Num momento em que as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos acumulavam semanas de atrito, o presidente Lula escolheu o telefone como instrumento diplomático e conversou por mais de uma hora com Donald Trump. A ligação, que percorreu temas do comércio ao crime organizado, terminou com um compromisso de retomar negociações — um sinal de que ambos os lados reconhecem o peso dos US$ 5,8 bilhões em exportações brasileiras ameaçadas pelas tarifas americanas. O diálogo não resolve as tensões, mas reabre a porta antes que as contramedidas brasileiras se tornem inevitáveis.
Lula contesta tarifas com Trump e retoma negociações comerciais EUA-Brasil
Manter o diálogo comercial interessa às duas economias
Por que Lula decidiu ligar para Trump agora, depois de semanas de atritos?
Porque o custo de não fazer nada estava ficando muito alto. Cinco bilhões e oitocentos milhões em exportações sob pressão — madeira, açúcar, móveis — isso afeta muita gente. Mas também porque havia uma abertura. Trump concordou em conversar.
E quanto àquelas acusações sobre Pix e desmatamento? Lula realmente acha que são infundadas?
Ele as classifica assim publicamente, mas a questão é mais nuançada. O Brasil tem feito coisas em desmatamento, tem regulado o Pix. O que Lula está dizendo é que essas não são razões legítimas para tarifas dessa magnitude — que há outras motivações políticas por trás.
A Lei da Reciprocidade Econômica que o Brasil acionou — isso é um blefe ou uma ameaça real?
É real, mas é também um instrumento de negociação. O Brasil pode aplicar contramedidas, mas preferiria não precisar. Se as negociações avançarem, esse procedimento pode ser suspenso. É a forma brasileira de dizer: temos opções.
E a questão do terrorismo? Por que o Brasil se recusa a classificar o PCC e o Comando Vermelho dessa forma?
Porque muda tudo juridicamente. Terrorismo abre portas para operações militares, para congelamento de ativos, para cooperação internacional de um tipo diferente. O Brasil quer combater essas facções, mas dentro de seu próprio marco legal. É uma questão de soberania.
Então essa ligação resolveu algo ou apenas adiou o problema?
Adiou, mas de forma produtiva. Agora há equipes voltando à mesa. Há disposição de ambos os lados de conversar. Isso não é resolução, mas é movimento. E movimento é tudo que você tem quando as coisas estão travadas.
El Pulso
- Tarifas americanas de até 25% sobre madeira, móveis, açúcar e outros setores colocaram em risco quase 15% do volume exportado pelo Brasil aos EUA em 2025.
- O Brasil respondeu abrindo formalmente um procedimento de reciprocidade econômica, sinalizando que retaliações tarifárias estavam sendo preparadas.
- Lula contestou diretamente as justificativas de Washington — que envolvem Pix, propriedade intelectual e desmatamento — classificando-as como infundadas durante a ligação de 1h20.
- Trump concordou em preservar os vínculos comerciais e propôs que as equipes dos dois países retomem as negociações, abrindo uma janela para suspender o processo de retaliação brasileiro.
- A disputa sobre a classificação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas pelos EUA permanece sem resolução, mas ambos os lados sinalizaram disposição para ampliar a cooperação em segurança.
Num momento em que as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos acumulavam semanas de atrito, o presidente Lula escolheu o telefone como instrumento diplomático e conversou por mais de uma hora com Donald Trump. A ligação, que percorreu temas do comércio ao crime organizado, terminou com um compromisso de retomar negociações — um sinal de que ambos os lados reconhecem o peso dos US$ 5,8 bilhões em exportações brasileiras ameaçadas pelas tarifas americanas. O diálogo não resolve as tensões, mas reabre a porta antes que as contramedidas brasileiras se tornem inevitáveis.
Na última sexta-feira, o presidente Lula ligou para Donald Trump numa conversa que durou uma hora e vinte minutos. O motivo central era a série de tarifas que Washington havia imposto aos produtos brasileiros — uma sobretaxa de 25% sobre itens específicos e outra de 12,5% como parte de uma medida mais ampla, afetando juntas cerca de US$ 5,8 bilhões em exportações, com setores como madeira, móveis, calçados e açúcar entre os mais atingidos.
Durante a ligação, Lula contestou os argumentos americanos que justificavam as cobranças — questões envolvendo o Pix, propriedade intelectual, desmatamento e práticas comerciais consideradas desfavoráveis às empresas dos EUA. O presidente brasileiro classificou essas acusações como infundadas e reafirmou que o diálogo comercial era do interesse das duas economias. Trump concordou e propôs que as equipes dos dois países voltassem à mesa de negociação.
