Karim Aïnouz critica super-ricos e patriarcado em 'Rosebush Pruning'

O abismo entre ricos e pobres gera o desejo de fazer obras críticas
Aïnouz explica por que a desigualdade social intensifica o fascínio cultural pelos super-ricos em cinema e televisão.
Mark

Então Aïnouz está dizendo que riqueza e patriarcado são a mesma coisa?

Mimi

Não exatamente a mesma coisa. Ele diz que estão ligados — que o patriarcado é a estrutura que permite e sustenta a acumulação de riqueza, e que essa riqueza reforça o patriarcado.

Luke

Mas como ele demonstra isso no filme? Porque "ligado a" é uma afirmação forte. Precisa de evidência.

Mimi

Através da família isolada na mansão. Eles vivem em validação mútua, em uma dinâmica de poder onde o irmão mais velho controla tudo até o momento em que quer sair.

Mark

E por que o choque visual? Por que não contar isso de forma mais direta?

Mimi

Porque Aïnouz acredita que o choque força o espectador a questionar. Não é para entreter — é para desconfortar e fazer pensar.

Luke

Mas há um risco aí. O choque pode ser só choque. Pode virar espetáculo sem crítica real.

Mimi

É verdade. Mas ele trabalha com Efthimis Filippou, que tem histórico de equilibrar absurdo com significado em filmes de Lanthimos.

Mark

E essa obsessão cultural pelos super-ricos que ele menciona — é nova ou sempre existiu?

Mimi

Aïnouz sugere que é intensificada agora pela desigualdade crescente. As pessoas ficam mais ricas ou mais pobres, o abismo aumenta, e aí surge esse fascínio crítico.

Luke

Mas ele está generalizando a partir de alguns sucessos de crítica. "Parasita" e "Succession" não representam uma tendência universal — representam obras que funcionaram.

Mimi

Justo. Mas o ponto dele sobre isolamento e visibilidade simultânea nas redes sociais é observável. Os super-ricos se fecham e ao mesmo tempo expõem suas vidas.

Mark

Então o filme é uma resposta a essa contradição?

Mimi

Parece ser. Uma lupa sobre como essas estruturas funcionam quando estão isoladas e expostas ao mesmo tempo.

  • A tensão central do filme é filosófica antes de ser narrativa: Aïnouz argumenta que acúmulo de riqueza e abuso de poder — sexual, psicológico, patriarcal — são faces da mesma moeda.
  • Uma família americana isolada em mansão catalã entra em colapso quando o filho mais velho anuncia que vai embora com a noiva, rompendo o pacto de validação mútua que mantinha o clã intacto.
  • O diretor usa imagens deliberadamente perturbadoras — uma alcateia sobre uma lápide, sangue levado à boca — para provocar desconforto que não se dissolve ao sair do cinema.
  • O lançamento coincide com uma onda cultural de obras críticas sobre elites, de 'Parasita' a 'Succession', que Aïnouz lê como sintoma de uma desigualdade crescente e de um isolamento paradoxalmente visível nas redes sociais.
  • A sessão de abertura no Jockey Club esgotou ingressos; o filme entra em circuito comercial em 15 de outubro, completando a trilogia do diretor sobre patriarcado iniciada em 'A Vida Invisível'.

Em tempos em que a desigualdade aprofunda abismos invisíveis, o cineasta cearense Karim Aïnouz chega a São Paulo com 'Rosebush Pruning', sátira que propõe uma tese incômoda: a riqueza extrema não flutua sozinha no mundo — ela é sustentada, em sua raiz, pelo patriarcado. Estreando no festival Open Air do Jockey Club, o filme convoca o espectador a olhar para os super-ricos não com inveja nem fascínio, mas com a lucidez desconfortável de quem reconhece uma estrutura de poder em pleno funcionamento.

Karim Aïnouz carrega uma tese simples e perturbadora: a riqueza extrema não existe separada do patriarcado — ela é sua estrutura de sustentação. O diretor cearense defende essa ideia em torno de 'Rosebush Pruning', que abre o festival Open Air nesta terça-feira no Jockey Club, em São Paulo, com uma tela de 325 metros quadrados instalada ao ar livre. O elenco reúne Callum Turner, Pamela Anderson e Elle Fanning.

O filme acompanha uma família americana excêntrica trancada em uma mansão na Catalunha. Sua rotina hedonista desmorona quando o filho mais velho anuncia que vai embora com a noiva. A sátira dialoga com 'De Punhos Cerrados', de Marco Bellocchio, mas adiciona o que faltava ao clássico de 1965: o patriarcado como motor do acúmulo e do abuso. 'O filme trata de como o acúmulo de riqueza está ligado ao patriarcado e de como o patriarcado está ligado a uma prática de abuso — de poder, sexual, psicológico', explica Aïnouz.

O tema não é novo para ele. Desde 'A Vida Invisível', passando por 'Firebrand' e 'Motel Destino', o diretor examina estruturas patriarcais como forças não apenas corrosivas, mas destrutivas. 'Rosebush Pruning' fecha o que ele chama de trilogia sobre o assunto, com roteiro assinado por Efthimis Filippou — colaborador habitual de Yorgos Lanthimos — em sua primeira parceria com o cineasta brasileiro.

