estrangeiras no Brasil, e usa a cooperação com Trump como escudo preventivo.
- A megaoperação policial no Rio de Janeiro, com 121 mortos, acirrou o conflito entre o governo federal e o governador Cláudio Castro, transformando segurança pública em campo de batalha política nacional.
- Brasil tenta se posicionar como mediador na crise venezuelana, mas a sugestão foi inicialmente mal recebida em Washington — embora Trump e Maduro já tenham conversado diretamente em novembro.
- Na frente econômica, Lula comemorou a retirada de tarifas sobre produtos brasileiros, mas pressionou por avanços mais amplos nas negociações comerciais com os Estados Unidos.
Num momento em que os Estados Unidos mantêm presença militar sem precedentes ao largo da Venezuela, o presidente Lula ligou para Trump buscando coordenar esforços contra o crime organizado, defender uma saída diplomática para a crise venezuelana e avançar em negociações comerciais. A conversa revela o esforço brasileiro de se manter como interlocutor relevante numa região onde as tensões entre Washington e Caracas ameaçam escapar do controle diplomático. Trump respondeu com aprovação pessoal, sinalizando abertura — mas o abismo entre a disposição ao diálogo e as ações militares em curso permanece como pano de fundo inquietante.
Na terça-feira, Lula ligou para Trump num momento de alta tensão regional. Os Estados Unidos mantinham desde agosto uma mobilização militar de proporções inéditas ao largo da Venezuela — navios, caças, milhares de soldados e o maior porta-aviões do mundo —, justificada como combate ao narcotráfico, mas interpretada por Caracas como preparação para derrubar o regime de Maduro.
Pelo Palácio do Planalto, Lula destacou as operações brasileiras para estrangular financeiramente o crime organizado e sinalizou disposição de cooperar com Washington nessa frente. Trump respondeu positivamente. Mais tarde, falando a jornalistas, disse: 'Tive uma ótima conversa com Lula. Gosto dele.' O tom de aprovação pessoal era exatamente o que Brasília precisava ouvir.
O tema Venezuela, embora ausente do comunicado oficial, esteve presente na conversa. Lula tem insistido que qualquer solução para a crise deve ser pacífica e diplomática. Em outubro, durante encontro na Malásia, ofereceu-se como mediador — proposta que, segundo funcionários do Departamento de Estado, foi mal recebida na época. O cenário mudou ligeiramente: Trump e Maduro já conversaram por telefone em novembro, ainda que Trump tenha rejeitado os pedidos do ditador.
A ligação também tocou em economia. Lula comemorou a retirada da tarifa adicional de 40% sobre produtos como carne, café e frutas, mas deixou claro que outras barreiras comerciais ainda precisam ser negociadas — e que o Brasil quer avançar rápido.
Por trás da diplomacia há uma estratégia doméstica. Ao demonstrar a Trump que o Brasil tem instrumentos eficientes contra o crime organizado, Lula tenta rebater pressões da oposição para classificar facções como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — o mesmo enquadramento que os EUA usam para justificar operações militares na região. Brasília quer fechar brechas que possam legitimar ações unilaterais futuras contra o país.
Essa pauta ganhou urgência após uma megaoperação policial no Rio de Janeiro que deixou 121 mortos. O governador Cláudio Castro acusou o governo federal de abandono; Trump chegou a publicar uma carta lamentando mortes de policiais. Em resposta, Lula acelerou no Congresso a PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção — medidas que centralizam diretrizes no Executivo federal e que governadores resistem, transformando a tragédia carioca em mais um front da disputa política nacional.
Na terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pegou o telefone e ligou para Donald Trump. A conversa acontecia num momento delicado: os Estados Unidos estavam em meio a uma mobilização militar de proporções inéditas ao largo da costa venezuelana, justificada oficialmente como combate a cartéis de drogas que abastecem o mercado americano.
