Keiko Fujimori vence eleição presidencial no Peru após quarta tentativa

O legado de Alberto Fujimori inclui execuções extrajudiciais e esterilização forçada de povos indígenas, crimes contra a humanidade pelos quais cumpriu 16 anos de prisão.
Volta à ordem, mas com crimes que ainda doem
Keiko faz campanha invocando o legado de seu pai ditador enquanto reconhece seus crimes contra a humanidade.

Keiko Fujimori conquistou a presidência do Peru após quatro tentativas consecutivas, com margem de cerca de 43 mil votos sobre seu adversário. A nova presidente enfrentou acusações de corrupção relacionadas à Odebrecht, foi presa preventivamente por 17 meses, mas teve o processo anulado em janeiro de 2025.

  • Keiko Fujimori venceu com 50,18% dos votos, margem de 43 mil votos sobre Roberto Sánchez
  • Quarta tentativa consecutiva de Fujimori pela presidência
  • Presa preventivamente por 17 meses em caso Odebrecht; processo anulado em janeiro de 2025
  • Seu pai, Alberto Fujimori, cumpriu 16 anos de prisão por crimes contra a humanidade
  • Peru teve 9 presidentes em 10 anos; Força Popular elegeu 41 de 130 cadeiras na Câmara

Keiko Fujimori, herdeira do fujimorismo, venceu as eleições presidenciais do Peru com 50,18% dos votos, derrotando o candidato esquerdista Roberto Sánchez. Sua vitória marca o retorno do legado de seu pai, Alberto Fujimori, em um país marcado por instabilidade política.

Keiko Fujimori, aos 50 anos, é a nova presidente do Peru. Com mais de 99,85% das urnas apuradas após uma semana de contagem, sua vitória está confirmada. Ela venceu o candidato esquerdista Roberto Sánchez por uma margem de aproximadamente 43 mil votos — Fujimori obteve 50,18% dos votos contra 49,82% de seu adversário. Restavam apenas 40.213 votos a serem contabilizados, quantidade insuficiente para alterar o resultado.

Esta é a quarta tentativa consecutiva de Fujimori pela presidência. Nas três eleições anteriores, ela perdeu no segundo turno — derrotada pelo direitista Pedro Pablo Kuczynski em 2016 e pelo esquerdista Pedro Castillo em 2021. Ela não reconheceu os resultados daquelas duas últimas eleições. Sua persistência, apesar das derrotas repetidas e das dificuldades para se conectar com setores rurais e indígenas, finalmente a levou à vitória.

A trajetória de Fujimori é inseparável da figura de seu pai, Alberto Fujimori, que morreu em 2024 após cumprir aproximadamente 16 anos de prisão. Alberto Fujimori foi condenado por crimes contra a humanidade, incluindo execuções extrajudiciais e esterilização forçada de povos indígenas. Ele governou o Peru de 1990 a 2000, período durante o qual deu um autogolpe militar, dissolveu o Congresso Nacional e interveio no poder judiciário, argumentando que era necessário para salvar o país da ameaça de grupos guerrilheiros. Renunciou em 2000 para evitar impeachment e foi preso cinco anos depois, em 2005, após período de autoexílio. Para alguns peruanos, Alberto Fujimori foi o presidente que estabilizou uma nação abalada pela crise econômica; para outros, ele permanece sinônimo de violações dos direitos humanos.

Durante sua campanha, Keiko reivindicou o legado de seu pai com o slogan "volta à ordem". Embora tenha construído sua carreira política em parte na nostalgia pelo governo linha-dura de Alberto Fujimori, ela reconheceu que crimes foram cometidos sob sua gestão. Nascida em 1975, Keiko estudou administração de empresas na Universidade de Boston e obteve mestrado pela Universidade de Columbia. Em 2006, foi eleita congressista com a maior votação do país — mais de 600 mil votos, um recorde histórico para uma mulher. Em 2010, liderou a criação do partido Força Popular, que se tornou uma das principais forças de direita do Peru.

A carreira política de Fujimori foi marcada por acusações de corrupção. Ela foi acusada de envolvimento em lavagem de ativos no âmbito da construtora brasileira Odebrecht, supostamente recebendo 1,2 milhão de dólares ilegalmente para custear campanhas eleitorais de 2011 e 2016. O partido Força Popular teria recebido 17 milhões de dólares da Odebrecht. Se condenada, Fujimori poderia ter cumprido mais de 30 anos de prisão. Ela foi presa preventivamente duas vezes entre 2018 e 2020, totalizando 17 meses de prisão. O processo, conhecido como "Caso Cócteles" porque parte da arrecadação de fundos ocorria através de coquetéis, começou há 10 anos. Fujimori sempre negou os crimes, argumentando que o dinheiro era de empresários de prestígio e que as contribuições eram legais. Em janeiro de 2025, o Terceiro Tribunal Penal Colegiado Nacional anulou o julgamento, citando inconsistência e falta de objetividade da acusação.