Para contar essa história, Aïnouz aposta em imagens que desconfortam deliberadamente. Ele não se desculpa: 'Eu aposto no choque, no humor e no desconforto para que as pessoas se questionem sobre o que viram e sobre o mundo em que vivem.' O filme chega quando a cultura popular está obcecada pelos super-ricos — de 'Parasita' a 'Succession' — e Aïnouz vê nessa tendência um sintoma real: 'Existe uma rarefação da renda. Algumas pessoas estão ficando muito mais ricas, e outras, mais pobres. É isso que gera o desejo de obras que sejam uma lupa sobre esses grupos.'

A sessão de abertura é gratuita e já teve ingressos esgotados. O filme entra em cartaz comercial em 15 de outubro. O festival Open Air segue até 18 de outubro com clássicos como 'Thelma e Louise' e 'Akira', além de lançamentos recentes.

Karim Aïnouz tem uma tese simples e perturbadora: a riqueza extrema não existe separada do patriarcado. Ela é sua estrutura de sustentação. O diretor cearense defende essa ideia em conversa com a Folha sobre seu novo filme, "Rosebush Pruning", que chega a São Paulo nesta terça-feira como abertura do festival Open Air, um cinema ao ar livre itinerante que instalou uma tela de 325 metros quadrados — do tamanho de uma quadra de tênis — no Jockey Club, na zona oeste. É o segundo longa em inglês do cineasta, e traz nomes como Callum Turner, Pamela Anderson e Elle Fanning no elenco.

O filme acompanha uma família americana excêntrica trancada em uma mansão na Catalunha, na Espanha. Sua rotina hedonista — baseada na validação que seus membros extraem uns dos outros — desmorona quando o irmão mais velho, Jack, apresenta a noiva e anuncia que pretende sair de casa. A sátira bebe em "De Punhos Cerrados", clássico de Marco Bellocchio de 1965 que dissecava a elite burguesa italiana. Aïnouz atualiza aquela crítica para agora, mas adiciona um elemento que faltava: o patriarcado como motor da acumulação e do abuso.

Essa não é uma obsessão nova para o diretor. Desde "A Vida Invisível" em 2019, ele examina como estruturas patriarcais funcionam não apenas como corrosivas, mas como destrutivas. O tema reaparece em "Firebrand", seu primeiro filme em inglês, ambientado na Inglaterra do século 16, e em "Motel Destino", que se passa no litoral cearense. Com "Rosebush Pruning", Aïnouz completa o que chama de uma trilogia sobre o assunto. "O filme trata de como o acúmulo de riqueza está ligado ao patriarcado e de como o patriarcado está ligado a uma espécie de prática de abuso: tanto abuso de poder, quanto abuso sexual e abuso não necessariamente físico, mas psicológico", explica.

Para contar essa história, Aïnouz aposta em imagens que desconfortam. Uma alcateia devora um cordeiro sobre uma lápide em meio à floresta. Um homem leva os dedos ensanguentados da namorada à boca depois que ela os passa nas partes íntimas. O diretor não se desculpa por essas escolhas. "Eu aposto no choque, no humor e no desconforto como elementos que façam com que, depois de assistir ao filme, as pessoas se questionem sobre o que acabaram de ver e, de alguma maneira, sobre o mundo em que estão vivendo", diz. O tom absurdo ecoa filmes como "Dente Canino", "O Lagosta" e "O Sacrifício do Cervo Sagrado" — todos com roteiros do grego Efthimis Filippou, colaborador habitual de Yorgos Lanthimos. "Rosebush Pruning" marca a primeira parceria de Filippou com Aïnouz.

O filme chega em um momento em que a cultura popular está obcecada pelos super-ricos. "Parasita", "Triângulo da Tristeza", "Succession" e "The White Lotus" exploram esse universo com sucesso crítico e comercial. Aïnouz vê nessa tendência algo mais profundo que mera curiosidade. "São classes econômicas e grupos sociais que se isolam cada vez mais e, ao mesmo tempo, continuam visíveis nas redes sociais. A gente sempre sabe como essas pessoas estão, o que elas estão fazendo. Existe aí uma contradição que gera uma fricção muito interessante para o filme", observa. Por trás disso está a desigualdade crescente. "Existe uma espécie de rarefação da renda: algumas pessoas estão ficando muito, muito mais ricas, e outras, mais pobres. Existe aí um abismo muito maior e eu acho que é isso que gera esse desejo de fazer obras que sejam críticas e que sejam uma espécie de lupa sobre esses grupos."

A sessão de abertura com "Rosebush Pruning" é gratuita e acontece nesta terça-feira às 19h no Jockey Club. Os ingressos já se esgotaram. O filme chega ao circuito comercial em 15 de outubro. O festival Open Air segue até 18 de outubro com outras exibições, incluindo clássicos como "Thelma e Louise" e "Akira", além de lançamentos recentes. Ingressos para as demais sessões custam R$ 100, com desconto de 20% para clientes Nubank.

O filme trata de como o acúmulo de riqueza está ligado ao patriarcado e de como o patriarcado está ligado a uma espécie de prática de abuso: tanto abuso de poder, quanto abuso sexual e abuso não necessariamente físico, mas psicológico
— Karim Aïnouz
Eu aposto no choque, no humor e no desconforto como elementos que façam com que, depois de assistir ao filme, as pessoas se questionem sobre o que acabaram de ver
— Karim Aïnouz
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