Por quase quatro décadas, o Brasil concedeu aos pais apenas cinco dias para acompanhar o nascimento de um filho — tempo que muitos descrevem como insuficiente para os laços mais fundamentais da vida humana. A partir de 2027, uma nova lei sancionada pelo presidente Lula iniciará uma expansão gradual dessa licença, chegando a 20 dias em 2029, com a criação do salário-paternidade gerenciado pelo INSS. A mudança não é apenas administrativa: ela reflete um reconhecimento, ainda que tardio, de que o cuidado paterno nos primeiros dias de vida de uma criança é um bem social que merece proteção institu
Licença-paternidade sobe de 5 para 20 dias a partir de 2027
Cuidar é humano, não é privilégio de mãe ou pai
Por que essa mudança levou tanto tempo? A licença de cinco dias data de 1988.
Porque durante décadas a paternidade foi vista como algo separado do trabalho, como se fossem mundos que não se tocassem. Só agora, com uma geração diferente entrando no mercado, essa conversa ganhou força novamente.
E as empresas, como realmente vão lidar com isso financeiramente?
No curto prazo, sim, há um custo real. Mas o argumento que os consultores fazem é que um pai que consegue estar presente nos primeiros dias volta mais engajado, mais leal. A empresa comunica que cuidar importa.
Existe risco de que isso seja adiado?
Sim. Se o governo não cumprir as regras orçamentárias, a última etapa pode não sair do papel. Tudo depende de como a Previdência conseguir operacionalizar esse reembolso.
E para o pai que tem apenas cinco dias hoje?
É frustrante. Você se programa, tira férias, mas aquela semana passa num piscar de olhos. Os primeiros dias são únicos. Não dá para recuperar depois.
Isso muda algo além do tempo em casa?
Muda a mensagem. Diz que homens também cuidam, que isso é normal, que é profissional. Quebra uma estrutura muito antiga.
O Pulso
- O Brasil manteve por 38 anos uma licença-paternidade de apenas 5 dias — menos tempo do que o Carnaval concede de folga, como observam os próprios pais afetados.
- A lei 15.371 rompe esse imobilismo ao criar o salário-paternidade e ampliar gradualmente o afastamento até 20 dias em 2029, mas a regulamentação prática ainda está sendo construída.
- Empresas enfrentarão custos reais de antecipação de pagamentos antes do reembolso pelo INSS, com riscos adicionais de atraso caso metas orçamentárias não sejam cumpridas.
- Especialistas argumentam que, a médio prazo, a medida pode gerar retorno financeiro às organizações por meio de maior retenção e engajamento de talentos.
- O Brasil se alinha a uma tendência global: nos Estados Unidos, a licença parental remunerada cresceu de 39% para 46% entre empresas nos últimos anos, sinalizando uma transformação estrutural no papel do cuidado dentro do mundo do trabalho.
Por quase quatro décadas, o Brasil concedeu aos pais apenas cinco dias para acompanhar o nascimento de um filho — tempo que muitos descrevem como insuficiente para os laços mais fundamentais da vida humana. A partir de 2027, uma nova lei sancionada pelo presidente Lula iniciará uma expansão gradual dessa licença, chegando a 20 dias em 2029, com a criação do salário-paternidade gerenciado pelo INSS. A mudança não é apenas administrativa: ela reflete um reconhecimento, ainda que tardio, de que o cuidado paterno nos primeiros dias de vida de uma criança é um bem social que merece proteção institucional.
O Dia dos Pais deste ano marca o fim de uma era: a partir de 2027, o Brasil começará a expandir sua licença-paternidade, que permaneceu em cinco dias por quase quatro décadas. A lei 15.371, sancionada pelo presidente Lula em março, prevê um crescimento gradual até atingir 20 dias em 2029 e cria o salário-paternidade, um novo benefício gerenciado pelo INSS.
Na prática, as empresas pagarão os dias adicionais de afastamento e serão posteriormente reembolsadas pela Previdência Social, em modelo semelhante ao já existente para o salário-maternidade. O Ministério da Previdência trabalha para que os sistemas estejam operacionais em janeiro de 2027, com pedidos disponíveis pelo aplicativo Meu INSS, pelo site ou pela central 135.
Para pais como Ton Kohler — palestrante que perdeu a esposa em 2018 e cria dois filhos sozinho —, a mudança responde a uma frustração concreta. Quando seus filhos nasceram, ele precisou retornar ao trabalho rapidamente, mesmo tendo se planejado para estar presente. Kohler ressalta que os primeiros dias após o nascimento são insubstituíveis para a conexão entre pai e filho.
Especialistas em recursos humanos enxergam na medida uma transformação mais ampla. Darwin Grein, CEO de uma consultoria de desenvolvimento humano organizacional, aponta que a expansão de licenças parentais é uma tendência global e abre espaço para repensar o papel dos homens no cuidado familiar. A advogada trabalhista Silvia Lira, por outro lado, alerta para os desafios financeiros às empresas, especialmente em 2029, quando os custos de antecipação serão maiores — e existe o risco de adiamento caso as regras orçamentárias não sejam cumpridas.
