No dia 17 de agosto, o prazo de sessenta dias para um acordo entre o Irão e os Estados Unidos expirou sem resolução, revelando não apenas a fragilidade da diplomacia contemporânea, mas a profunda desconfiança que separa as partes. Em Teerão, a linguagem da negociação cedeu lugar à da escalada ofensiva; em Jerusalém, o cálculo eleitoral sobrepôs-se ao imperativo humanitário. O Médio Oriente encontra-se, uma vez mais, suspenso entre a possibilidade da paz e a iminência do conflito.
Irão e Israel resistem a pressão de Trump para resolver crise no Médio Oriente
Teerão muda de defensiva para totalmente ofensiva
Porque é que o Irão diz que o memorando foi violado se os 60 dias ainda não tinham terminado?
Porque as hostilidades recomeçaram menos de três semanas depois da assinatura. O Irão argumenta que os EUA nunca cumpriram as suas obrigações — não levantaram as restrições ao petróleo, não abriram o estreito de Ormuz como prometido. Para Teerão, o prazo é irrelevante quando a outra parte já quebrou o acordo.
Netanyahu diz que o Hamas deve agir primeiro. O Hamas diz que Netanyahu deve ser pressionado. Como é que isto se resolve?
Não se resolve enquanto ambos exigirem que o outro se mova primeiro. Netanyahu tem eleições em outubro e precisa de parecer forte. O Hamas não pode desarmar-se sem garantias. Kushner está no meio, mas não tem alavanca suficiente para quebrar o impasse.
Trump ameaça bombardear Omã. Isso não é uma escalada perigosa?
É uma ameaça que revela a frustração. Omã está a tentar negociar a navegação no estreito de Ormuz com o Irão, sem os EUA. Trump vê isso como interferência. Mas a ameaça também mostra que ele está disposto a usar força militar para impor a sua vontade.
O que muda quando o Irão passa de defensivo para ofensivo?
Muda tudo. Defensivo significa esperar, responder a provocações. Ofensivo significa tomar a iniciativa, atacar primeiro. Teerão está a dizer que se a diplomacia falhar, vai agir — ataques militares no estreito, bloqueio de navios, escalada regional.
Porque é que Gaza continua preso nisto tudo?
Porque é o ponto de fricção que ninguém consegue resolver. Israel quer segurança, o Hamas quer governação, os civis querem paz. Mas enquanto Netanyahu estiver preocupado com eleições e o Hamas recusar desarmar-se sem garantias, Gaza fica congelado no impasse.
El Pulso
- O prazo de negociações entre Irão e EUA expirou a 17 de agosto sem qualquer acordo, com Teerão a acusar Washington de ter violado o memorando assinado em junho logo após a sua assinatura.
- O Irão abandonou formalmente uma postura defensiva e anunciou uma estratégia 'totalmente ofensiva', ameaçando ataques militares no estreito de Ormuz caso o bloqueio naval norte-americano persista.
- Trump respondeu ameaçando bombardear Omã se o país 'atrapalhar' as negociações sobre o estreito, revelando uma impaciência crescente com soluções que escapem ao controlo de Washington.
- Em Jerusalém, Netanyahu rejeitou o plano de paz de 15 pontos para Gaza por razões eleitorais, exigindo que o Hamas aja primeiro e recusando qualquer retirada israelita antes do desarmamento completo do grupo.
- Milhões de civis em Gaza permanecem reféns de um impasse em que cada parte exige que a outra dê o primeiro passo, enquanto a região inteira se aproxima de um ponto de rutura.
No dia 17 de agosto, o prazo de sessenta dias para um acordo entre o Irão e os Estados Unidos expirou sem resolução, revelando não apenas a fragilidade da diplomacia contemporânea, mas a profunda desconfiança que separa as partes. Em Teerão, a linguagem da negociação cedeu lugar à da escalada ofensiva; em Jerusalém, o cálculo eleitoral sobrepôs-se ao imperativo humanitário. O Médio Oriente encontra-se, uma vez mais, suspenso entre a possibilidade da paz e a iminência do conflito.
O prazo expirou numa segunda-feira de agosto sem qualquer resolução. Sessenta dias tinham sido concedidos ao Irão e aos Estados Unidos para negociarem um acordo permanente — tempo que terminou a 17 de agosto marcado não por avanços, mas por uma troca de ameaças que confirmou o quanto a paz no Médio Oriente permanece distante.
Em Teerão, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros rejeitou a própria relevância do prazo. Esmail Baghaei acusou Washington de ter violado sistematicamente o memorando assinado em junho pelos presidentes Trump e Pezeshkian, argumentando que as negociações nunca chegaram sequer a começar. O acordo previa um cessar-fogo, a reabertura do estreito de Ormuz e o levantamento das restrições ao comércio de petróleo iraniano — condições que, segundo Teerão, nunca foram cumpridas. A mudança de tom foi abrupta: uma fonte sénior da administração iraniana revelou que o país havia decidido adotar uma estratégia 'totalmente ofensiva', prometendo um ataque militar 'oportuno e preciso' caso o bloqueio naval norte-americano persistisse.
Do outro lado do Atlântico, Trump respondeu ameaçando bombardear Omã caso o país 'atrapalhasse' um acordo sobre o estreito — revelando uma impaciência crescente com qualquer solução que não fosse inteiramente controlada por Washington, mesmo enquanto Mascate e Teerão negociavam bilateralmente a gestão do tráfego marítimo.