Seu plano de governo destaca insegurança cidadã, corrupção e paralisia burocrática como os três principais obstáculos do Peru. Durante a campanha, prometeu leis antiterrorismo mais duras e um papel ampliado para os militares. Antes de votar no primeiro turno, em 12 de abril, visitou o túmulo de seu pai e comparou as atuais gangues criminosas aos insurgentes maoístas de esquerda derrotados por ele. Prometeu usar os serviços de inteligência e forças especiais para travar uma "guerra frontal" contra o crime e a extorsão. Luis Galarreta, companheiro de chapa de Fujimori, afirmou à Reuters que existe "uma memória coletiva profunda do Fujimorismo" e que "o que foi feito nos anos 1990 — o resgate do Peru — ainda importa".

Fujimori assumirá a presidência em um país marcado por instabilidade política crônica. O Peru teve nove presidentes em dez anos, período que começou em 2016 após o fim do mandato de Ollanta Humala. Uma crise política e o uso frequente de impeachment pelo parlamento causaram essa rotatividade. O cientista político americano Steven Levitsky descreve o Peru como uma "democracia sem partidos", onde não existem partidos políticos sólidos, históricos ou ideológicos, funcionando como "veículos eleitorais" temporários criados apenas para disputar uma eleição em torno de uma figura popular. Isso enfraquece o presidente, que quase nunca tem uma bancada forte ou fiel no Congresso, governando isolado e se tornando alvo fácil para a oposição desde o primeiro dia.

O partido de Keiko, Força Popular, aparece como a principal bancada nas duas Casas do Congresso após o primeiro turno, elegendo 41 de 130 cadeiras na Câmara e 22 de 60 no Senado, enquanto o Juntos pelo Peru de Sánchez ficou com 32 de 130 e 14 de 60. O Congresso peruano volta a ter duas Casas, com o retorno do Senado previsto para julho, o que pode mudar a dinâmica de crises políticas. Analistas alertam que um resultado apertado pode aprofundar a instabilidade. David Sulmont, analista consultado pela AFP, observou que ainda existe um forte antifujimorismo, embora menor, e que quem vencer pode deslegitimar o resultado se for apertado, trazendo mais instabilidade ao país.

Há uma memória coletiva profunda do Fujimorismo. O que foi feito nos anos 1990 — o resgate do Peru — ainda importa.
— Luis Galarreta, companheiro de chapa de Keiko Fujimori
Ainda existe um forte antifujimorismo, embora menor; e Sánchez, pouco conhecido, é uma incógnita. Quem vencer vai deslegitimar o resultado se for apertado. Isso traz mais instabilidade.
— David Sulmont, analista político
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que essa vitória de Keiko Fujimori importa tanto, além do óbvio de ela ter vencido?

Model

Porque ela representa o retorno de um legado que o Peru nunca resolveu completamente. Seu pai foi ditador, cometeu crimes contra a humanidade, e ela está sendo eleita em parte invocando a nostalgia daquele período. O país está dividido sobre se aquilo foi salvação ou horror.

Inventor

Mas ela reconheceu que crimes foram cometidos. Isso não muda a narrativa?

Model

Muda um pouco, mas não o suficiente. Reconhecer crimes e ao mesmo tempo fazer campanha com o slogan "volta à ordem" é uma contradição que muitos peruanos sentem na pele. É como dizer: sim, houve violações, mas aquela ordem era melhor.

Inventor

E quanto à corrupção dela, a questão da Odebrecht? Como ela conseguiu se eleger com isso pendente?

Model

Tecnicamente não estava pendente — o processo foi anulado em janeiro de 2025. Mas ela passou 17 meses presa preventivamente. O fato de o tribunal ter anulado o julgamento não apagou aquela experiência ou as acusações. Para seus apoiadores, foi perseguição política. Para críticos, foi impunidade.

Inventor

O Peru parece estar em colapso institucional — nove presidentes em dez anos. Keiko consegue governar nesse caos?

Model

Provavelmente não melhor que os outros. Ela tem a maior bancada no Congresso, o que ajuda, mas o sistema está quebrado. Presidentes não têm coalizões reais, o Congresso ganhou poder demais, e agora o Senado volta. Ela promete militarização e combate ao crime, mas isso é uma solução para um problema político, não institucional.

Inventor

Há algo que a diferencia dos outros candidatos que perderam?

Model

Ela insistiu. Quatro vezes. E dessa vez, seu pai tinha morrido recentemente — isso pode ter consolidado o voto nostálgico. Mas também há um antifujimorismo real no país. Um resultado tão apertado, com margem de 43 mil votos, sugere que metade do Peru está muito desconfortável com essa escolha.

Contact Us FAQ