Luana Vitra expõe reflexão sobre metais de terras raras e violência na Pinacoteca

A oxidação como uma espécie de greve da matéria
Vitra descreve como o ferro recusa a exploração industrial através de seu próprio processo de deterioração.
Mark

Por que metais de terras raras? Parece um tema muito específico para uma artista trabalhar.

Mimi

Porque eles são o coração invisível de tudo que usamos. Telefones, baterias, painéis solares — a transição energética depende deles. Mas ninguém fala sobre o custo disso, sobre quem paga.

Luke

Mas a obra em si, "Bandeira Branca", ela literalmente mostra metais de terras raras? Ou é mais uma reflexão conceitual sobre eles?

Mimi

É uma reflexão. A bandeira, o arco e a flecha — são símbolos de conflito, de guerra. O trabalho dela conecta a disputa por esses minerais aos massacres que vemos hoje.

Mark

E como ela chegou a fazer isso? Qual é a origem pessoal?

Mimi

Ela nasceu em Contagem, no Quadrilátero Ferrífero. Sua bisavó era mineradora. O ferro está na sua história, na sua família, no chão onde ela cresceu.

Luke

Então é autobiográfico? Ou é mais amplo que isso?

Mimi

É os dois. Ela usa sua própria ancestralidade como ponto de partida, mas depois expande para falar sobre violência contra a terra, contra corpos negros, contra qualquer coisa que seja explorada.

Mark

A dança parece importante na sua formação. Como isso aparece nas esculturas?

Mimi

Ela aprendeu a organizar peso, equilíbrio, movimento através do corpo. Quando esculpe, ela está pensando em como o ferro se sustenta, como ele respira — ou não respira, quando é galvanizado.

Luke

Espera, ela fala em oxidação como uma "greve da matéria"? Isso é poesia ou é análise material?

Mimi

É os dois de novo. Ela vê a oxidação como recusa, como o ferro dizendo não à exploração. É poesia, mas é também uma observação real sobre o que acontece com o metal.

Mark

E agora, depois de toda essa visibilidade internacional, o que vem?

Mimi

Uma residência em Nova York, mas sem pressão de produzir. Ela disse que foi saudável sair de um ambiente de exposição extrema. Acho que ela precisa respirar também.

  • Uma bandeira branca tensionada por arco e flecha sintetiza a contradição central da obra: o gesto de rendição e o impulso de ataque coexistem num mesmo objeto, como paz e violência coexistem nas cadeias de extração mineral.
  • A disputa global por metais de terras raras — insumos essenciais para baterias, eletrônicos e a transição energética — é o pano de fundo urgente que Vitra recusa a deixar invisível sob o verniz do progresso.
  • A artista acumula reconhecimento em ritmo acelerado: prêmio Pipa em 2023, três bienais internacionais em três anos, individuais em Roterdã e Nova York, e agora o espaço mais nobre da Pinacoteca cedido por parceria com a Chanel.
  • Vitra ancora sua crítica na própria biografia — nascida em Contagem, no coração do extrativismo mineiro, com bisavó mineradora — transformando memória familiar em argumento estético e político.
  • Após um ciclo de exposição intensa, a artista planeja uma residência sem obrigação de entrega no interior de Nova York, sinalizando que o descanso também é parte consciente de sua trajetória.

Do Quadrilátero Ferrífero ao octógono da Pinacoteca, a artista Luana Vitra percorre o mesmo caminho que o minério: extraída de uma terra marcada pela cobiça e pela violência, ela se transforma em voz poética sobre o que a humanidade retira da terra e dos corpos. Em 'Bandeira Branca', instalação que permanece em cartaz até janeiro de 2027, Vitra propõe que toda guerra é, antes de tudo, uma guerra contra a terra — e que os metais de terras raras que alimentam nossa modernidade carregam um peso histórico que a indústria prefere não nomear.

