Ela construiu o partido que seu pai nunca quis construir
Após três derrotas consecutivas em segundos turnos decididos por frações mínimas, Keiko Fujimori atravessou, aos 51 anos, a linha que sempre lhe escapara: a presidência do Peru. Filha de um ex-presidente condenado e ela própria alvo de investigações por corrupção, construiu ao longo de quinze anos um partido estruturado e uma promessa de ordem que, desta vez, bastaram para superar o deputado de esquerda Roberto Sánchez. A vitória encerra um ciclo de persistência rara na política latino-americana e abre outro, ainda incerto, sobre o que significa governar carregando um legado tão pesado quanto o do fujimorismo.
- Keiko venceu por margem apertada, repetindo o padrão de suas campanhas anteriores — mas, pela primeira vez, o resultado foi a seu favor.
- O peso do passado ameaça o presente: acusações de lavagem de dinheiro ligadas à Odebrecht e o legado controverso do pai morto em 2024 seguem como sombras sobre sua legitimidade.
- Sua plataforma de segurança com inteligência artificial e centros de vigilância integrados mobilizou eleitores exasperados com a criminalidade crescente no país.
- O Fuerza Popular, partido que ela ergueu do zero em 2009, provou ser a espinha dorsal que sustentou quatro candidaturas e finalmente entregou o poder.
- O Peru aguarda agora a resposta à pergunta central: a promessa de ordem sobreviverá ao contato com a realidade do governo?
Keiko Fujimori venceu a eleição presidencial do Peru na sexta-feira, 3 de julho, derrotando o deputado de esquerda Roberto Sánchez em disputa acirrada. Era sua quarta tentativa — e a primeira vitória. Aos 51 anos, ela cruzou uma linha que nas três eleições anteriores sempre lhe escapou por margens ínfimas: 2011, 2016 e 2021 terminaram em derrota, a mais dolorosa delas por apenas 0,24 pontos percentuais.
A trajetória de Keiko não foi planejada. Nascida em Lima em 1975, ela estudou Administração e fez mestrado nos Estados Unidos com planos empresariais. Em 2005, uma ligação do pai mudou tudo: Alberto Fujimori, investigado e prestes a ser preso, a convidou para concorrer ao Congresso. Ela aceitou. Dois anos depois, o pai era extraditado do Chile e condenado a 25 anos de prisão. A família nunca aceitou as acusações. Alberto recebeu um indulto humanitário em 2017 e faleceu em 2024.
Em 2009, Keiko fundou o Fuerza Popular, transformando o fujimorismo de movimento em organização. O partido manteve presença estável na política peruana por quinze anos, com média de 15% dos votos, oferecendo a ela uma base sólida para candidaturas sucessivas. O cientista político Fernando Tuesta observou que ela fez o que o pai nunca fizera: institucionalizou o legado.
Nesta campanha, a promessa central foi ordem. Seu plano incluía centros de vigilância interligados, mapas de criminalidade em tempo real e inteligência artificial para análises preditivas — respostas diretas à demanda dos peruanos por segurança. Na economia, propunha reduzir a burocracia para pequenas e médias empresas; na área anticorrupção, fortalecer a Controladoria-Geral.
Os pesos, porém, eram reais. Em 2017, veio a investigação por suposto recebimento de recursos da Odebrecht para financiar campanhas — acusação que sempre negou. Ficou presa por 13 meses. O caso foi posteriormente anulado pelo Tribunal Constitucional. Ao lançar sua quarta candidatura, ela disse ter sido perseguida.
Agora presidente eleita, Keiko herda um Peru marcado por instabilidade institucional e insegurança crescente. Sua vitória é o resultado de quinze anos de persistência e construção política. O que vem a seguir dirá se a promessa de ordem pode se traduzir em governo — e se o legado do pai será, afinal, ativo ou fardo.
Keiko Fujimori venceu a eleição presidencial do Peru na sexta-feira, 3 de julho, derrotando o deputado de esquerda Roberto Sánchez em uma disputa tão apertada que os números finais ainda ecoavam a trajetória de sua candidata: alguém acostumada a margens mínimas, a segundos turnos decididos por frações de percentual. Mas desta vez, aos 51 anos, ela atravessou a linha de chegada. Era sua primeira vitória presidencial, e chegava após três tentativas anteriores que terminaram em derrota.
A história de Keiko Fujimori não começou na política. Nascida em Lima em 25 de maio de 1975, filha do ex-presidente Alberto Fujimori e de Susana Higuchi, ela estudou Administração de Empresas e fez mestrado nos Estados Unidos com planos de ser empresária. Tudo mudou em 2005, quando seu pai ligou para avisar que estava sendo investigado e poderia ser preso. Ele a convidou para se candidatar ao Congresso nas eleições do ano seguinte. Ela aceitou. Concorreu pela Aliança para o Futuro e conquistou uma cadeira, marcando sua entrada definitiva na vida pública peruana. Dois anos depois, seu pai foi extraditado do Chile para o Peru, onde foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado e lesão corporal grave. A família rejeitou as acusações e lutou por sua liberdade. Em dezembro de 2023, o Tribunal Constitucional validou um indulto humanitário que havia sido concedido a Alberto em 2017. Ele faleceu em 2024.