Pelo Palácio do Planalto, a mensagem foi clara. Lula destacou as operações que seu governo vinha realizando para estrangular financeiramente o crime organizado brasileiro, apontando também as ramificações criminosas que operavam do exterior. Trump, segundo o comunicado oficial, demonstrou disposição em trabalhar junto com o Brasil nesse front. O que não aparecia no texto divulgado era qualquer menção à Venezuela — tema que preocupa profundamente Brasília. O governo Lula acompanha com apreensão a possível intervenção americana contra o regime de Nicolás Maduro, e o presidente brasileiro tem trazido o assunto à tona sempre que conversa com o americano. Em outubro, durante um telefonema anterior, Lula havia argumentado que qualquer solução para a crise venezuelana precisava ser pacífica e diplomática.
Trump, mais tarde naquele mesmo dia, falou aos jornalistas em Washington sobre a ligação. "Tive uma ótima conversa com Lula", disse. "Gosto dele. Conversamos sobre sanções, tivemos uma conversa muito boa. Ele é muito bom." O tom era de aprovação pessoal, o que importava para Brasília.
A mobilização americana na região começou em agosto. Navios, caças, milhares de soldados e o maior porta-aviões do mundo foram deslocados com o objetivo declarado de combater o narcotráfico na América Latina. Caracas, porém, insiste que as manobras visam derrubar o regime. Washington acusa Maduro de liderar o Cartel de los Soles, uma organização criminosa cuja própria existência é questionada por especialistas — e que o ditador nega categoricamente. A partir de agosto, os americanos começaram a bombardear embarcações no Caribe e no Pacífico que supostamente transportavam drogas. O governo Trump, contudo, nunca forneceu evidências de que os barcos estavam ligados a grupos criminosos. Mais de 80 pessoas morreram nesses ataques.
Em outubro, Lula e Trump se encontraram pessoalmente na Malásia. O presidente brasileiro levantou o tema da Venezuela e se ofereceu como mediador. "Ele se prontificou a ser um contato, um interlocutor, como já foi no passado, com a Venezuela para se buscar soluções mutuamente aceitáveis", explicou o chanceler Mauro Vieira. Dois funcionários do Departamento de Estado disseram à Folha que a sugestão foi mal recebida porque a abordagem americana na época não considerava negociações diplomáticas. Recentemente, porém, Trump e Maduro conversaram por telefone — em 21 de novembro — e Trump rejeitou uma série de pedidos do ditador.
A ligação de terça também tocou em economia. Lula comemorou a decisão americana de retirar a tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros como carne, café e frutas. Mas o presidente também reforçou que outros produtos ainda estavam tarifados e precisavam ser discutidos. Ele deixou claro que o Brasil quer avançar rápido nessas negociações.
Por trás dessa conversa há uma estratégia mais ampla. Ao levar diretamente a Trump propostas de cooperação contra crime organizado e lavagem de dinheiro, Lula tenta transmitir a imagem de que o Brasil tem instrumentos eficientes para combater irregularidades. O objetivo é rebater argumentos da oposição e bolsonaristas que defendem classificar facções como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Auxiliares de Lula sabem que esse enquadramento é uma das principais justificativas que os EUA usam para operações militares — como a que está em curso na Venezuela. O Brasil quer evitar brechas que possam ser usadas no futuro para ações unilaterais contra o país.
A pauta ganhou força política após uma megaoperação policial no Rio de Janeiro que deixou 121 mortos. O governador Cláudio Castro entrou em conflito com o governo federal, reclamando de falta de apoio de Brasília para a segurança pública estadual. Trump chegou a publicar uma carta ao governo fluminense lamentando as mortes de policiais. Em resposta, Lula acelerou pautas no Congresso, como a PEC da Segurança Pública, que centraliza diretrizes de segurança no Executivo federal — algo que governadores resistem. O PL Antifacção também virou objeto de disputa política entre governo e oposição.
Citas Notables
Tive uma ótima conversa com Lula. Gosto dele. Ele é muito bom.— Donald Trump, presidente dos EUA
Lula se prontificou a ser um contato, um interlocutor com a Venezuela para se buscar soluções mutuamente aceitáveis— Mauro Vieira, chanceler brasileiro