Lula cobra agilidade de BB e Caixa em crédito para motoristas de app e táxi

Motoristas de aplicativo e taxistas enfrentam dificuldades para acessar crédito subsidiado, com negativas frequentes e impacto negativo em pontuação de crédito após múltiplas consultas.
Muitos acreditavam que receberiam crédito mesmo com nome sujo
Expectativa de motoristas sobre o programa de financiamento subsidiado não correspondeu à realidade das exigências bancárias.
Mark

Por que um programa com tanto apoio governamental — subsídios, fundo garantidor, recursos já alocados — não consegue sair do chão?

Mimi

Porque crédito não é só sobre dinheiro disponível. É sobre confiança, e muitos desses motoristas têm históricos que os bancos veem como risco, mesmo que o governo esteja cobrindo parte dele.

Mark

Mas o governo está cobrindo o risco. Qual é o medo real dos bancos?

Mimi

Não é medo. É que mesmo com subsídios, um motorista que não consegue comprovar renda ou que tem dívidas antigas é um problema operacional. O banco precisa justificar a decisão, documentar tudo. É mais fácil dizer não.

Mark

E os motoristas? O que eles esperavam?

Mimi

Muitos acreditavam que receberiam o crédito mesmo com nome sujo. Quando descobriram que não era assim, desistiram. Outros estão fazendo as contas e percebendo que o financiamento é só uma parte do custo — tem seguro, manutenção, combustível.

Mark

Então o governo subestimou o problema?

Mimi

Subestimou várias coisas. A capacidade real dos bancos de processar isso tudo em tempo recorde. A disposição dos motoristas de assumir uma dívida. E talvez tenha superestimado quanto de R$ 30 bilhões seria realmente demandado.

Mark

O que muda agora com as novas regras?

Mimi

Aumentar o limite de R$ 150 mil para R$ 200 mil ajuda quem quer um carro melhor, mas o tíquete médio está em R$ 103 mil. O real problema — motoristas com restrições cadastrais — não foi resolvido. Continua incontornável.

  • Com apenas R$ 3,55 bilhões liberados de um orçamento de R$ 30 bilhões, o programa de crédito subsidiado para motoristas acumula um atraso que o governo já não consegue ignorar.
  • Motoristas com nome sujo, dívidas antigas e processos judiciais encontram portas fechadas nos bancos mesmo com juros subsidiados e fundo garantidor — a promessa esbarra na vida real.
  • Em uma concessionária de Brasília, apenas 12 de 60 propostas foram aprovadas em um único dia, enquanto motoristas veem sua pontuação no Serasa cair a cada consulta negada.
  • Lula reuniu ministros e presidentes de bancos públicos em uma conversa descrita como tensa, exigindo agilidade e melhora no atendimento antes do prazo final de 15 de setembro.
  • O governo ampliou o limite de financiamento para R$ 200 mil e ajustou o cálculo de renda, mas dúvidas persistem sobre se as mudanças são suficientes para recuperar o tempo perdido.

Em um país onde o crédito historicamente chega tarde ou não chega, o presidente Lula convocou os líderes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para cobrar a execução de um programa que prometia transformar a vida de taxistas e motoristas de aplicativo — mas que, três meses após o lançamento, havia liberado apenas 12% dos R$ 30 bilhões destinados. O Move Brasil Táxi e Aplicativos revela uma tensão antiga entre a ambição das políticas públicas e a realidade burocrática, financeira e humana de quem tenta acessá-las. A distância entre o anúncio e o benefício concreto é, ela mesma, uma forma de exclusão.

Na quarta-feira 19 de agosto, o presidente Lula convocou os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para uma reunião tensa. O motivo era o ritmo lento do Move Brasil Táxi e Aplicativos: três meses após o lançamento, apenas R$ 3,55 bilhões haviam sido liberados de um orçamento de R$ 30 bilhões — pouco mais de 12% do total.

O programa nasceu com ambições claras: taxas de juros subsidiadas bem abaixo da média de mercado, fundo garantidor para reduzir o risco dos bancos e recursos abundantes. Mas a realidade dos motoristas se mostrou mais complexa do que o desenho da política. Muitos não conseguiam comprovar renda suficiente para pagar as parcelas. Outros carregavam restrições cadastrais — dívidas antigas, processos judiciais — que os bancos não conseguiam ignorar. Motoristas de plataformas como Uber e 99 relatavam negativas frequentes e viam sua pontuação no Serasa piorar a cada nova consulta. Em uma concessionária de Brasília, apenas 12 de 60 propostas foram aprovadas em um dia.

Na mesma reunião, com a presença do ministro Guilherme Boulos e outros integrantes do governo, foram anunciados ajustes: o valor máximo do veículo financiável subiu de R$ 150 mil para R$ 200 mil, a lista de híbridos foi ampliada e os bancos passaram a calcular a renda disponível de forma mais favorável ao motorista. Lula também pediu que as instituições explicassem com clareza os motivos das recusas.

