Janet Yellen alerta para riscos de inflação acima da meta nos EUA

Não dá para reduzir os juros por causa da IA. Não agora.
Yellen diferencia o cenário atual do otimismo de Greenspan nos anos 1990, argumentando que faltam evidências de ganhos de produtividade.
Mark

Por que Yellen está tão preocupada com a IA se ela mesma reconhece que pode trazer ganhos de produtividade?

Mimi

Porque não há evidências ainda. Greenspan apostou em produtividade nos anos 1990 e acertou, mas Yellen está dizendo que desta vez não podemos fazer a mesma aposta. Os investimentos em IA estão gerando demanda real agora — por energia, semicondutores — e isso pressiona inflação hoje.

Mark

Então o Fed deveria manter os juros altos indefinidamente?

Mimi

Não indefinidamente. Yellen deixa a porta aberta para redução no médio prazo, quando a produtividade realmente começar a aparecer. Mas agora não é o momento.

Mark

E quanto às tarifas? Ela parece menos preocupada com elas.

Mimi

Porque são transitórias. Elevam a inflação quando são incorporadas aos preços, mas depois o efeito passa. É diferente de pressões estruturais que vêm de choques de oferta ou demanda persistente.

Mark

A questão do dólar parece mais geopolítica que econômica.

Mimi

Exatamente. Yellen está dizendo que as sanções à Rússia mostraram aos países que estar do lado errado de uma decisão geopolítica pode custar caro. Mas ainda não há alternativa viável, então a mudança será lenta.

Mark

E a situação fiscal americana? Por que ela traz isso à tona?

Mimi

Porque é um problema que ninguém quer resolver. Mudanças demográficas estão elevando gastos com previdência e saúde, mas cortes são impopulares. Yellen está dizendo que isso é um risco real que os investidores não estão levando a sério o suficiente.

Mark

Ela parece pessimista sobre a capacidade dos governos de agir.

Mimi

Não pessimista — realista. Ela reconhece que há incentivos políticos contra a ação. Quem tenta equilibrar as contas costuma perder eleição. É um problema estrutural de governança, não apenas de economia.

  • A inflação americana pode escapar da meta de 2% pressionada por forças simultâneas — choques de oferta, demanda voraz por energia e semicondutores para IA, e conflitos no Oriente Médio afetando commodities globais.
  • O paralelo histórico com Greenspan nos anos 1990 é evocado para ser descartado: desta vez, os ganhos de produtividade da IA ainda não aparecem nos dados, e reduzir juros com base nessa esperança seria um risco sem respaldo empírico.
  • O Fed permanece em compasso de espera, mas Yellen deixa claro que o banco central está preparado para elevar os juros se a trajetória inflacionária exigir — a cautela é a postura, não a inércia.
  • Por baixo dos ciclos de curto prazo, uma preocupação mais grave se instala: o desequilíbrio fiscal estrutural dos EUA, alimentado por demografia e gastos crescentes com previdência e saúde, avança sem que nenhum governante tenha incentivo político para enfrentá-lo.

Janet Yellen, que conduziu o Federal Reserve e o Tesouro americano em momentos decisivos, voltou a ocupar o centro do debate econômico global ao alertar, num painel na Expert XP, que a inflação nos Estados Unidos pode superar a meta de 2% por razões que se acumulam silenciosamente: choques de oferta, a fome energética da inteligência artificial e as turbulências geopolíticas do Oriente Médio. Diferente dos anos 1990, quando Greenspan apostou na produtividade tecnológica para conter os preços e acertou, Yellen argumenta que desta vez os números ainda não sustentam essa aposta — e que o banco central precisa manter a guarda erguida, pronto para agir.

Janet Yellen foi ao painel da Expert XP com uma preocupação bem definida: a inflação americana pode subir além do que o mercado antecipa, ultrapassando a meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve. Os riscos, na sua leitura, chegam de várias direções ao mesmo tempo — choques de oferta em diferentes setores, a demanda crescente por semicondutores e energia para sustentar os data centers da inteligência artificial, e os efeitos dos conflitos no Oriente Médio sobre os fluxos globais de commodities.

O ponto mais delicado da sua análise envolve justamente a IA. Os investimentos no setor são, por ora, inflacionários. Yellen reconhece que a produtividade pode aumentar — como ocorreu em ciclos tecnológicos anteriores — mas insiste que essa evidência ainda não aparece nos números. Para ilustrar, ela recorreu a um episódio histórico: em 1996, numa reunião do Fed, Greenspan foi quase o único a defender que ganhos de produtividade conteriam a inflação sem necessidade de alta de juros. A maioria discordava, mas deixaram a história se desenrolar — e ele estava certo. Desta vez, porém, Yellen é categórica: não dá para repetir esse movimento agora. O banco central precisa manter a cautela e está pronto para elevar os juros se necessário.