Grein, porém, sugere que a médio e longo prazos as organizações podem se beneficiar com maior retenção e engajamento de talentos. Trabalhadores autônomos que contribuem ao INSS também terão direito ao benefício, pago diretamente pela Previdência. A regulamentação completa ainda está em curso, mas a direção é clara: reconhecer o cuidado paterno como parte essencial da vida profissional e familiar.
O Dia dos Pais deste ano será o último celebrado sob uma regra que o Brasil mantém há quase quatro décadas. A partir de 2027, a licença-paternidade começará a se expandir, crescendo gradualmente até atingir 20 dias em 2029. Essa transformação, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em março através da lei 15.371, representa não apenas um aumento de dias, mas a criação de um novo mecanismo de proteção social: o salário-paternidade, gerenciado pelo INSS.
O funcionamento prático dessa mudança envolve uma engrenagem burocrática que ainda está sendo ajustada. Nos primeiros anos, as empresas pagarão os dias adicionais de afastamento aos seus funcionários, mas serão ressarcidas pela Previdência Social. O Ministério da Previdência Social trabalha para que os sistemas estejam prontos em janeiro de 2027, permitindo que os pedidos sejam feitos pelo aplicativo Meu INSS, pelo site ou pela central telefônica 135. A forma exata como esse reembolso funcionará ainda depende de regulamentação específica, embora deva seguir um modelo semelhante ao já estabelecido para o salário-maternidade.
Para muitos pais, essa expansão chega como resposta a uma frustração antiga. Ton Kohler, palestrante e pai de duas crianças, observa que o Carnaval brasileiro recebe mais dias de folga do que a licença-paternidade oferece. Quando seus filhos nasceram, ele se viu forçado a retornar ao trabalho rapidamente, apesar de ter se planejado para tirar férias logo após o parto. Kohler perdeu sua esposa em 2018 e desde então cria seus filhos sozinho, uma experiência que o levou a mudar de profissão e criar um perfil no Instagram para compartilhar sua rotina como pai solo. Ele enfatiza que os primeiros dias após o nascimento são fundamentais para a conexão entre pai e filho, um momento de descobertas mútuas que não pode ser recuperado.
Especialistas em recursos humanos veem nessa mudança algo maior do que simples ajustes legais. Darwin Grein, CEO de uma consultoria focada em desenvolvimento humano organizacional, aponta que o aumento de licenças parentais é uma tendência global. Ele argumenta que essa expansão abre espaço para uma transformação estrutural na forma como a sociedade entende o papel dos homens no cuidado e na vida afetiva de suas famílias. Para uma geração cada vez mais preocupada com rotinas flexíveis e bem-estar, essa mudança não é surpresa, mas sim o reconhecimento de debates que ressurgiram 38 anos após a criação original da licença de cinco dias.
O impacto financeiro nas empresas, porém, não é negligenciável. Silvia Lira, advogada especializada em direito trabalhista, alerta que a mudança trará desafios significativos, especialmente a partir de 2029, quando os 15 dias adicionais serão pagos integralmente pelas organizações antes do reembolso governamental. Os custos não se limitam apenas ao salário durante o afastamento; eles se estendem a contribuições ao FGTS e aos gastos indiretos causados pela ausência do trabalhador. Existe ainda a possibilidade de que a última etapa da ampliação seja adiada caso as regras da Lei de Diretrizes Orçamentárias não sejam cumpridas.
Mas Grein oferece uma perspectiva diferente sobre esses custos. Ele sugere que, a médio e longo prazos, as empresas podem na verdade economizar através da retenção de talentos e do maior engajamento dos funcionários. Quando uma organização cria condições para que um pai participe dos primeiros dias de vida de seu filho, ela comunica uma mensagem poderosa: que cuidar também faz parte da experiência profissional. Essa mudança de paradigma está acontecendo globalmente. Dados da SHRM Executive Network, a maior associação profissional de recursos humanos do mundo, mostram que nos Estados Unidos a licença remunerada para pais subiu de 31% para 34% entre empresas, enquanto a licença parental geral cresceu de 39% para 46%.
Para trabalhadores autônomos que contribuem à Previdência, a lei também oferece proteção: eles terão direito ao salário-paternidade pago diretamente pelo INSS. A regulamentação completa ainda está em processo, mas a intenção é clara: criar um sistema que reconheça a importância do envolvimento paterno nos primeiros momentos da vida de uma criança, alinhando o Brasil com tendências internacionais de flexibilidade e bem-estar familiar.
Citações Notáveis
O tempo junto nos primeiros dias do nascimento é fundamental. São as primeiras descobertas, momento em que o pai se conecta com os filhos.— Ton Kohler, palestrante e pai
Quando uma organização cria condições para que um pai participe dos primeiros dias de vida de seu filho, ela comunica que cuidar também faz parte da experiência profissional.— Darwin Grein, CEO da consultoria Juntxs