Juros altos e crescimento fraco em 2023, alerta economista-chefe do Santander

Os ventos externos mudaram de direção, trazendo mais inflação e crescimento contido
Avaliação da economista-chefe do Santander sobre as pressões que afetarão a economia brasileira nos próximos anos.

Em outubro de 2021, Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro Nacional, ofereceu à imprensa um diagnóstico cauteloso sobre o futuro econômico do Brasil: os ventos favoráveis da recuperação pós-pandemia haviam mudado de direção, e o país se veria preso entre pressões externas — inflação, câmbio depreciado, incerteza global — e riscos internos ligados à disciplina fiscal em ano eleitoral. Sua leitura não era apenas técnica; era um lembrete de que economias emergentes raramente controlam as marés que as movem, mas sempre escolhem como navegar dentro delas.

  • Os choques externos que antes impulsionavam a recuperação global viraram contra os países emergentes, trazendo inflação persistente e moedas enfraquecidas que o Brasil não tem como ignorar.
  • O ciclo de aperto monetário — juros altos para conter a inflação — se estenderá além do previsto, sufocando consumo, investimento e a já lenta recuperação do emprego.
  • A incerteza sobre se esses choques são passageiros ou estruturais paralisa decisões: ninguém sabe se o ambiente global vai se estabilizar ou se a pressão veio para ficar.
  • O mercado de trabalho, sempre o último a se recuperar, pagará o preço mais longo — e 2023 chega antes que os empregos perdidos na pandemia sejam recompostos.
  • O risco político de 2022 paira como uma segunda tempestade: qualquer sinal de abandono do teto de gastos ou frouxidão fiscal pode fazer os mercados reagirem com violência, agravando tudo o mais.

No outono de 2021, Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, descreveu à imprensa um cenário de dupla pressão sobre a economia brasileira. Os ventos que haviam favorecido a recuperação global após a pandemia mudaram de rumo: inflação persistente, moedas de países emergentes depreciadas e incerteza geopolítica estavam reescrevendo as expectativas para os anos seguintes.

Vescovi, que serviu como secretária do Tesouro no governo Temer, avaliava que o Brasil enfrentaria juros elevados por mais tempo do que se esperava. O ciclo de aperto monetário se estenderia além das previsões anteriores, desacelerando a economia em 2022 e deixando 2023 ainda mais fraco. O mercado de trabalho — sempre o último indicador a se normalizar — continuaria pressionado, com a Selic alta contendo consumo e investimento.

O que tornava o quadro especialmente difícil era a dúvida sobre a natureza desses choques: seriam perturbações temporárias ou uma mudança estrutural no ambiente econômico global? Essa incerteza alimentava a cautela e mantinha as perspectivas de crescimento contidas.

Além dos fatores externos, Vescovi alertava para um risco doméstico: o ano eleitoral de 2022. Discussões sobre o abandono do teto de gastos ou sinais de enfraquecimento da responsabilidade fiscal poderiam abalar a confiança dos investidores e deteriorar rapidamente um cenário já frágil. O diagnóstico era, no fundo, um aviso duplo — forças de fora pressionando para baixo, e decisões de dentro capazes de amplificar ou amortecer o impacto.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Banco Santander, traçou um quadro sombrio para a economia brasileira em conversa com a imprensa no outono de 2021. Os ventos que haviam impulsionado a recuperação global após a pandemia, disse ela, mudaram de rumo. Uma sequência de choques externos — inflação persistente, moedas de países emergentes depreciadas, incerteza geopolítica — estava reescrevendo as expectativas para o crescimento nos próximos anos.

Vescovi, que havia servido como secretária do Tesouro Nacional durante o governo de Michel Temer, não via sinais de alívio próximo. O Brasil, em sua avaliação, enfrentaria uma taxa de juros elevada por um período mais longo do que se esperava anteriormente. Isso não era apenas um número técnico — era a engrenagem que desaceleraria a economia em 2022 e a deixaria ainda mais fraca em 2023. O ciclo de aperto monetário, aquele período em que o banco central mantém juros altos para conter a inflação, se estenderia além do que os economistas haviam previsto meses antes.