Sobre o dólar como moeda de reserva, ela reconhece que as tensões geopolíticas — especialmente após as sanções à Rússia em 2022 — levaram muitos países a buscar alternativas. Mas mudanças rápidas são improváveis, pois alternativas viáveis ainda são escassas.

A preocupação mais estrutural, porém, é com as finanças públicas americanas. Mudanças demográficas elevam os gastos com previdência e saúde, enquanto nenhum governante tem incentivo para propor cortes impopulares. Quando perguntada se haveria forma de convencer a população da necessidade de ajuste fiscal, Yellen respondeu com realismo direto: quem tenta isso costuma perder a eleição.

Janet Yellen, que presidiu o Federal Reserve e depois serviu como secretária do Tesouro americano, está preocupada. Durante um painel na Expert XP, ela expôs uma preocupação que vem ocupando sua mente: a inflação nos Estados Unidos pode subir além do que o mercado espera, ultrapassando a meta de 2% que o banco central americano persegue.

Os riscos, na visão dela, vêm de várias direções simultâneas. Choques de oferta em diferentes setores da economia pressionam para cima. A demanda por semicondutores e energia — especialmente para alimentar os data centers que sustentam a inteligência artificial — segue forte. E há ainda os impactos dos conflitos no Oriente Médio, que afetam fluxos globais de commodities e energia. Cada um desses fatores, isoladamente, já seria preocupante. Juntos, formam um cenário que exige vigilância.

O que torna a situação particularmente delicada é a questão da inteligência artificial. Os investimentos em IA, segundo Yellen, estão sendo inflacionários neste momento. Ela reconhece que a produtividade pode aumentar novamente — como aconteceu quando novas tecnologias foram adotadas no passado — mas insiste que ainda não há evidências disso acontecendo agora. Ela fez um paralelo histórico com Alan Greenspan e os anos 1990, quando ele presidia o Fed e ela integrava o conselho de governadores. Naquela época, numa reunião em 1996, Greenspan foi praticamente o único a argumentar que ganhos de produtividade conteriam a inflação, dispensando aumentos de juros. A maioria discordava, mas decidiram deixar a história se desenrolar — e Greenspan estava certo.

Mas desta vez, disse ela, é diferente. Não dá para reduzir os juros por causa da IA. Não agora. Talvez no médio prazo, quando e se a produtividade realmente começar a aparecer nos números. Por enquanto, o banco central precisa manter a cautela.

Sobre as tarifas que os Estados Unidos têm imposto, Yellen reconhece o impacto "enorme", mas o qualifica como transitório — elevam a inflação no momento em que são incorporadas aos preços, mas depois o efeito passa. O Fed, na sua avaliação, está em compasso de espera, observando como todos esses fatores podem influenciar a trajetória da inflação. Mas ela também acredita que o banco central está pronto para agir e elevar os juros se necessário.

Há ainda a questão do dólar como moeda de reserva global. Yellen acredita que as mudanças geopolíticas continuarão levando os países a buscar alternativas. Em 2022, quando o G7 decidiu sancionar a Rússia pela invasão da Ucrânia, "os riscos estavam claros", disse ela. Muitos países começaram a se perguntar o que aconteceria se estivessem do lado errado de uma decisão geopolítica. Ainda assim, ela não vê mudanças rápidas no curto prazo, porque ainda há poucas alternativas viáveis ao dólar.

Mas talvez a preocupação mais estrutural de Yellen seja com as finanças públicas americanas. A situação fiscal dos EUA deveria ser uma das grandes preocupações dos investidores, na sua visão. Problemas estruturais — como mudanças demográficas que elevam as despesas com previdência e saúde — estão pressionando os gastos públicos para cima. Ao mesmo tempo, nenhum governante tem incentivos para agir, porque cortes são impopulares. Quando o economista Caio Megale, que mediava o painel, perguntou se haveria uma maneira de comunicar à população a necessidade de equilibrar as contas, Yellen respondeu com realismo: "É muito desafiador. Quem faz isso costuma perder a eleição."

A produtividade pode aumentar de novo, como aconteceu com a adoção de novas tecnologias no passado, mas ainda não vemos evidências disso.
— Janet Yellen
É muito desafiador. Quem faz isso costuma perder a eleição.
— Janet Yellen, sobre a dificuldade de comunicar a necessidade de equilibrar as contas públicas
Quer a matéria completa? Leia o original em Brazil Journal ↗
Fale Conosco FAQ