Uma bandeira branca suspensa por um arco e flecha — apontando ao mesmo tempo para o céu e para a terra — é o ponto de entrada que Luana Vitra oferece ao visitante da Pinacoteca do Estado de São Paulo. A instalação 'Bandeira Branca' parte da naturalização dos conflitos armados para chegar a uma denúncia mais ampla: a de que toda guerra é, em última instância, uma guerra contra a terra, e que os metais de terras raras que sustentam a indústria moderna e a transição energética global carregam uma história de violência que raramente aparece nas narrativas do progresso.

Vitra chegou a este momento por caminhos que se cruzam de forma quase inevitável. Nascida em Contagem, município do Quadrilátero Ferrífero, ela cresceu rodeada pelo extrativismo mineral — sua bisavó era mineradora. A mãe pedagoga a alfabetizou pela poesia; o pai marceneiro a introduziu à manualidade. Na adolescência, a dança — do jazz ao balé clássico — lhe ensinou a organizar o peso do próprio corpo, aprendizado que ela transferiria mais tarde para a escultura. A faculdade de moda a aproximou das artes visuais, mas foi o encontro com o ferro que definiu sua voz: um material já presente em sua ancestralidade, que lhe permitiu traçar paralelos entre a matéria mineral e o corpo negro, ambos marcados por históricos de cobiça e violência.

A virada pública veio em 2023, com o prêmio Pipa e a participação na 35ª Bienal de São Paulo. Na instalação 'Pulmão da Mina', ela evocou a prática de africanos escravizados que levavam canários às minas como detectores de gases tóxicos — quando os pássaros paravam de cantar, era sinal de perigo. Logo depois, uma residência de seis meses na África do Sul, estudando a miçangaria do povo zulu, deslocou seu olhar para além das paisagens de origem. De 2024 em diante, mais duas bienais — em Charjah e na Tailândia — e individuais em Roterdã e no Sculpture Center de Nova York consolidaram sua presença internacional.

'Bandeira Branca' permanece na Pinacoteca até janeiro de 2027, fruto de parceria entre a instituição e a Chanel. Depois, Vitra parte para uma residência no interior de Nova York — desta vez sem a obrigação de entregar uma obra ao final, num gesto que ela mesma reconhece como necessário após anos de exposição intensa.

Uma bandeira branca pende sob tensão, sustentada por um grande arco e flecha que aponta simultaneamente para o céu e para a terra. É assim que Luana Vitra convida o visitante a entrar em "Bandeira Branca", sua nova instalação na Pinacoteca do Estado de São Paulo. A obra é um exercício de reflexão sobre o desejo, a violência e os massacres que definem as guerras contemporâneas — mas também, e talvez principalmente, sobre os metais de terras raras, aqueles insumos estratégicos que alimentam tanto a indústria moderna quanto a transição energética global.

A artista mineira chegou a este momento depois de três anos de visibilidade crescente. Participou de três bienais internacionais, ganhou o prêmio Pipa dedicado à arte contemporânea, e foi selecionada agora pelo novo programa de parceria entre a Chanel e a Pinacoteca — um acordo que cede o famoso octógono da instituição para sua instalação. Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca, descreve o trabalho de Vitra como marcado pela urgência do momento em que vivemos, mas sem a dramaticidade fácil: ela fala de assuntos graves de forma poética, direta, com a liberdade que apenas uma artista pode exercer.

A trajetória de Vitra é feita de cruzamentos. Nascida em Contagem, município do Quadrilátero Ferrífero, ela cresceu cercada pela história do extrativismo mineral — sua bisavó era mineradora. Quando criança, sua mãe, pedagoga, a alfabetizou através da poesia, fazendo-a decorar poema após poema. Seu pai, marceneiro, a introduziu aos caminhos da artesania e da manualidade. "Tudo isso criou em mim uma maneira de ler o mundo", afirma Vitra, hoje com 31 anos. Na adolescência, descobriu a dança, estudando desde jazz até balé clássico dos 13 anos até a maioridade. Essa formação em movimento corporal se tornaria fundamental para sua prática escultórica: "A dança me ensinou uma maneira de organizar o peso. Muitas pessoas aprendem como sustentar uma escultura por meio da própria prática escultórica, mas eu sinto que, em alguma medida, eu aprendi isso estruturando meu próprio corpo."