O que tornava o cenário particularmente complexo era a incerteza sobre a permanência desses choques. Ninguém sabia ao certo se eram perturbações temporárias que se dissipariam naturalmente ou se representavam uma mudança mais estrutural no ambiente econômico global. Essa dúvida alimentava a cautela. A inflação seguiria pressionando para cima. As moedas dos países em desenvolvimento continuariam enfraquecidas. E o crescimento econômico permaneceria contido, sem o vigor que havia caracterizado os primeiros meses da recuperação pós-pandemia.

Vescovi apontava para um detalhe que frequentemente passa despercebido nos debates sobre política monetária: o mercado de trabalho. A economia brasileira ainda não havia recuperado totalmente os níveis de emprego anteriores à crise sanitária. Esse seria o último indicador a normalizar, disse ela. Enquanto isso, a Selic — a taxa básica de juros que o Banco Central usa para controlar a inflação — permaneceria em patamar elevado, pressionando para baixo o consumo e o investimento das empresas.

Mas havia outro risco à espreita, um que ia além dos números econômicos. O ano de 2022 seria um ano eleitoral no Brasil, e Vescovi alertava para o potencial de turbulência política. Se a campanha presidencial trouxesse discussões sobre o abandono do teto de gastos — aquele limite constitucional ao crescimento das despesas públicas — ou sinais de que a responsabilidade fiscal deixaria de ser prioridade, o cenário poderia se deteriorar rapidamente. Os mercados financeiros reagiriam com nervosismo. A confiança dos investidores, já abalada pelos choques externos, poderia desabar ainda mais.

O diagnóstico de Vescovi era, em essência, um aviso duplo. De um lado, forças externas fora do controle do Brasil — inflação global, dinâmica das moedas, incerteza internacional — pressionavam a economia para baixo. Do outro, decisões políticas internas sobre como gastar dinheiro público poderiam amplificar ou mitigar esses efeitos. O país estava preso entre duas correntes, e o próximo ano seria decisivo para determinar qual delas prevaleceria.

Os ventos externos favoráveis mudaram de direção. Estamos observando uma acumulação de choques que trazem mais incerteza e mais risco
— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
A economia em 2023 ainda estará muito afetada por esse ciclo monetário contracionista, com um mercado de trabalho que volta para o pré-pandemia
— Ana Paula Vescovi
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a economista do Santander está tão preocupada com 2023 especificamente? O que torna aquele ano diferente de 2022?

Model

Porque em 2023 o Brasil ainda estará sob o peso do ciclo de juros altos, mas sem os benefícios que poderiam vir de uma recuperação do emprego. O mercado de trabalho é lento — leva tempo para as pessoas serem recontratadas depois de uma crise. Então você tem juros altos comprimindo a demanda, e um mercado de trabalho ainda frágil. É uma combinação particularmente ruim.

Inventor

Ela menciona "choques externos". Que tipo de choques ela está vendo em outubro de 2021?

Model

Inflação global que não desaparecia como esperado, moedas de países emergentes perdendo valor, e uma incerteza geral sobre se essas pressões eram temporárias ou se viriam para ficar. Ninguém sabia ao certo. Essa incerteza em si é um choque — paralisa as decisões de investimento.

Inventor

E o risco político que ela menciona — o teto de gastos. Por que isso importa tanto para a economia?

Model

Porque se os investidores acreditarem que o governo vai gastar sem limites, a confiança desaba. O real cai, os juros sobem ainda mais, e o custo de tudo fica mais caro. É um círculo vicioso. O teto de gastos é uma âncora de credibilidade.

Inventor

Então Vescovi está dizendo que a economia brasileira está vulnerável tanto a choques que não pode controlar quanto a decisões políticas que pode?

Model

Exatamente. E em um ano eleitoral, quando a política fica mais volátil, essa vulnerabilidade aumenta. É por isso que ela vê 2023 como particularmente arriscado.

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