Jovem trava batalha judicial para apagar nome da mãe de todos os documentos

Heloísa sofreu violência física, abusos sexuais desde os 9 anos e maus-tratos durante infância e juventude; irmãos também foram vítimas de abusos e agressões.
Quero me livrar disso
Heloísa sobre a importância de remover o nome da mãe de seus documentos como parte da reconstrução pessoal.
Mark

Por que o nome da mãe nos documentos causa tanto sofrimento?

Mimi

Porque cada vez que preciso confirmar minha identidade em qualquer lugar, estou sendo forçada a reconhecer uma relação que nunca existiu. Não é apenas um nome. É estar presa a uma história de violência.

Mark

A Justiça argumenta que a maternidade biológica é um fato que não pode ser apagado. Você concorda?

Mimi

Concordo que ela é minha mãe biologicamente. Mas o Direito já permite outras coisas. Permite mudar de nome, de sobrenome. Por que não pode reconhecer que essa relação não existe na prática?

Mark

Você mencionou que nunca recebeu um abraço. Como isso molda a forma como você vê essa batalha?

Mimi

Torna tudo mais real. Não estou falando de um desentendimento familiar. Estou falando de uma ausência completa de vínculo afetivo. Os documentos deveriam refletir a realidade vivida, não apenas a biologia.

Mark

Há precedentes de casos similares?

Mimi

Sim. No Espírito Santo, em 2016, a Justiça permitiu que quatro filhos adultos tivessem o nome da mãe removido das certidões após relatarem abusos sexuais. Então não é impossível. É uma questão de vontade jurídica.

Mark

O que você espera que aconteça agora?

Mimi

Que a Justiça reconheça que existem situações onde a maternidade biológica não deve estar registrada. Que entendam que segurança jurídica não significa prender as pessoas a relacionamentos que nunca existiram.

  • Heloísa conseguiu alterar prenome e sobrenome materno em 2024, mas teve negado pedido para excluir nome da mãe de registros civis
  • Dois homens foram condenados por abusos sexuais: um a 31 anos e 8 meses, outro a 9 anos e 4 meses
  • Denúncias ao Conselho Tutelar começaram em 2010, quando Heloísa era criança
  • Precedente no Espírito Santo em 2016 autorizou retirada similar do nome da mãe em certidões de quatro filhos adultos

Heloísa conseguiu alterar prenome e sobrenome materno em 2024, mas teve negado pedido para excluir nome da mãe de registros civis como certidão de nascimento. Documentos do Conselho Tutelar mostram denúncias desde 2010; dois homens foram condenados por abusos sexuais contra ela e irmãs, com penas de 31 anos e 9 anos respectivamente.

Heloísa Rodrigues, 28 anos, busca na Justiça retirar o nome da mãe de todos seus documentos após sofrer violência, maus-tratos e abusos sexuais na infância. A Justiça negou o pedido, argumentando que maternidade biológica não pode ser apagada.

Heloísa Rodrigues tem 28 anos e trabalha em um banco. Mora com a companheira. Mas quando vai a um hospital, quando precisa preencher um formulário, quando qualquer instituição lhe pede confirmação de identidade, o nome de sua mãe aparece. Está na certidão de nascimento. Está nos registros civis. E para Heloísa, cada vez que vê aquele nome, revive uma história que gostaria de apagar completamente.

Nascida como Larissa, ela passou a infância e a adolescência dentro de uma casa marcada por violência física, maus-tratos e abusos sexuais. Documentos do Conselho Tutelar, obtidos pela reportagem, mostram que ainda criança ela começou a denunciar a mãe. Em abril de 2010, ligou para o serviço de denúncias para relatar agressões contra os irmãos. No mês seguinte, fez nova denúncia. Os registros indicam que a mãe foi convocada pelo órgão e assinou um termo de responsabilidade. Em agosto daquele ano, o pai procurou o Conselho buscando atendimento psicológico para a menina, que apresentava depressão.

Os abusos sexuais começaram aos 9 anos. Heloísa relata que um homem que cuidava dela a agrediu sexualmente enquanto a mãe o deixava sozinho com ela. Quando contou o ocorrido, diz que foi espancada e o assunto nunca mais foi mencionado. Em 2017, já adulta, ela reuniu vídeos, áudios e outras provas e publicou um relato nas redes sociais. A denúncia chegou ao Ministério Público de São Paulo. Dois homens foram julgados e condenados: um recebeu 31 anos e oito meses de prisão por violência sexual contra as três irmãs; outro foi condenado a nove anos e quatro meses por abusos contra duas das irmãs mais novas. Ambos recorrem em liberdade. No processo criminal, a mãe foi ouvida apenas como testemunha.

Em 2021, após deixar a casa da mãe definitivamente, Heloísa iniciou o processo para alterar sua identidade civil. Apresentou depoimentos de testemunhas e avaliação psicológica. A Justiça reconheceu a gravidade dos fatos e autorizou a mudança do prenome de Larissa para Heloísa e a retirada do sobrenome materno. Mas negou o pedido para excluir o nome da mãe dos documentos oficiais. O juiz argumentou que não existe amparo legal para apagar o registro da maternidade biológica, que constitui um fato histórico e biológico que não pode ser eliminado pelo Direito, independentemente de como a relação tenha sido exercida.

Para Heloísa, essa lógica não faz sentido. "Eu vou em lugares, precisa confirmar o nome da mãe, precisa escrever o nome dela. Em hospital vem o nome dela na pulseira", disse. O vínculo registrado nos documentos não representa a relação vivida. "Nunca recebi um abraço", afirmou. Quando questionada se preferiria não ser filha de ninguém a ser filha da mulher que a criou, respondeu simplesmente: "Sim".

A defesa de Heloísa recorreu da decisão. A advogada argumenta que o Direito brasileiro já admite diferentes formas de parentalidade e que os registros civis vêm sendo adaptados para refletir novas configurações familiares. Especialistas divergem sobre o tema. Alguns juristas defendem a flexibilização dos registros em situações excepcionais, especialmente quando há histórico comprovado de violência. Outros alertam para possíveis impactos na segurança jurídica e na função dos registros civis como instrumento de identificação. Um precedente relevante ocorreu no Espírito Santo, onde a Justiça autorizou, em 2016, a retirada do nome da mãe das certidões de quatro filhos adultos que relataram abusos sexuais praticados por ela.

Em 2025, Heloísa registrou uma nova denúncia contra a mãe, desta vez por violência doméstica, perseguição e participação nos abusos sexuais. A Justiça concedeu medida protetiva determinando que a mãe mantenha distância mínima de 500 metros da filha. O caso é investigado pela Polícia Civil. A mãe negou todas as acusações, afirmando que a filha inventou histórias ainda na infância para poder morar com o pai. Hoje, Heloísa diz que a retirada definitiva do nome da mãe dos documentos representa uma etapa importante de reconstrução pessoal. "Quero me livrar disso", disse.

Nunca recebi um abraço
— Heloísa Rodrigues
Eu vou em lugares, precisa confirmar o nome da mãe, precisa escrever o nome dela. Em hospital vem o nome dela na pulseira
— Heloísa Rodrigues
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