Nas encostas dos Alpes suíços, onde o gelo recua a cada verão, quatro estudantes de mestrado propuseram uma resposta antiga para um problema moderno: cobrir o que resta das geleiras com lã de ovelha. O projeto 'Keep It Wool', desenvolvido em parceria com a Universidade de Lausanne, demonstrou que essa fibra biodegradável protege o gelo tão bem quanto os tecidos sintéticos usados há duas décadas — sem liberar os microplásticos que contaminam neve, água e cadeia alimentar. É um gesto pequeno diante de uma perda colossal, mas que nos lembra que a escolha das ferramentas também é uma escolha ética
Lã de ovelha suíça prova ser alternativa eficaz contra derretimento de geleiras
A fibra natural funcionava onde o plástico se desintegrava
Por que lã de ovelha? Parece tão específico, tão improvável.
Porque estava ali, desperdiçada. Setenta por cento da produção suíça de lã é descartada anualmente. Enquanto isso, coberturas plásticas se desintegram nas montanhas liberando microplásticos. A ideia foi conectar dois problemas.
Mas funciona de verdade? Os dados são preliminares, certo?
Sim, preliminares. Mas o que viram até setembro foi promissor — isolamento térmico comparável ao plástico. Ainda há muito a testar.
E se funcionasse em larga escala? Poderia salvar as geleiras?
Não. Os pesquisadores são claros sobre isso. As lonas cobrem apenas 0,02% da superfície das geleiras suíças. Preservam 300 mil metros cúbicos de neve por ano. A Suíça perde um bilhão de metros cúbicos de gelo anualmente.
Então é um gesto simbólico?
É uma solução localizada e temporária. Mas importante porque oferece uma alternativa sem microplásticos. E porque prova que podemos escolher melhor.
O que vem depois? Vão expandir o experimento?
Não sabemos ainda. O que sabemos é que a redução de emissões globais continua sendo a única solução real a longo prazo. Isso não muda.
Então por que importa?
Porque mostra que quando enfrentamos um problema, temos escolhas. E porque às vezes a resposta está ali, apenas esperando por alguém que tenha coragem de tentar.
Il Polso
- As geleiras suíças perderam quase 40% de sua massa nas últimas duas décadas, e cerca de mil delas já desapareceram completamente — a urgência não é hipotética.
- As coberturas sintéticas usadas para desacelerar o derretimento liberam microplásticos que contaminam a neve e entram na cadeia alimentar, trocando um problema por outro.
- Estudantes testaram lonas de lã de ovelha de 10x10 metros no Glacier 3000, comparando-as diretamente com geotêxteis convencionais ao longo de todo o verão de 2026.
- Os dados preliminares confirmaram que a lã oferece isolamento térmico equivalente ao plástico — e a Suíça descarta até 70% de sua produção anual dessa fibra, tornando-a um recurso desperdiçado e disponível.
- Pesquisadores alertam que as lonas, de qualquer material, cobrem apenas 0,02% das geleiras e preservam 300 mil metros cúbicos de neve enquanto o país perde quase um bilhão anualmente — a solução real continua sendo a redução de emissões globais.
Nas encostas dos Alpes suíços, onde o gelo recua a cada verão, quatro estudantes de mestrado propuseram uma resposta antiga para um problema moderno: cobrir o que resta das geleiras com lã de ovelha. O projeto 'Keep It Wool', desenvolvido em parceria com a Universidade de Lausanne, demonstrou que essa fibra biodegradável protege o gelo tão bem quanto os tecidos sintéticos usados há duas décadas — sem liberar os microplásticos que contaminam neve, água e cadeia alimentar. É um gesto pequeno diante de uma perda colossal, mas que nos lembra que a escolha das ferramentas também é uma escolha ética.
No verão de 2026, quatro estudantes de mestrado instalaram dois protótipos de lonas de lã de ovelha no Glacier 3000, nos Alpes suíços, ao lado de uma cobertura geotêxtil sintética convencional. O experimento, chamado 'Keep It Wool' e desenvolvido pela Summit Foundation com a Universidade de Lausanne, buscava responder uma pergunta ainda sem resposta rigorosa: uma fibra natural biodegradável consegue fazer o mesmo trabalho que o plástico?
A ideia nasceu de uma exposição apresentada em 2025 pela professora Nathalie Dietschy, que questionava o custo ambiental das coberturas de poliéster e polipropileno usadas há cerca de vinte anos para desacelerar o derretimento das geleiras. Sob o desgaste das altitudes elevadas, esses tecidos se fragmentam e liberam microplásticos que contaminam a neve, as águas das montanhas e entram na cadeia alimentar — um preço invisível pago por uma solução aparentemente eficaz.
A resposta surgiu de um recurso descartado dentro da própria Suíça. O país produz lã de ovelha, mas a criação ovina é voltada principalmente para carne e leite. Estima-se que até 70% da produção anual de lã seja destruída ou simplesmente descartada — uma fibra renovável, isolante e biodegradável desperdiçada enquanto plástico se desintegra nas montanhas.