O momento da ligação carregava peso adicional: dias antes, o Brasil havia aberto formalmente um procedimento de reciprocidade econômica que permitia preparar contramedidas tarifárias. Esse processo pode ser interrompido se as negociações avançarem — o que agora parece mais provável.
A conversa também tocou em segurança pública. Lula propôs ampliar a cooperação no combate ao crime organizado e apresentou as medidas adotadas pelo seu governo, incluindo projetos enviados ao Congresso. O ponto de tensão permanece: os EUA classificaram o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas, classificação que o Brasil rejeita. Ainda assim, Trump sinalizou disposição para aprofundar a cooperação e indicou que designaria autoridades americanas para dar continuidade ao diálogo. O que as próximas negociações produzirão ainda está por ser definido.
Na sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pegou o telefone e ligou para Donald Trump. A conversa durou uma hora e vinte minutos — tempo suficiente para que os dois líderes discutissem comércio, crime organizado e as tensões que vinham marcando a relação entre Brasil e Estados Unidos. Ao final, havia um acordo: as equipes dos dois países voltariam à mesa de negociação.
O que levou Lula a fazer essa ligação foi a série de tarifas que Washington havia imposto aos produtos brasileiros. Os Estados Unidos aplicaram duas sobretaxas diferentes. Uma delas acrescentou 25% às tarifas de certos itens brasileiros. A outra, de 12,5%, fazia parte de uma medida mais ampla que atingia vários países. Juntas, essas cobranças afetavam aproximadamente 15% do volume que o Brasil exportou para os Estados Unidos em 2025 — o equivalente a US$ 5,8 bilhões. Madeira, móveis, máquinas, equipamentos, calçados, cerâmicas e açúcar estavam entre os setores mais atingidos.
Durante a conversa, Lula contestou os argumentos que Washington havia apresentado para justificar essas novas cobranças. A administração Trump havia levantado questões sobre o Pix, propriedade intelectual, desmatamento, etanol, corrupção e o que considerava práticas comerciais desfavoráveis às empresas americanas. O presidente brasileiro classificou essas acusações como infundadas, mantendo a posição que seu governo vinha adotando desde o início das discussões. Ao mesmo tempo, Lula reafirmou que manter o diálogo comercial interessava às duas economias. Trump concordou com a necessidade de preservar os vínculos comerciais e propôs que as equipes dos dois países retomassem as conversas.
O timing da ligação era significativo. Poucos dias antes, o Brasil havia aberto formalmente um procedimento previsto na Lei da Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos. Essa iniciativa permitia que o governo brasileiro preparasse contramedidas comerciais — basicamente, tarifas de retaliação. O processo ainda estava em fase de análise e poderia ser interrompido se as negociações avançassem, o que agora parecia mais provável.
Mas a conversa não se limitou a comércio. Lula também abordou segurança pública e propôs ampliar a cooperação entre os dois países no combate às organizações criminosas. Aqui, porém, havia um ponto de discordância. Os Estados Unidos haviam incluído o PCC e o Comando Vermelho na categoria de grupos terroristas em maio. O governo brasileiro rejeitava essa classificação, argumentando que a legislação nacional já oferecia instrumentos suficientes para enfrentar essas organizações sem alterar seu enquadramento jurídico. Durante a ligação, Lula relatou as medidas que seu governo havia adotado para atingir as fontes de financiamento das facções e mencionou projetos que havia enviado ao Congresso, como a PEC da Segurança Pública e legislação voltada ao combate às organizações criminosas. Trump indicou disposição para aprofundar a cooperação e sinalizou que designaria autoridades do governo americano para dar sequência às conversas.
O que fica claro é que, apesar das tensões comerciais dos últimos meses, ambos os lados encontraram razões para voltar ao diálogo. As negociações que agora serão retomadas pelas equipes dos dois países determinarão se essa abertura resulta em um acordo que alivie as tarifas ou se as tensões voltam a escalar.
Citas Notables
Lula contestou os argumentos utilizados pelos Estados Unidos para justificar as novas cobranças e afirmou que manter o diálogo comercial interessa às duas economias— Palácio do Planalto
Lula propôs ampliar a cooperação entre os dois países no combate às organizações criminosas, mas voltou a rejeitar a classificação de facções brasileiras como grupos terroristas— Relato da Presidência