Depois veio a faculdade de moda, que a aproximou do desenho e das artes visuais. Do início do curso em 2014 até a formatura, ela se fechou num casulo de estudo intenso, sem mostrar trabalho algum para ninguém. Sentia-se artista, mas ainda dentro de uma dinâmica de "porvir", sem ter ainda uma coisa para falar. Isso mudou quando começou a fazer aulas de escultura e se aproximou do ferro — material que se tornaria definitivo em sua obra e que já estava presente, de diferentes formas, ao longo de sua vida e ancestralidade. Quando se colocou à disposição de ouvir a voz da matéria, aprendeu sobre sua própria voz.

O ferro permite a Vitra traçar um paralelo entre a matéria mineral e o corpo negro, localizando em ambos um mesmo histórico de violência e cobiça. Isso se manifesta tanto em processos históricos — a extração em massa do minério no período colonial — quanto em procedimentos industriais, como a galvanização, que impede o minério de oxidar e, nas palavras da artista, respirar. "Eu passei a ver a oxidação como uma espécie de greve da matéria, uma forma de ela dizer 'não, eu não vou servir a isso, eu vou me desfazer'."

Sua primeira mostra individual em São Paulo, "Três Guerras no Peito", aconteceu no Centro Cultural São Paulo há seis anos. Depois participou de coletivas como "Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os Brasileiros" no Instituto Moreira Salles, há cinco anos, e "Atos de Revolta" no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 2022. Uma de suas obras entrou para o acervo da Pinacoteca ainda em 2022. A virada decisiva veio em 2023, quando ganhou o prêmio Pipa e participou da 35ª Bienal de São Paulo com a instalação monumental "Pulmão da Mina", que refletia sobre a prática de africanos escravizados que levavam canários para as minas como alerta para gases tóxicos. Quando os canários paravam de cantar, era sinal de contaminação; a morte de um pássaro podia salvar dezenas de mineiros africanos.

Vitra emendou esse destaque com uma residência de seis meses na África do Sul, estudando o trabalho de miçangaria do povo zulu. "Foi muito saudável sair de um ambiente de exposição extrema e ir para um lugar onde ninguém me conhecia." Esse período transformou seu modo de pensar, não apenas através do aprendizado de técnicas, mas pela convivência com os zulus e sua lógica simbólica. Thiago de Paula, curador e amigo da artista, observa: "Esse período levou o olho dela para outros lugares. Acho que antes Luana tinha um olhar muito relacionado às paisagens onde ela cresceu."

De 2024 para cá, ela realizou mais duas bienais — em Charjah, nos Emirados Árabes Unidos, e na Tailândia — além de individuais em Roterdã e Nova York, no prestigiado Sculpture Center. Agora, com "Bandeira Branca", Vitra parte da naturalização dos conflitos armados para denunciar uma violência que ultrapassa os corpos humanos e atinge a terra. "Todas as guerras são, no fim das contas, contra a terra. É sempre a terra o corpo que mais vai perder em qualquer guerra. Então é dela que a gente tira tudo." A instalação permanece na Pinacoteca até janeiro de 2027. Depois, Vitra irá para a residência Denniston Hill, no interior de Nova York, numa proposta de descanso, sem a obrigação de entregar uma obra no final.

Todas as guerras são, no fim das contas, contra a terra. É sempre a terra o corpo que mais vai perder em qualquer guerra.
— Luana Vitra
Quando me coloquei à disposição de ouvir a voz da matéria, aprendi sobre minha própria voz.
— Luana Vitra
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