Ao longo do verão, os pesquisadores mediram a cada duas semanas a preservação do gelo sob as diferentes coberturas. Os dados coletados até setembro revelaram que as lonas de lã ofereciam proteção térmica comparável à das coberturas sintéticas convencionais. A fibra natural funcionava.
Mas o contexto impõe sobriedade. Nas últimas duas décadas, as geleiras suíças perderam quase 40% de sua massa total, e cerca de mil pequenas geleiras desapareceram por completo. Todas as lonas geotêxteis juntas cobrem apenas 0,02% da superfície glacial do país, preservando cerca de 300 mil metros cúbicos de neve por ano — enquanto a Suíça perde quase um bilhão de metros cúbicos de gelo anualmente. Os próprios pesquisadores reconhecem que a medida é temporária e localizada. A redução drástica das emissões globais permanece a única solução efetiva a longo prazo. O experimento com lã não salva as geleiras, mas demonstra que, ao enfrentar um problema, ainda podemos escolher com que ferramentas o fazemos.
No verão de 2026, quatro estudantes de mestrado colocaram à prova uma ideia simples mas radical: cobrir gelo derretendo com lã de ovelha. Em 22 de junho, no Glacier 3000, nos Alpes suíços, instalaram dois protótipos de lonas de lã — cada uma medindo dez por dez metros, em espessuras diferentes — lado a lado com uma cobertura geotêxtil sintética convencional. O experimento, batizado "Keep It Wool" e desenvolvido pela Summit Foundation em parceria com a Universidade de Lausanne, buscava responder uma pergunta que ninguém havia testado com rigor: será que uma fibra natural biodegradável consegue fazer o mesmo trabalho que plástico?
A pergunta nasceu de uma exposição. Em 2025, a professora Nathalie Dietschy apresentou em Vevey uma mostra chamada "Glaciers Under Cover" que questionava o custo ambiental das coberturas de poliéster e polipropileno. Há cerca de vinte anos, glaciologistas cobrem seções de geleiras durante o verão para desacelerar o derretimento. Funciona — mas o preço é invisível. Sob vento, chuva e o desgaste das altitudes elevadas, esses tecidos sintéticos se esfarelam. Liberam microplásticos que contaminam a neve, as águas das montanhas e entram na cadeia alimentar. A exposição plantou uma semente: e se houvesse outra maneira?
A Summit Foundation encontrou uma resposta improvável na própria Suíça. O país produz lã de ovelha, mas a criação ovina é voltada principalmente para carne e leite. A lã é um resíduo. Estima-se que até 70% da produção anual seja destruída ou descartada — um recurso biodegradável e isolante térmico desperdiçado enquanto plástico se desintegra nas montanhas. A lã suíça oferecia tudo o que faltava: renovabilidade, capacidade de isolamento, e a vantagem de desaparecer naturalmente quando seu trabalho terminasse.
Durante todo o verão, os pesquisadores mediram a cada duas semanas. Fincaram estacas no centro das lonas para acompanhar o nível de preservação da neve e do gelo sob o calor solar. Os dados preliminares, coletados até setembro, revelaram o que ninguém tinha certeza de encontrar: as lonas de lã ofereciam uma capacidade de proteção térmica e isolamento comparáveis às das coberturas sintéticas convencionais. A fibra natural funcionava.
Mas o contexto torna o experimento tanto promissor quanto humilhante. Nas últimas duas décadas, as geleiras suíças perderam quase 40% de sua massa total. Cerca de mil pequenas geleiras desapareceram por completo. As lonas geotêxteis — todas elas, sintéticas ou agora de lã — cobrem apenas cerca de 0,02% da superfície total das geleiras suíças. Mesmo assim, preservam aproximadamente 300 mil metros cúbicos de neve ao ano. É um número que soa impressionante até você saber que a Suíça perde quase um bilhão de metros cúbicos de gelo anualmente.
Os pesquisadores não escondem essa realidade. Enfatizam que a aplicação de lonas é uma medida temporária e localizada — um gesto de proteção em um ponto específico enquanto o problema maior continua intocado. A redução drástica das emissões globais de gases de efeito estufa permanece como a única solução efetiva para deter o derretimento das geleiras a longo prazo. O experimento com lã de ovelha não salva as geleiras. Mas oferece algo: uma prova de que quando enfrentamos um problema, podemos escolher qual ferramenta usamos. E que às vezes a resposta já estava ali, descartada, esperando por alguém que tivesse coragem de tentar.
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A aplicação de lonas é uma medida temporária e localizada, e a redução drástica das emissões globais de gases de efeito estufa permanece como a única solução efetiva para deter o derretimento das geleiras a longo prazo— Pesquisadores do projeto 'Keep It Wool'