Mas o problema tinha raízes mais fundas. O governo pode ter criado uma expectativa desproporcional ao destinar R$ 30 bilhões desde o início, sem que a capacidade de execução dos bancos ou das concessionárias acompanhasse esse volume. Havia ainda ao menos R$ 1 bilhão em operações aprovadas aguardando liberação — porque a montadora não emitiu nota fiscal, o motorista ainda escolhia o veículo ou simplesmente desistiu de contratar. Muitos motoristas, além das parcelas do financiamento, precisavam calcular custos adicionais como o seguro, que também encarecia.

Com o prazo da medida provisória se encerrando em 15 de setembro, o relógio corria. Novos ajustes não estavam descartados, mas a distância entre a ambição inicial e a realidade da execução seguia sendo o maior obstáculo do programa.

Na quarta-feira 19 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para uma reunião que, segundo relatos, foi tensa. O motivo: a execução lenta de um programa de crédito que deveria estar transformando a vida de taxistas e motoristas de aplicativo, mas que até então tinha liberado apenas R$ 3,55 bilhões de um orçamento de R$ 30 bilhões — pouco mais de 12% do total disponível.

O Move Brasil Táxi e Aplicativos foi lançado com grande ambição. O governo destinou recursos substanciais, ofereceu taxas de juros subsidiadas (12,6% ao ano para homens, 11,5% para mulheres, contra uma média de mercado de 28% ao ano) e criou um fundo garantidor para cobrir inadimplências, reduzindo assim o risco para os bancos. Tudo parecia pensado para remover obstáculos. Mas três meses depois do lançamento, em 19 de junho, o programa não decolava como esperado. Lula, insatisfeito com o ritmo, convocou Tarciana Medeiros, do Banco do Brasil, e Carlos Vieira, da Caixa, para cobrar agilidade. A conversa foi dura, com cobranças diretas para que acelerassem as concessões ao máximo possível.

O problema, porém, não era simples de resolver. Mesmo com todo o respaldo governamental, os bancos enfrentavam dificuldades reais. Muitos motoristas conseguiam se habilitar no programa, mas não conseguiam comprovar capacidade de pagar as parcelas. Outros tinham restrições cadastrais — dívidas antigas, processos judiciais — que se tornavam praticamente incontornáveis para as instituições financeiras. Motoristas de plataformas como Uber e 99 relatavam negativas frequentes e viam sua pontuação no Serasa cair após múltiplas consultas em diferentes bancos. Em uma concessionária de Brasília, uma vendedora aprovou apenas 12 de 60 propostas em um determinado dia. Muitos motoristas, segundo relatos, acreditavam que receberiam o crédito mesmo com nome sujo, e a realidade foi diferente.

O governo não ficou inerte. Na mesma reunião de quarta-feira, que contou com a presença do ministro-chefe da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, e de outros ministros, foram acertadas expansões do programa: o valor máximo do veículo subiu de R$ 150 mil para R$ 200 mil, e a variedade de veículos híbridos foi ampliada. Os bancos também ajustaram o cálculo da renda disponível, desconsiderando gastos com aluguel de veículo (que deixariam de existir) e incorporando a expectativa de queda de despesas com combustível em caso de compra de automóvel elétrico. Lula também pediu que os bancos melhorassem o atendimento e dessem explicações detalhadas quando recusassem crédito — uma forma de tentar aplacar reclamações que surgiam nas redes sociais.

Mas havia um problema mais profundo: o governo pode ter gerado uma expectativa muito elevada ao destinar R$ 30 bilhões já na largada. Segundo pessoas envolvidas nas discussões, a meta traçada se mostrou mais ambiciosa do que a capacidade de execução dos bancos ou até mesmo de entrega pelas concessionárias. Havia também a questão da própria decisão dos motoristas. Além de pagar as prestações do financiamento, eles precisariam arcar com outros custos não cobertos pelo crédito subsidiado, como apólice de seguro, que também ficava mais cara. Muitos ainda estavam fazendo as contas para decidir se entravam ou não no programa.

Os bancos tinham ao menos R$ 1 bilhão em operações já aprovadas, mas cuja liberação ainda não havia ocorrido porque as montadoras não emitiram nota fiscal, o motorista habilitado ainda estava escolhendo o veículo ou o beneficiário decidiu não contratar a operação. O tíquete médio do programa estava em R$ 103 mil, e algumas instituições relatavam pouca demanda por veículos mais caros que R$ 150 mil. Havia dúvidas se o aumento do valor máximo de financiamento seria suficiente para impulsionar os financiamentos.

O prazo para obter o crédito se encerrava em 15 de setembro, último dia de vigência da medida provisória que criou a linha. O governo seguia monitorando a execução do programa, e novos ajustes não estavam descartados. Mas o relógio corria, e a distância entre a ambição inicial e a realidade da execução permanecia significativa.

Os bancos têm sido excessivamente restritivos na concessão de crédito e deveriam olhar com mais respeito para esses trabalhadores
— Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência
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