Campanha de Lula quer apresentar reforma do Judiciário como pacto entre poderes, focando em código de ética e relações promíscuas entre juízes e empresários. Presidente resiste a propostas detalhadas, preferindo diretrizes sobre transparência e participação popular, evitando atribuições do Executivo.
Lula busca liderar reforma do Judiciário para se afastar da crise no STF
Afastar a campanha da turbulência que divide o Supremo
Por que Lula sente a necessidade de liderar esse debate agora, especificamente?
Porque o escândalo do Banco Master está crescendo — ministros do STF estão envolvidos em comportamentos que parecem corrupção pura. Lula precisa mostrar que ele está do lado da reforma, não do lado dos ministros comprometidos.
Mas ele mantém proximidade com esses ministros, certo? Incluindo Moraes?
Sim, e é por isso que o risco é tão alto. Se a campanha ficar associada ao escândalo, prejudica Lula.
Então a estratégia é: "Eu vou liderar a mudança, não sou parte do problema"?
Exatamente. Ele quer estabelecer diretrizes — transparência, ética, fim de supersalários — sem entrar em detalhes que seriam atribuição do Judiciário.
Mas ele já defendeu mudanças no Judiciário antes. Por que isso é diferente agora?
Porque agora há urgência política. Antes era uma ideia. Agora é uma necessidade de defesa.
E Fachin, o presidente do STF, está alinhado com isso?
Aparentemente sim. Ele já defendia um código de ética, e Lula conversou com ele recentemente.
Então temos uma conversa entre Lula e Fachin, mas não sabemos exatamente o que foi dito ou combinado.
Correto. O que sabemos é que Lula anunciou publicamente a ideia em um evento com membros da elite do Judiciário, e foi bem recebido.
Qual é o risco real aqui para Lula?
Que a campanha seja contaminada pela corrupção no STF, especialmente porque o PT já carrega o peso do mensalão e da Lava Jato.
Der Puls
- Escândalo do Banco Master: ministro Moraes editou contrato de R$ 131 milhões com escritório de sua esposa
- Lula propõe código de ética, combate à corrupção e fim de supersalários para magistrados
- Presidente resiste a propostas detalhadas, preferindo diretrizes sobre transparência e participação popular
- Anúncio feito em 4 de setembro em evento com membros da elite do Judiciário, incluindo Edson Fachin
Campanha de Lula quer apresentar reforma do Judiciário como pacto entre poderes, focando em código de ética e relações promíscuas entre juízes e empresários. Presidente resiste a propostas detalhadas, preferindo diretrizes sobre transparência e participação popular, evitando atribuições do Executivo.
Lula planeja liderar debate sobre reforma do Judiciário com código de ética, combate à corrupção e fim de supersalários, buscando controlar narrativa durante crise no Supremo Tribunal Federal.
A equipe de campanha de Lula está tentando redirecionar a conversa política para longe de um escândalo que abala o Supremo Tribunal Federal. A estratégia é colocar em primeiro plano uma proposta de reforma do Judiciário — anunciada publicamente pelo presidente na sexta-feira, 4 de setembro — amarrando-a a medidas concretas: um código de ética para magistrados, combate à corrupção, e o fim dos supersalários que juízes e procuradores recebem. A ideia é que, ao liderar esse debate, Lula consiga afastar sua campanha de reeleição da turbulência interna que divide os ministros da corte.
O presidente conversou sobre o tema com aliados próximos, entre eles Edinho Silva, coordenador de sua campanha, e os ministros Sidônio Palmeira, da Secom, e Jorge Messias, da AGU. O foco central é a crítica às relações entre juízes e empresários — o que Lula chama de vínculos promíscuos. Ele tem dito, em conversas privadas, que um ministro de tribunal superior não deveria acumular fortuna no cargo; se quisesse enriquecer, deveria permanecer na advocacia. A proposta de um código de ética já é defendida pelo próprio presidente do STF, Edson Fachin, e aliados de Lula acreditam que uma conversa recente entre os dois reforçou o interesse do presidente no tema.
Lula resiste, porém, a apresentar propostas detalhadas sobre a reforma. Ele argumenta que isso não é atribuição do Executivo. Sua intenção é estabelecer diretrizes gerais — transparência, participação popular, fiscalização — deixando que o Judiciário e o Legislativo construam os detalhes. Ele tem dito que não quer que o assunto seja debatido às pressas, mas que seja produto de um pacto entre os poderes, similar à reforma que realizou em seu primeiro governo. Integrantes da campanha, ainda assim, avaliam a possibilidade de associar a defesa da reforma ao fim dos supersalários, uma medida que teria apelo popular.
O presidente mencionou a reforma em um evento na sexta-feira, diante de diversos membros da elite do Judiciário, incluindo Fachin. Segundo relatos de quem estava presente, a ideia foi bem recebida pela audiência. "Tenho certeza que faremos, para o próximo ano, uma discussão profunda sobre a necessidade de uma nova reforma no Poder Judiciário brasileiro para que o povo possa continuar acreditando na Justiça", disse Lula na ocasião. Interlocutores do presidente no mundo jurídico afirmam que ele apenas abriu o debate, que é natural que aliados apresentem ideias, e que o processo eleitoral pode acelerar a discussão.
O contexto que torna essa manobra necessária é grave. O Supremo está sob pressão desde o ano passado por causa do escândalo envolvendo o Banco Master, mas a crise escalou dramaticamente na semana anterior ao anúncio de Lula. Foi revelado que Daniel Vorcaro, dois dias antes de ser preso quando se preparava para viajar para o exterior, perguntou ao ministro Alexandre de Moraes se deveria fugir do país. Além disso, descobriu-se que Moraes editou um contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master.
Petistas temem que o escândalo do STF contamine a campanha de Lula por duas razões principais. A primeira é que debates eleitorais sobre corrupção historicamente prejudicam o PT, marcado pelos casos do mensalão e da Lava Jato. A segunda é que Lula manteve uma relação de proximidade com ministros do Supremo ao longo de seu mandato, incluindo Moraes, o que facilitaria uma associação entre a imagem do presidente e o escândalo. Essa preocupação é tão real que o presidente e seu grupo político já mudaram a forma como lidam com o escândalo pelo menos uma vez.
Lula já havia defendido mudanças no Judiciário em outras ocasiões. Em fevereiro deste ano, por exemplo, indicou apoio a um limite de mandato para ministros do STF, que atualmente podem permanecer no cargo até os 75 anos. "Não é justo uma pessoa entrar com 35 anos e ficar até 75 anos. É muito tempo. Então, acho que pode ter um mandato", disse na época. A proposta atual de reforma, porém, é mais ampla e estratégica — não é apenas uma crítica pontual, mas um esforço para reposicionar o presidente como o condutor de uma mudança institucional necessária, afastando-o da sombra de uma crise que ele não criou mas que ameaça sua campanha.
Bemerkenswerte Zitate
Tenho certeza que faremos, para o próximo ano, uma discussão profunda sobre a necessidade de uma nova reforma no Poder Judiciário brasileiro para que o povo possa continuar acreditando na Justiça— Lula, em evento público na sexta-feira
Não é justo uma pessoa entrar com 35 anos e ficar até 75 anos. É muito tempo. Então, acho que pode ter um mandato— Lula, em fevereiro de 2026, sobre limite de mandato para ministros do STF