Em Jerusalém, a situação era igualmente intratável. Jared Kushner reuniu-se com Netanyahu durante quatro horas, acompanhado por Nikolai Mladenov e Tony Blair, para tentar fazer avançar a segunda fase do plano de paz de 15 pontos para Gaza. O resultado foi apenas o acordo de criar dois grupos de trabalho. Netanyahu insistiu que Israel não se retiraria de Gaza antes do desarmamento completo do Hamas e que avançar com o plano era politicamente 'problemático' antes das eleições de outubro. Kushner pressionou-o para que 'não criasse obstáculos' — mas o gabinete israelita classificou as conversações como 'profundas e construtivas', linguagem que mascarava a ausência de qualquer compromisso real.
No domingo anterior, Kushner tinha encontrado pela primeira vez Khalil al-Hayya, o novo líder do Hamas, no Egito, exigindo desarmamento verificável e renúncia ao poder em Gaza. O Hamas respondeu pedindo pressão sobre Netanyahu. Netanyahu exigia que o Hamas agisse primeiro. O impasse era total — e milhões de civis em Gaza permaneciam presos num conflito sem fim à vista.
O prazo expirou numa segunda-feira de agosto sem qualquer resolução à vista. Sessenta dias tinham sido concedidos ao Irão e aos Estados Unidos para negociarem um acordo permanente — tempo que terminou no dia 17, marcado não por avanços diplomáticos, mas por uma troca de ameaças que deixou claro que a paz no Médio Oriente permanecia tão distante quanto antes.
Em Teerão, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros rejeitou a própria relevância do prazo que se esgotava. Esmail Baghaei acusou Washington de ter violado sistematicamente o memorando assinado a 17 de junho pelos presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian. Segundo o diplomata iraniano, as negociações nunca chegaram sequer a começar porque os Estados Unidos cometeram «violações flagrantes e generalizadas» do acordo poucos dias após a sua assinatura. O memorando previa um cessar-fogo, a reabertura do estreito de Ormuz, e — conforme Teerão argumenta — o levantamento das restrições ao comércio de petróleo iraniano e do bloqueio aos portos e navios do país. Nenhuma destas condições foi cumprida. As hostilidades foram retomadas menos de três semanas depois, num contexto de divergências sobre quem controlaria a navegação naquele estreito vital.
A mudança de tom em Teerão foi abrupta. Uma fonte sénior da administração iraniana revelou à Reuters que o país havia decidido abandonar uma postura defensiva e adotar uma estratégia «totalmente ofensiva». As entidades iranianas deveriam estar preparadas para uma escalada de tensões não apenas no estreito de Ormuz, mas em toda a região. Teerão prometeu um ataque militar «oportuno e preciso» caso a diplomacia continuasse a falhar e o bloqueio naval norte-americano persistisse.
Do outro lado do Atlântico, Donald Trump respondeu com a sua própria ameaça. Numa entrevista à Fox News, o presidente dos EUA advertiu que bombardearia Omã caso o país «atrapalhe» um acordo sobre o estreito de Ormuz. Mascate e Teerão estavam a negociar, sem participação norte-americana, a gestão do tráfego marítimo naquela passagem. O Irão afirmava já ter alcançado um entendimento sobre as rotas de navegação e estar a trabalhar num «pacote» mais abrangente com Omã. A ameaça de Trump sugeria uma impaciência crescente com qualquer solução que não fosse inteiramente controlada por Washington.
Em Jerusalém, a situação era igualmente intratável. Jared Kushner, genro de Trump e enviado especial da Casa Branca, reuniu-se com Benjamin Netanyahu para tentar fazer avançar a segunda fase do plano de paz de 15 pontos para Gaza. Acompanhavam-no Nikolai Mladenov, alto representante para Gaza no Conselho de Paz — um órgão criado por Trump para aplicar o plano — e Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico escolhido para integrar o conselho. Após quatro horas de discussão, a reunião produziu apenas o acordo de criar dois grupos de trabalho: um sobre desarmamento e desmilitarização de Gaza, outro sobre saneamento, água potável e saúde pública.
Netanyahu manteve a sua posição intransigente. Segundo fontes israelitas, o primeiro-ministro insistiu que Israel não se retiraria de Gaza até que o Hamas fosse completamente desarmado. Mais significativamente, Netanyahu argumentou que avançar com o plano era politicamente «problemático» antes das eleições de 27 de outubro em Israel. Exigiu que o Hamas tomasse medidas primeiro. Kushner, por seu lado, pressionou Netanyahu para que «não criasse obstáculos» à implementação do plano, incluindo a retirada gradual das Forças de Defesa de Israel do enclave. O gabinete de Netanyahu classificou as conversações como «profundas e construtivas» — linguagem diplomática que mascarava a ausência de qualquer compromisso real.
No domingo anterior, Kushner tinha tido um encontro inédito de duas horas com Khalil al-Hayya, o novo líder do Hamas, no Egito. O norte-americano insistiu que o grupo adotasse medidas verificáveis de desarmamento e renunciasse a qualquer papel na governação de Gaza. O Hamas respondeu que estava empenhado no plano, mas defendeu que houvesse pressão sobre Netanyahu. Era uma posição que Netanyahu rejeitava: o primeiro-ministro israelita insistia que o Hamas deveria agir primeiro.
O impasse era total. Três semanas antes do fim do prazo de negociações com o Irão, as hostilidades tinham sido retomadas. Netanyahu recusava-se a aceitar o plano de paz para Gaza por razões eleitorais. Trump ameaçava bombardear Omã. Teerão preparava-se para uma escalada ofensiva. Milhões de civis em Gaza permaneciam presos num conflito sem fim à vista, enquanto a região inteira se aproximava de um ponto de ruptura.
Citas Notables
O prazo de 60 dias para as negociações é irrelevante. A implementação está completamente paralisada pelas flagrantes violações dos Estados Unidos.— Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano
Se Omã se intrometer, vamos bombardeá-los.— Donald Trump, presidente dos EUA