Em 2009, Keiko fundou o Fuerza Popular, um partido político construído em torno do legado de seu pai. O cientista político Fernando Tuesta, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, observou que ela fez algo que Alberto nunca havia feito: transformou o fujimorismo de um movimento em uma organização estruturada. O partido manteve uma presença constante na vida política peruana, com uma média de votos em torno de 15%, oferecendo a Keiko uma base permanente para candidaturas sucessivas. Em 2011, ela chegou ao segundo turno e conquistou cerca de 48% dos votos, ficando atrás de Ollanta Humala, que obteve 51%. Em 2016, perdeu para Pedro Pablo Kuczynski por uma margem de apenas 0,24 pontos percentuais: 49,880% contra 50,120%. Em 2021, os números foram novamente apertados, com ela recebendo 49,874% dos votos contra 50,126% de Pedro Castillo.
Nesta campanha de 2026, Keiko baseou sua plataforma em uma promessa de "ordem". Segundo Tuesta, ela voltou a abraçar o legado de seu pai 25 anos após o fim de seu governo, posicionando-se como defensora de uma linha dura contra o crime. Yadira Gálvez, professora da Universidade Nacional Autônoma do México, concordou que essa promessa de ordem foi central, com políticas de tendência direita que respondiam às demandas dos cidadãos por maior segurança. Seu plano de governo incluía a criação de centros de comando e vigilância interligados em todo o país, com mapas de criminalidade em tempo real e inteligência artificial para análises preditivas. Na área de corrupção, propunha fortalecer processos de controle orçamentário e ampliar os poderes da Controladoria-Geral da República. Para a economia, incluía um plano para reduzir procedimentos burocráticos das pequenas e médias empresas.
Mas Keiko carregava pesos. Em 2017, foi anunciado que ela estava sendo investigada por supostamente ter recebido dinheiro da construtora Odebrecht para financiar suas campanhas presidenciais — acusação que negou repetidamente. Foi detida em 2018 e permaneceu na prisão durante 13 meses até que, em 2019, o Tribunal Constitucional aceitou um recurso de sua família para que enfrentasse o julgamento em liberdade. Posteriormente, o tribunal anulou o caso e declarou sem efeito o julgamento contra ela por lavagem de dinheiro. Quando apresentou sua quarta candidatura presidencial em outubro do ano anterior, ela afirmou ter sido perseguida. Tuesta observou que ela teve a vantagem de ser uma das figuras públicas mais conhecidas do Peru, mas foi prejudicada tanto pelo legado controverso de seu pai quanto pelas acusações de corrupção que pesavam contra ela.
Agora, com a vitória confirmada, Keiko Fujimori assume a presidência do Peru em um momento em que o país enfrenta desafios profundos de segurança e confiança institucional. Sua trajetória — de empresária relutante a fundadora de partido a candidata de margens mínimas a presidente eleita — reflete tanto a persistência pessoal quanto a estrutura política que construiu ao longo de 15 anos. O que vem a seguir será um teste de se a promessa de ordem pode ser traduzida em governo, e se o legado do pai será um ativo ou um obstáculo.
Notable Quotes
Nunca esteve nos meus planos ser política. Mas, uma vez que decidi, tinha que fazer direito— Keiko Fujimori, em vídeo publicado em seu canal no YouTube
Agora, 25 anos após o fim do governo do pai dela, ela está baseando sua campanha na memória do governo do pai, e seu ponto central de campanha é o que ela chama de 'ordem'— Fernando Tuesta, cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Peru
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que levou três derrotas para Keiko finalmente vencer?
Porque ela construiu algo que durou. O Fuerza Popular não era um movimento de campanha — era uma organização permanente. Mesmo perdendo, ela mantinha 15% de intenção de voto. A maioria dos candidatos desaparece após uma derrota. Keiko tinha um partido esperando por ela.
E o pai? Quanto peso ele teve nesta campanha?
Tudo e nada. Ela evocou o legado dele — a promessa de ordem, segurança, mão firme — mas ele estava morto há dois anos. Não era um fantasma vivo na campanha, era uma memória que ela podia moldar. Diferente de 2011, quando ele ainda estava vivo e controverso.
Ela foi presa por corrupção. Como isso não a destruiu politicamente?
O tribunal anulou o caso. Ela pôde dizer que foi perseguida. E seus eleitores — pelo menos 50% deles — acreditaram ou não se importaram. A corrupção é um problema no Peru, mas não é um disqualificador automático se você promete resolver outros problemas maiores, como crime e segurança.
O que significa essa vitória para o Peru?
Significa que o país escolheu uma candidata que promete ordem através de tecnologia e vigilância. Centros de comando, mapas de criminalidade em tempo real, inteligência artificial. É uma visão de segurança muito diferente de seus antecessores. Se funcionar, muda o país. Se não funcionar, ela herda a culpa de um legado já controverso.
Ela realmente não queria ser política?
Segundo ela mesma, não. Queria ser empresária. Mas quando o pai ligou em 2005 dizendo que seria preso, ela aceitou o convite para concorrer. Às vezes a política não escolhe você — a família escolhe.